A cada reunião do Banco Central para definir a taxa Selic, a taxa básica de juros do país, a expectativa é de que o crédito, de modo geral, fique mais barato. No entanto, o rotativo do cartão de crédito, que é a taxa cobrada quando o consumidor não paga o valor total da fatura, funciona de maneira diferente. Em fevereiro de 2026, com a Selic em 15%, os juros do rotativo seguem em patamares próximos a 450,0% ao ano.

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Essa diferença mostra que a Selic, embora sirva como referência para o custo do dinheiro no Brasil, não é o único fator que define o preço do cartão de crédito. A cobrança dessa modalidade depende de outros motivos que fazem com que ela ignore as quedas da taxa básica.

Da Selic ao bolso: o caminho dos juros no seu cartão

O cartão de crédito é um empréstimo de risco

Para entender o custo do cartão, é preciso saber como os bancos enxergam esse tipo de empréstimo. Ao contrário de um financiamento de casa ou de um empréstimo descontado direto na folha de pagamento (o consignado), o cartão de crédito não tem uma garantia.

Para o banco, quando não existe um bem ou uma garantia clara de que o valor será devolvido, a chance de não receber o dinheiro de volta é maior. Esse risco de calote é o principal motivo para os juros serem tão altos. A taxa cobrada acaba servindo como um “fundo” para que o banco compense os prejuízos causados por quem não consegue pagar as contas.

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O que compõe o custo final do cartão

Além do risco de calote, o preço final do cartão, que os especialistas chamam de spread bancário (a diferença entre o que o banco paga para ter o dinheiro e o que ele cobra ao emprestar), envolve outros custos que não mudam apenas porque a Selic caiu:

  • Custos de operação: Manter sistemas de segurança contra fraudes, tecnologias de processamento e atendimento ao cliente gera custos fixos, independentemente de a Selic estar alta ou baixa.
  • Impostos: Parte do que é cobrado sobre o crédito refere-se a impostos federais que incidem sobre as operações financeiras.
  • Cautela dos bancos: As instituições financeiras costumam ser lentas para reduzir as taxas de cartões. A estratégia adotada pelo mercado é esperar para ver se a queda da taxa Selic será duradoura antes de fazer ajustes. Os bancos evitam baixar os juros rapidamente para não terem prejuízo caso a economia volte a mudar.

As novas regras ajudaram, mas não baixaram o preço

Nos últimos anos, o Banco Central criou normas para tentar controlar o endividamento, como a regra que obriga o parcelamento da dívida após 30 dias de uso do rotativo.

Essas mudanças serviram para evitar que a dívida crescesse sem controle, mas não alteraram o custo do crédito em si. O parcelamento que acontece após o rotativo ainda tem taxas de juros altas, pois a origem da dívida continua sendo um tipo de crédito de alto risco. A norma ajudou a organizar o pagamento, mas não transformou o crédito rotativo em um produto barato.

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Como o mercado financeiro analisa o cenário atual

Diante da falta de queda automática dos juros, o mercado financeiro observa algumas estratégias que se tornaram comuns entre quem busca o equilíbrio financeiro:

  • A importância do CET (Custo Efetivo Total): Especialistas reforçam que olhar apenas para a taxa de juros pode ser enganoso. O CET é o indicador mais preciso, pois mostra o custo real de toda a operação, somando juros, impostos e taxas.
  • Busca por linhas mais baratas: A substituição de dívidas é apontada como a prática mais comum no mercado bancário. Em vez de manter o saldo no rotativo, o movimento observado é a busca por empréstimos que possuam taxas nominais menores, como o crédito pessoal com garantia ou o consignado, para quitar a fatura do cartão.
  • Cartão como meio de pagamento: Entidades de defesa do consumidor destacam que, no formato atual da economia, o cartão de crédito mantém sua função de meio de pagamento. O uso do crédito como complemento do orçamento mensal é o que, na prática, leva o consumidor à entrada no rotativo, onde os juros compostos agem de forma acelerada.

Embora a Selic seja o termômetro da economia do país, os números indicam que, no cartão de crédito, o preço do dinheiro é definido pelo risco que cada cliente representa para o banco. Enquanto a decisão do Copom afeta a economia como um todo, o custo do rotativo permanece alto, reagindo muito mais à inadimplência e aos custos operacionais dos bancos do que às mudanças na taxa básica.

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*Com edição de Luiz Daudt Junior.