Frequentemente em Santa Catarina, o ciclone extratropical aparece nas previsões como responsável por dias de chuva, vento forte e queda de temperatura. Nesta terça-feira (7), o Estado volta a ser afetado por um desses sistemas, que se forma entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul, associado a uma frente fria. A repetição de alertas leva à impressão de que o Estado é um “para-raio” desses fenômenos.
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Essa percepção tem base na realidade, embora não signifique que o Estado “atraia” ciclones. O que pesa é a posição geográfica, favorável à formação e ao deslocamento desses sistemas atmosféricos — fenômenos que vêm se tornando mais intensos em todo o país com o aquecimento global.
Dados mostram concentração de desastres no Sul
De acordo com um estudo da Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica, as regiões Sul e Centro-Oeste concentram 74% dos desastres associados a ciclones extratropicais, frentes frias e ondas de frio no país. No Sul, especialmente em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, chama atenção o aumento expressivo de eventos extremos, tanto no litoral quanto no interior.
No dia a dia, isso se traduz em alertas constantes. Em 2024, foram mais de 3 mil avisos por SMS da Defesa Civil e 337 alertas enviados diretamente para celulares em áreas de risco — a maioria por chuva intensa e tempestades. O Estado lidera o país em adesão ao sistema, com 10,54% da população cadastrada, mais que o dobro da média nacional (5,18%).
Saiba mais sobre o ciclone que afeta SC nesta semana
O que é um ciclone extratropical
Um ciclone extratropical é um sistema de baixa pressão atmosférica que se forma fora da região tropical, geralmente no encontro entre massas de ar quente e frio. Ele organiza frentes frias e quentes e provoca mudanças rápidas no tempo, como chuva intensa, rajadas de vento e queda de temperatura.
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Localização favorece formação de sistemas
Santa Catarina está situada em uma faixa de transição atmosférica, onde massas de ar frio vindas do Sul frequentemente encontram ar quente e úmido de origem tropical. Essa condição é essencial para o desenvolvimento de ciclones extratropicais e para a atuação recorrente de frentes frias.
Embora os ciclones se formem majoritariamente sobre o mar e nas latitudes médias, seus efeitos — como chuvas intensas, vendavais e quedas bruscas de temperatura — se espalham por grandes áreas do continente. Por isso, regiões distantes do local de formação também aparecem nas estatísticas de desastres associados a esses sistemas.
Fenômenos comuns e impactos crescentes
Dados mais recentes mostram que os impactos e a intensidade dos desastres associados a ciclones, frentes frias e ondas de frio vêm se intensificando em todo o país. O estudo da Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica aponta que os desastres ligados a ciclones, frentes frias e ondas de frio cresceram 19 vezes desde a década de 1990 no Brasil. Ao todo, foram 407 registros no período, com a média anual saltando de 2,3 para 44 ocorrências.
Segundo os pesquisadores, o aquecimento global tem papel central nesse cenário. O aumento da temperatura da superfície do mar amplia a quantidade de calor e umidade disponíveis na atmosfera, fornecendo mais energia para esses sistemas e potencializando seus efeitos.
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— A superfície do mar mais quente (em um estado que chamamos de oceano febril) libera mais calor e umidade, alimentando e intensificando esses sistemas e provocando ventos e chuvas cada vez mais fortes — explicou Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Unifesp e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, em entrevista ao NSC Total durante a COP 30.






