Mantido em segredo até a abertura oficial da 172ª Festa do Divino Espírito Santo de Santo Amaro da Imperatriz, o chamado “Palácio Imperial” virou novamente motivo de curiosidade entre moradores e visitantes. Cercado por tapumes, cortinas e expectativa, o espaço cenográfico só será revelado ao público na noite de sábado (23), quando milhares de pessoas devem visitar o salão principal da festa.

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Por trás do cenário deste ano está um projeto que mobilizou mais de 100 profissionais, fornecedores de diferentes regiões do país e meses de pesquisa histórica para transformar o salão da festa em uma representação da tradição imperial ligada ao Divino Espírito Santo.

Responsável pela cenografia e decoração da edição deste ano, o cenógrafo Weliton Kirchner afirma que a intenção foi ir além de um espaço visualmente impactante.

— A gente trabalhou bastante para não ser só apenas uma estrutura, não ser apenas um cenário, mas que o cenário contasse uma história e que fosse a história realmente da fé do Divino, da essência religiosa, da tradição e da fé das pessoas da cidade — explica.

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O que é a Festa do Divino?

A Festa do Divino é uma das celebrações religiosas e culturais mais tradicionais de Santa Catarina. Em Santo Amaro da Imperatriz, ela chega à 172ª edição e é considerada uma das maiores do país, com público estimado em cerca de 60 mil pessoas ao longo de quatro dias de programação.

A tradição tem origem portuguesa e açoriana e remete à devoção ao Divino Espírito Santo, associada à Rainha Santa Isabel, de Portugal. Segundo a história católica, a rainha teria prometido doar sua coroa e cetro ao Divino em troca da paz na família real. Também é dela a conhecida narrativa do “milagre das rosas”, quando pães destinados aos pobres teriam se transformado em flores.

Até hoje, os símbolos imperiais fazem parte da celebração. O cortejo com roupas de época, a figura da imperatriz, as coroas e os cetros remetem diretamente à tradição portuguesa preservada pela festa.

Um palácio inspirado na Europa

Para criar o cenário deste ano, a equipe da WK Events iniciou pesquisas ainda em dezembro do ano passado. O estudo reuniu referências arquitetônicas, religiosas e históricas ligadas tanto à colonização portuguesa quanto às origens da Festa do Divino.

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Segundo Kirchner, o casal festeiro pediu um projeto inspirado em palácios europeus, com influência romana e religiosa.

— A gente teve a responsabilidade e o zelo de estudar cada milímetro da história da Festa do Divino — afirma.

Entre as referências utilizadas estão o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, o Palácio Nacional de Mafra, em Portugal, o Panteão de Roma e até elementos da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

O teto cenográfico também buscou inspiração no rococó francês e nos salões do Palácio de Versalhes, com molduras douradas, composição simétrica e elementos ornamentais.

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Além da arquitetura, o projeto incorporou jardins, árvores cenográficas e fontes d’água inspiradas nos jardins europeus. A proposta também faz referência à espiritualidade franciscana e aos 800 anos da morte de São Francisco de Assis.

Segredo até a abertura

O mistério em torno do palácio faz parte da tradição da festa e movimenta a cidade semanas antes da abertura oficial.

— O último mês o assunto pela cidade toda é qual é a roupa do cortejo, como vai estar a decoração, a curiosidade em saber quem vai ser o novo festeiro do próximo ano — conta Kirchner.

Segundo ele, o espaço precisou ser completamente isolado para evitar vazamentos.

— A gente é obrigado a cercar o Palácio Imperial praticamente. As pessoas tentam espiar, colocar o celular para gravar alguma coisa. Então tivemos que fechar com uma cortina de uns 30 metros dentro do salão para ninguém conseguir filmar — relata.

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A revelação oficial acontece apenas no sábado à noite, por volta das 19h.

“Palácio Imperial” está tapado por tapumes (Foto: Arquivo Pessoal Weliton Kirchner)

Estrutura gigante e trabalho artesanal

A cenografia ocupa mais de mil metros quadrados e reúne elementos produzidos artesanalmente. As paredes e tetos foram construídos com tecidos sublimados e estruturas em madeira, revestidas com EPS esculpido e acabamento em cimento e pintura artística.

— Cada componente, colunas, molduras, frontões e ornamentos, foram elaborados para reforçar o caráter artístico e exclusivo do projeto — descreve a ficha técnica enviada pela organização.

O projeto contou com fornecedores de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás, além de equipes de cenografia, design, logística, engenharia, marcenaria e pintura artística.

Fé, tradição e solidariedade

Além do aspecto visual, o palácio também dialoga com rituais mantidos há décadas pela Festa do Divino. Entre eles está a tradição das “massas”, grandes pães preparados para a celebração e depois arrematados em leilões beneficentes.

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Segundo Kirchner, os alimentos são doados para famílias em situação de vulnerabilidade, retomando simbolicamente a prática atribuída à Rainha Isabel de distribuir pão aos pobres.

— Todo o cenário conversa com a história da festa, principalmente esse ano, onde foram pegas as referências históricas, bibliográficas e religiosas — resume.