Uma agenda produzida por um centro de arte da Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc) para ser distribuída à comunidade acadêmica em Florianópolis revoltou alunos por conter símbolos que foram associados a suásticas nazistas. O material foi recolhido pela instituição após ser alvo de contestação.

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A comissão responsável pela publicação afirma que a intenção do projeto era fazer, a partir de uma combinação de letras, alusão à marca do Centro de Artes, Design e Moda da Udesc (Ceart), o que resultou, no entanto, em uma “infeliz coincidência”, que não teria sido percebida anteriormente pelos envolvidos e é tratada agora, ainda na avaliação dos responsáveis, de maneira descontextualizada, sem ter em vista todo o projeto gráfico do material e também o histórico de promoção de respeito à diversidade pelo centro (leia abaixo a íntegra do que dizem os responsáveis e a Udesc).

Material gera revolta de alunos

Produzida pelo departamento para servidores, estudantes e terceirizados, a agenda 2023 tem a cada página grafismos que fazem a utilização das letras que compõem a marca “CEART”.

Em formas diferentes, as letras são colocadas entre pequenos encaixes, ocupando toda a folha e formando ícones diferentes. A página com o símbolo associado à suástica nazista é dedicado à letra “E”.

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— Inicialmente, queria acreditar que foi uma ideia infeliz, mas a gente como designer sabe que nada pode parecer com uma suástica ou um órgão genital. Desde o início, a gente sabe disso. Como que um objeto institucional faz isso e encaixa um “E” desta forma? O que me entristece é que isso também, antes de ser impresso, passa por revisão — disse, ao NSC Total, uma aluna que não quis se identificar.

Um outro aluno da Udesc, também ouvido pela reportagem na condição de anonimato, afirmou que o grupo responsável teria sido avisado da vísivel associação às suásticas.

— A gente sabe que as pessoas que executaram a agenda tinham noção que o encaixe estava formando uma suástica, isso chegou a ser levantado pela líder do grupo responsável pela execução da agenda. Mas para eles, não valeria mudar, e isso só seria feito se alguém percebesse — relatou.

Comissão responsável nega intenção

A reportagem ouviu três integrantes da comissão responsável pela agenda: Daiane Dordete, diretora do Ceart; Anelise Zimmermann, à frente da comunicação da biblioteca da Udesc; e Heloíse Guesser, responsável pela comunicação do Ceart. Elas negaram a intenção em produzir material de apelo nazista ou mesmo que o grupo tivesse sido avisado anteriormente sobre a possível associação.

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— Ficamos muito frustradas. Eu mesmo fico pensando tantas vezes: “como é que eu não vi isso?”. Eu fico tentando recapitular tudo o que aconteceu. A gente trabalhou nesse projeto no ano passado. Começamos em agosto e terminamos por outubro, quando foi feita a finalização. Infelizmente, a gente não notou, porque para nós, de fato, era só a composição da marca do Ceart — disse Zimmermann.

— Foi uma coisa que nos deixou muito tristes, essa relação, porque, de fato, foi uma triste coincidência. E qual foi a atitude? Foi aquilo de recolher todo o material que a gente ainda tinha oportunidade e deixar à disposição para troca aos alunos que já tinham recebido. A gente resolveu tirar aquela página para não gerar um desconforto, foi sensível a essa questão das pessoas que reconheceram aquilo ali. Mas queria deixar bem claro que não tem nenhuma relação, foi mesmo uma infeliz coincidência — afirmou Guesser, acrescentando que, se avaliado todo o material, fica evidente a não intencionalidade.

Já a diretora do Ceart disse que a associação da agenda a suásticas ganhou força em um contexto de disseminação de notícias falsas. Ela exemplificou citando que, no ano passado, uma aluna foi acusada de racismo com “black face” por aparecer em um foto de WhatsApp com o rosto pintado de tintura de jenipapo, quando, posteriormente, descobriu-se que ela era negra e de origem indígena.

Dordete citou também boatos que circularam entre a comunidade acadêmica nas redes sociais recentemente sobre ameaças de ataques à Udesc por conta da tragédia da creche em Blumenau.

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— Essas descontextualizações e disseminações de informações distorcidas nos magoam profundamente, é como tirar um ponto de algum lugar sem contexto. E infelizmente é esse tipo de comportamento altamento nocivo que viemos acompanhando em muitos estudantes. Então por isso que fiz questão de destacar que isso não é algo de agora, é o segundo contexto que a gente vivencia esse ano — disse a diretora, afirmando que o Ceart criou uma comissão de enfrentamento à desinformação.

Leia a íntegra do que diz a Udesc

O Centro de Artes, Design e Moda (Ceart) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) informa que a Agenda Permanente Ceart, produzida para os servidores, estudantes e terceirizados, foi recolhida dos pontos de distribuição para a retirada de uma página cujo grafismo está gerando uma associação controversa.

Entre os elementos do projeto gráfico está a utilização das letras que compõem a marca CEART, formando diversas padronagens. Por uma infelicidade, uma destas padronagens levou a uma associação que não corresponde à realidade do projeto, e que não havia sido percebida durante o desenvolvimento do material. Sensível a esta questão, e reafirmando seu compromisso com a cultura de paz e a não-violência, a Udesc Ceart optou por recolher as agendas para a correção deste problema.

As agendas estarão disponíveis novamente para retirada a partir do dia 15 de maio nos departamentos (para estudantes de graduação e professores), secretarias de pós-graduação (estudantes de pós-graduação) e Direção Geral (técnicos e terceirizados). Aqueles que já retiraram o material podem substituí-lo na sala da Direção Geral.

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Conforme página introdutória da agenda, a Udesc Ceart reafirma seu desejo de “formar pessoas capazes de contribuir para o desenvolvimento de Santa Catarina e do Brasil, de forma crítica e construtiva. Profissionais comprometidos e comprometidas com as necessidades sociais, que atuem com respeito a toda e qualquer diversidade, seja de raça, credo, classe social, gênero ou orientação sexual, colaborando para a construção de uma sociedade mais inclusiva, justa e igualitária”.

A Direção Geral coloca-se à disposição para mais informações e também para conversar pessoalmente com todas e todos que desejarem.

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