O telefone tocava, a campainha soava, alguém chamava. Situações simples, rotineiras, que fazem parte da vida de qualquer pessoa. Mas houve um período em que o delegado regional de Polícia de Xanxerê, no Oeste de Santa Catarina, Vinicius Buratto Iunes, já não conseguia atender a nenhum desses chamados. Bastavam alguns passos para que a falta de ar tomasse conta do corpo. Levantar rapidamente da cama podia provocar um desmaio. Caminhar cinquenta metros era um esforço quase impossível.
Continua depois da publicidade
Hoje, aos olhos de quem o vê comandando a 16ª Delegacia Regional de Polícia, responsável por 11 municípios do Oeste catarinense, é difícil imaginar que ele passou meses entre hospitais, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), viveu ligado a aparelhos em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e esteve a poucos dias de perder a vida enquanto aguardava um transplante de coração.
Mais de onze anos depois daquela cirurgia que mudaria seu destino, Vinicius ainda guarda na memória cada detalhe do dia em que ouviu dos pais uma frase simples, mas que representava tudo:
— Filho, deu certo.
Do diagnóstico inesperado à corrida contra o tempo
A história começou de forma silenciosa. Delegado de Polícia desde os 22 anos de idade, à época considerado o delegado mais jovem do Brasil, Vinicius levava uma rotina intensa. Trabalhava muito, praticava atividades físicas regularmente e mantinha hábitos considerados saudáveis. Não fumava, não bebia e nunca usou drogas.
Continua depois da publicidade
Por isso, quando recebeu o diagnóstico de uma grave doença cardíaca, a notícia pareceu incompatível com a realidade que vivia. Tudo aconteceu após uma série de exames realizados em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Ao analisar os resultados, o cardiologista foi direto.
— Ou você trata corretamente ou vai morrer — disse o médico a ele, na época.
Os exames apontaram uma miocardiopatia dilatada idiopática, doença que compromete a capacidade do coração de bombear sangue para o organismo. Mais tarde, os médicos descobririam uma origem genética para o problema, mas naquele momento havia apenas incertezas.
Curiosamente, a gravidade da situação não foi compreendida de imediato. Vinicius ainda conseguia trabalhar, caminhar e manter boa parte da rotina. A sensação era de que os medicamentos resolveriam o problema. Mas não resolveram.
Com o passar dos meses, a doença avançou de forma agressiva. Vieram as internações frequentes. Depois, a falta de ar constante. Em seguida, a perda gradual da capacidade física. O delegado passou a viver uma rotina de hospitalizações e retornos temporários para casa.
Continua depois da publicidade
A situação tornou-se tão grave que tarefas simples passaram a exigir um esforço gigantesco.
— Eu já não conseguia caminhar cinquenta metros. Se levantasse rápido, minha pressão caía. Em algumas situações, ao tentar correr para atender uma campainha ou pegar um telefone, eu desmaiava — relembra.
As noites também se transformaram em um desafio. Dormir deixou de ser um momento de descanso. Respirar tornou-se difícil até mesmo deitado.
Na tentativa de melhorar o quadro clínico, os médicos implantaram um marca-passo cardíaco. Duas semanas depois, porém, uma nova tragédia atingiria a família. Um trombo formado no coração se desprendeu e atingiu o cérebro.
Vinicius sofreu um AVC. Permaneceu desacordado durante três dias. Enquanto ele lutava pela vida, seus pais ouviam dos médicos uma das notícias mais devastadoras que uma família pode receber: caso sobrevivesse, havia risco de sequelas severas e perda de funções cognitivas.
Continua depois da publicidade
Contra os prognósticos mais pessimistas, ele acordou. Mas o coração continuava falhando. E o tempo estava acabando.
Trinta dias na UTI e a espera por um milagre
Sem alternativas terapêuticas disponíveis, uma equipe especializada concluiu que apenas um transplante cardíaco poderia salvá-lo. A transferência para o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, ocorreu em uma UTI móvel. Naquele momento, Vinicius admite que já estava exausto.
Depois de tanto tempo internado, seu desejo era apenas voltar para casa e passar alguns dias ao lado da família. Mas a situação não permitia esperar. Menos de 48 horas após chegar ao hospital, ele já estava inscrito na fila de transplante.
O quadro clínico era considerado crítico. O coração não conseguia mais manter sozinho o funcionamento adequado do organismo. Os médicos precisaram implantar uma bomba mecânica para auxiliar a circulação sanguínea.
Continua depois da publicidade
Vieram então os trinta dias mais difíceis de toda a trajetória. Durante um mês inteiro, Vinicius permaneceu na UTI, dependente de aparelhos, sondas e medicações invasivas. Grande parte desse período foi vivida entre momentos de sedação e consciência limitada.
As lembranças, porém, permanecem vivas. Uma delas é surpreendentemente simples: a sede.
— Às vezes, tudo o que eu queria era um copo de água. Um copo americano comum. Mas eu não podia beber. A equipe apenas passava uma pedra de gelo ou um pano úmido nos lábios.
Outra lembrança era a falta de autonomia. Ele sentia saudade de atividades que qualquer pessoa realiza sem pensar: escovar os dentes, tomar banho sozinho, caminhar, levantar da cama ou simplesmente ir ao banheiro sem depender de ajuda:
— Eu dependia de outras pessoas para praticamente tudo.
Enquanto isso, os médicos acompanhavam a deterioração progressiva do quadro clínico. Inicialmente, buscavam um coração de alguém com idade próxima à dele, então com cerca de 31 anos. Mas o agravamento da doença obrigou a equipe a ampliar os critérios.
Continua depois da publicidade
O objetivo já não era encontrar o órgão ideal. Era mantê-lo vivo.
— Em determinado momento, os médicos explicaram aos meus pais que qualquer coração compatível poderia representar a diferença entre a vida e a morte.
“Acho que seu coração está chegando”
Era manhã de 23 de março de 2015. Após semanas de internação, Vinicius percebeu uma movimentação incomum dentro da UTI. Profissionais ajustavam aparelhos, retiravam equipamentos e realizavam procedimentos diferentes da rotina. A mãe, que o acompanhava diariamente, também percebeu.
— Filho, está acontecendo alguma coisa. Acho que o seu coração está chegando.
Minutos depois, uma enfermeira confirmou. Um coração compatível havia sido encontrado. Uma equipe já estava em deslocamento para realizar a captação do órgão e a cirurgia começaria em breve.
Continua depois da publicidade
O delegado lembra daquele instante como uma mistura de esperança, medo e esgotamento. Ele sabia que estava diante da última oportunidade. Pediu então que a mãe ligasse para um tio, pastor e ancião da igreja, para que orasse por ele. Coincidentemente, era aniversário do familiar. Ao atender a ligação, ouviu o pedido do sobrinho.
— Ore para que esse coração realmente seja meu. Eu não aguento mais — citou.
A resposta permanece viva em sua memória. Segundo o tio, naquele exato momento ele e a esposa estavam acordados, orando para que Deus enviasse um coração compatível. Pouco tempo depois, Vinicius foi levado ao centro cirúrgico.
A cirurgia durou cerca de oito horas. Quando despertou, já no pós-operatório, encontrou os pais ao lado da cama. Foi então que ouviu a frase que mudaria sua história para sempre.
— Filho, deu certo — ouviu.
O novo coração batia. A luta, entretanto, estava longe de terminar. A recuperação foi lenta, dolorosa e exigiu uma reconstrução completa do próprio corpo. Após meses de internação, ele havia perdido massa muscular, estava extremamente debilitado e precisou reaprender tarefas básicas.
Continua depois da publicidade
As cordas vocais foram afetadas pelo longo período de intubação. Caminhar exigia esforço. O AVC havia comprometido o pé esquerdo. Cada passo era uma vitória. Cada palavra recuperada era uma conquista. Cada dia fora do hospital representava um avanço.
Vida após a cirurgia
Mais de uma década depois, Vinicius, aos 42 anos, continua realizando acompanhamento médico e utilizando medicações diariamente. Permanece atuando como delegado de polícia, mesmo após ter recebido orientação para aposentadoria por invalidez e, posteriormente, para afastamento durante a pandemia por integrar grupo de risco.
Escolheu continuar trabalhando. Mas diz que a principal transformação aconteceu na forma de enxergar a vida. Hoje, valoriza mais a família, a fé e os momentos simples. Também carrega uma gratidão permanente por uma família desconhecida que, em meio à dor da perda de um filho, autorizou a doação dos órgãos.
O doador era um jovem que morreu em um acidente de motocicleta. Vinicius nunca conheceu seus familiares, mas sabe exatamente o que aquela decisão representou:
Continua depois da publicidade
— Graças àquela família, minha mãe não perdeu o filho dela. Meus filhos não perderam o pai. Minha esposa não perdeu o marido. Eu recebi a oportunidade de continuar vivendo.
Passados mais de onze anos desde o transplante, Vinicius segue exercendo a profissão que ama, acompanhando o crescimento dos filhos e construindo novos capítulos ao lado da família. Carrega diariamente a responsabilidade de honrar a segunda oportunidade que recebeu e não esquece que sua história só continuou porque uma família, em meio à dor da perda, escolheu dizer sim à doação de órgãos.
— Quando acordei da cirurgia e ouvi dos meus pais que tinha dado certo, entendi que Deus estava me concedendo uma segunda chance. Desde então, tento viver cada dia com gratidão. Porque houve um momento em que tudo o que eu queria era continuar vivo. Hoje, poder estar com minha família, acompanhar meus filhos crescendo e seguir servindo à sociedade já é motivo suficiente para agradecer todos os dias — conclui.
Continua depois da publicidade
SC é referência em doação de órgãos
Santa Catarina é o estado referência em doação de órgãos no Brasil. Só em 2025, foram 42,8 doadores por milhão de população (pmp), o maior número registrado no país. Outro destaque é a menor taxa de não autorização familiar nacional, de 32%. Os dados são da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), divulgados em maio de 2026.
Só em SC, durante as últimas duas décadas, cerca de 26 mil pessoas, assim como o delegado Vinícius, receberam uma segunda chance de viver graças à doação de órgãos, tecidos ou células.
O movimento coordenado pela SC Transplantes envolve desde a conversa inicial com as famílias, até o transporte e efetivamente o transplante.
Em um processo complexo e sujeito a múltiplos desafios, o Estado foi o mais eficiente na conversão de potenciais doadores em doadores efetivos. Santa Catarina chegou a 43% na efetivação de doadores em relação ao número de notificações.
Continua depois da publicidade
— Cada vez mais, famílias que enfrentam o momento mais difícil de suas vidas, que é a perda de um ente querido, têm autorizado a doação de órgãos e tecidos. Mesmo diante do luto, muitas optam por transformar a dor em um gesto de generosidade, contribuindo para salvar e melhorar a vida de outras pessoas. Este é, sem dúvida, o verdadeiro legado do SC Transplantes: transformar solidariedade em vida — reforça o Joel de Andrade.
Quem pode ser doador?
Todas as pessoas podem doar órgãos e tecidos, sem ser necessário nenhum documento escrito. Basta informar a família sobre o desejo da doação, já que são os familiares que autorizam o procedimento.
Após o consentimento da família, são iniciados o planejamento da logística, os procedimentos para remoção dos órgãos, seleção dos receptores mais compatíveis e, na sequência, distribuição dos órgãos para serem transplantados.








