Um vídeo que critica a maneira com que está sendo feita a limpeza da Lagoa da Chica, no Sul da Ilha de Santa Catarina, repercutiu nas redes sociais nesta terça-feira (30). O registro, feito por um morador da capital catarinense e membro do Clube de Observação de Aves de Florianópolis (COA Meiembipe), mostra a manutenção do local sendo feita com uma máquina.
Continua depois da publicidade
No vídeo, publicado na rede social do grupo, também é possível notar a retirada de diversas plantas taboa, uma espécie aquática que, segundo o biólogo Fernando Farias, cofundador do COA Meiembipe, contribui para a biodiversidade ao fornecer habitat e alimento para a fauna.
“Recebemos hoje pela manhã um vídeo denúncia de nossos membros mostrando uma ‘limpeza’ sendo feita na Lagoa da Chica. O local é habitat de inúmeras aves aquáticas que dependem dessa vegetação, especialmente nessa época do ano, quando utilizam o local para nidificação, alimentação e descanso. A limpeza/manutenção da Lagoa da Chica deveria ser feita de forma mais cuidadosa e manual, não com uma máquina, onde a pessoa que opera não consegue distinguir onde há ninhos ou qualquer tipo de fauna habitando o local. A Lagoa da Chica é lar de várias espécies, algumas em condições vulneráveis na ilha, como Tiê-sangue e Cardeal-do-banhado”, escreveu o grupo na legenda da publicação.
Nidificação é um termo utilizado em referência ao período em que as aves constroem seus ninhos em um local que consideram seguros para reprodução, colocando ovos e abrigando os filhotes. Neste processo, elas utilizam, por exemplo, a vegetação local para proteção e alimento.
Há uma estimativa de que 104 espécies de aves, aquáticas e não aquáticas, habitam a Lagoa da Chica. O número está registrado no aplicativo eBird, projeto global de ciência cidadã que permite aos observadores o registro e compartilhamento de imagens das aves observadas por eles.
Continua depois da publicidade
Assista ao vídeo
Procurada pelo NSC Total, a prefeitura de Florianópolis confirmou que está realizando a limpeza da Lagoa da Chica, retirando as macrófitas aquáticas, plantas que se proliferam em excesso em determinados períodos e podem comprometer a qualidade da água e o equilíbrio ambiental do local. O órgão nega, no entanto, que a intervenção envolva a remoção da vegetação natural utilizada para nidificação, alimentação ou descanso.
Ainda, a prefeitura adicionou que o trabalho tem como objetivo “melhorar a circulação da água e garantir as condições adequadas do ecossistema, além de preservar o habitat das espécies que dependem da Lagoa da Chica”.
A prefeitura não informou, no entanto, de que forma garantirá a preservação do habitat das espécies que dependem da Lagoa da Chica. Questionada se a máquina seria a maneira ideal de realizar a limpeza, o órgão não retornou até o fechamento da matéria. O espaço segue aberto.
Lagoa da Chica é área de preservação em Florianópolis
A Lagoa da Chica fica na planície sedimentar do Campeche, no Sul da Ilha de Santa Catarina. Ela é uma Área de Preservação Permanente (APP), com uma extensão de 4,6 hectares, tombada como patrimônio Natural e Paisagístico do Município de Florianópolis pelo decreto municipal n° 135/88 de 5 de junho de 1988.
Continua depois da publicidade
De acordo com o biólogo Fernando Farias, a lagoa recebe, todos os anos, várias aves limícolas migratórias que dependem do local para descansar e se alimentar. Na semana passada, um dos membros do grupo, que já tem mais de 50 pessoas, registrou pela primeira vez a Marreca-cabocla — ave que pode ser vista em grandes bandos durante as migrações sazonais — em Florianópolis.
Ao NSC Total, o grupo disponibilizou fotos feitas pelos observadores na Lagoa da Chica.
Veja fotos das espécies que frequentam o local
Para o biólogo que participa do grupo, o uso da máquina pode ter danificado tanto a vegetação aquática, que fica no espelho d’água, quanto a taboa, que forma um habitat onde muitas aves se alimentam e se protegem:
— O maior dano, além da retirada da vegetação que é o ambiente de muitas espécies, é que agora é uma época em que as ervas estão se reproduzindo. Então, com certeza, junto dessa retirada, foi tirado os ninhos de muitas espécies — comenta o biólogo.
Continua depois da publicidade
Farias destaca também que a vegetação presente na lagoa é o que ajuda a mantê-la saudável. Por isso, a retirada dela pode ser um problema.
— A retirada da vegetação vai ajudar a assorear e fazer com que a água evapore e desapareça mais rapidamente. Com isso, a gente vai perder um monte de espécies de aves que não vão ter mais em um ambiente que elas gostam, [que é] aquela vegetação.
O COA Meiembipe é um clube de observação de aves que existe há pouco menos de um ano em Florianópolis. Segundo Guilherme Thielen, também cofundador do grupo, os processos administrativos para torná-lo uma ONG ainda não foram feitos, mas essa é a intenção.
Meiembipe é uma palavra de origem Tupi-Guarani, que significa “elevação de montanhas ao longo do mar”. Foi o primeiro nome que se tem registro utilizado para se referir a Florianópolis, dado pelos indígenas Carijós.
Continua depois da publicidade
— Nós criamos o COA para realizar passarinhadas pela Ilha, mas também para trazer um pouco mais de atenção à avifauna de Florianópolis e dos ambientes que elas ocupam — pontua Guilherme.
Leia a nota da prefeitura na íntegra
“A Prefeitura de Florianópolis, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, informa que está realizando a limpeza da Lagoa da Chica, no Sul da Ilha. O serviço consiste na retirada de macrófitas aquáticas, plantas que se proliferam em excesso em determinados períodos e podem comprometer a qualidade da água e o equilíbrio ambiental do local. A intervenção não envolve a remoção da vegetação natural utilizada para nidificação, alimentação ou descanso. O trabalho tem como objetivo melhorar a circulação da água e garantir as condições adequadas do ecossistema, além de preservar o habitat das espécies que dependem da Lagoa da Chica”.
*Sob supervisão de Giovanna Pacheco
Leia também
Tiroteio interrompe live de taróloga e vítima invade casa pedindo socorro em Camboriú
Mais de 500 jovens participam de missa em homenagem ao santo millennial Carlo Acutis em SC













