A tradição do futebol brasileiro e a liturgia do poder em Brasília estão prestes a colidir com o calendário das urnas. Historicamente vista como o estágio final da glória da Amarelinha, a rampa do Palácio do Planalto pode se tornar um terreno sensível este ano. Com a proximidade das Eleições 2026, o rito de passagem da Seleção Brasileira que costuma unir o triunfo esportivo ao prestígio da presidência agora é alvo de cálculos políticos intensos, sob o risco de transformar o “protocolo de campeão” em um cabo de guerra eleitoral em um país polarizado.

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A rampa, a urna e o protocolo

Para compreender o cenário atual, é preciso revisitar o precedente de 2018. Naquela ocasião, bastidores da CBF e do governo federal confirmaram uma ruptura histórica: se conquistasse o título na Rússia, a Seleção de Tite não passaria por Brasília. O movimento, que interromperia décadas de tradição, era uma estratégia nítida de distanciamento de uma classe política com popularidade em baixa.

Agora, o fantasma do pragmatismo volta a rondar. Com o clima de “faca na caveira” das Eleições 2026, o temor é que a Seleção repita a dose para blindar a imagem e evitar que o possível hexacampeonato seja convertido em peça de propaganda ou combustível para protestos em um país conflagrado.

A rampa que consagra o futebol e divide o poder

Brasília e a Seleção têm uma história que precede a própria cidade em si. De JK, que recebeu os campeões em 1958 em meio aos canteiros de obras, ao uso político do Tri pela ditadura em 1970, a Capital Federal sempre foi o palco da consagração.

As festas do Tetra (1994) e do Penta (2002) elevaram o tom, transformando o Eixo Monumental em um mar de gente onde a segurança dava lugar à catarse coletiva. Hoje, esse histórico de mobilização popular é o que dita o jogo de interesses: para as “raposas políticas“, a imagem da taça em Brasília é um trunfo valioso — que pode ser usado como palanque ou evitado como risco, dependendo da conveniência eleitoral de quem comanda o país.

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O impasse do protocolo e o alerta de segurança

Se o hexa vier, o tradicional rito da Medalha da Ordem do Mérito no Planalto enfrentará um obstáculo inédito: a Justiça Eleitoral. O uso de prédios públicos e a exposição de candidatos ao lado dos campeões em ano de eleição podem se configurar abuso de poder, gerando uma ofensiva de processos judiciais.

Para evitar que o Eixo Monumental vire palanque, o Governo do Distrito Federal (GDF) e o Ministério do Esporte articulam um plano de contingência. A confirmação do desfile oficial da Seleção Brasileira agora depende de um acordo sensível entre a CBF e a Segurança Pública para blindar a imagem da Seleção e garantir que a festa seja do povo, e não de campanha.

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*Com edição de Luiz Daudt Junior.