A aprovação do fim da escala 6×1 no Senado nesta semana trouxe à cena o episódio mais recente de uma sequência de acontecimentos que esquentou de vez o clima da campanha na eleição presidencial. Após um primeiro turno morno e com atenções divididas com a crise no Judiciário, o segundo turno ganhou temperatura com uma batalha jurídica envolvendo canais no WhatsApp, atos de rua e polêmicas sobre idas a debates.
A aprovação do fim da escala 6×1 colocou em prática uma pauta defendida nos últimos meses por Lula e levou Flávio Bolsonaro a rever sua posição sobre o tema. A medida integrou um pacote do governo para demonstrar capacidade de reação após o primeiro turno, quando o petista terminou 2,2 milhões de votos atrás do adversário.
A movimentação incluiu ainda a discussão sobre a PEC da Segurança Pública e medidas de apoio a microempreendedores individuais (MEIs) e pequenas empresas. O projeto tem previsão de um Pix de R$ 5 mil a ser pago no próximo ano, ampliação do limite anual de arrecadação e renegociação de dívidas de MEIs com a União.
Reação após surpresa nas urnas
Após o resultado do primeiro turno, a campanha de Lula passou por uma reorganização interna após dias de trocas de acusações. Em reunião, a ex-senadora Kátia Abreu (PT-TO) defendeu maior protagonismo do vice-presidente Geraldo Alckmin e menor exposição da primeira-dama Janja. O governador do Piauí Rafael Fonteles e o ministro Camilo Santana (PT) também foram convocados para a coordenação nacional.
A campanha petista também recrutou jovens deputados eleitos do partido, como a catarinense Giovana Mondardo (PCdoB) para alavancar a campanha digital. A parlamentar também participou e ajudou a organizar atos de apoio a Lula em SC nos últimos dias. Um deles teve a presença do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, em Florianópolis.
Flávio Bolsonaro apresentou propostas econômicas em transmissões pela internet, com previsão de cortes de gastos, redução de impostos e mudanças na política fiscal. No horário eleitoral, prometeu manter programas sociais do governo Lula, com alterações em benefícios como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida.
Na direita, Flávio Bolsonaro apareceu em lives na internet ao lado da administradora Daniella Marques, conselheira econômica da campanha, antecipando planos de cortes de gastos, “tesouraço” em impostos e de mudanças na política fiscal. No horário eleitoral, Flávio prometeu manter programas sociais do atual governo, inclusive ampliando valores do Bolsa Família e reduzindo parcelas do Minha Casa, Minha Vida.
O candidato do PL também visitou por duas ocasiões o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, após liberação do Supremo Tribunal Federal (STF). Recebeu ainda declarações de apoio de candidatos derrotados no 1º turno e de diretórios estaduais do MDB. Em agenda no Rio Grande do Sul, encontrou-se com os três governadores do PL eleitos na região Sul, incluindo o catarinense Jorginho Mello (PL).
A deputada federal mais votada de SC, Júlia Zanatta (PL), se envolveu na campanha de Flávio com a organização de atos em alguns municípios catarinenses, com apoio de prefeitos.
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Canais de WhatsApp e disputa nos tribunais
A principal briga que incendiou a penúltima semana antes do 2º turno envolveu canais de WhatsApp de apoiadores. O “Exército do Lula”, criado pelo apoiador e deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG), foi suspenso pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Kassio Nunes Marques, a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, que alegou suposta divulgação de notícias falsas. O relator do caso reverteu a decisão, e a área técnica da Corte não identificou conteúdo falso nas publicações analisadas.
Em reação, o deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG) criou um canal para o rival de Lula, chamado de “Tropa do Flávio”. Dias depois, Nunes Marques exigiu o registro dos endereços como canais oficiais da campanha junto à Justiça Eleitoral. Janones e Nikolas usavam as plataformas para orientar apoiadores e estimular publicações nas redes sociais.
A militância, no entanto, não ficou restrita aos pelotões do WhatsApp. Apoiadores de Lula e Flávio Bolsonaro fizeram eventos nas ruas para tentar demonstrar força na reta final. No lado petista, dois grandes eventos ocorreram na Avenida Paulista, em São Paulo (SP), dia 11, e na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), dia 12. Em reação, eleitores de Flávio também passaram a organizar atos públicos em apoio ao candidato do PL para os dias que antecedem as eleições.
Idas e vindas sobre debate
A penúltima semana antes do 2º turno também esquentou em razão da participação em debates. Flávio Bolsonaro anunciou que não iria ao debate da Band, o primeiro do 2º turno, no domingo (18), mas voltou atrás após Lula divulgar vídeo confirmando presença e instigando o rival do PL a participar. Flávio chamou Lula de “previsível” e alegou que havia recusado a participação apenas para forçar Lula a aceitar o convite. Será a primeira vez que os dois ficam frente a frente em um debate, já que no 1º turno eles não participaram de nenhum.
O último encontro está previsto para a sexta-feira (23), no debate da Globo. Antes disso, os dois já participaram das sabatinas do Jornal Nacional. A semana final também terá novas pesquisas de intenção de voto. No primeiro levantamento da Quaest, divulgado no dia 14, Flávio Bolsonaro aparecia com com 46% das intenções de voto, contra 44% de Lula.
O que esperar da última semana
Atos de rua, atuação no Congresso e novas batalhas jurídicas. Esses são alguns dos movimentos esperados para a última semana antes do 2º turno. O cientista político Tiago Daher Padovezi Borges, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), projeta que a próxima semana deve ser de movimentação intensa de atos de rua, como já foi visto nos últimos dias, sobretudo por parte da militância ligada a Lula. Do lado bolsonarista, Borges identifica uma postura mais reativa, muito em função do resultado no 1º turno, mas que isso pode mudar nos próximos dias em razão de pesquisas que apontam a proximidade dele com o candidato petista.
Além disso, o cientista político também aponta uma possibilidade de atuação do Congresso, que nesta semana já aprovou a PEC do fim da escala 6×1 e discutiu mudanças na maioridade penal. Por fim, o professor também prevê novas discussões sobre o papel do TSE e a atuação de redes sociais.
“A gente deve ter uma semana um pouco tumultuada, de movimentações tanto no plano de conquista de votos, mas também no ponto de vista dos partidos e de como eles se movimentam no Congresso, alcançando também o Judiciário”, aponta.
Últimas cartadas
O pesquisador em Cultura Política da Universidade do Estado de Santa Catarina, Daniel Pinheiro, também prevê uma semana de ritmo intenso para as duas candidaturas.
“A gente esperava que pelo menos no 2º turno viesse alguma postura mais propositiva dos dois candidatos, mas o que acabou acontecendo foi que a campanha do Flávio se concentrou bastante no Sul, com os governadores eleitos, para tentar manter essa força e talvez até ampliar essa diferença, e a campanha do Lula vem fazendo esse movimento de tentar ‘irar voto’, sobretudo”, avalia.
O professor observa um discurso mais polêmico e acirrado nas redes sociais, que remete ao cenário de briga política intensa de 2018.
“Deve ser uma semana dos últimos escândalos, de quem tiver a carta na manga soltar mais escândalos. Isso já tem aumentado nas últimas propagandas, está sendo com mais ataques entre um e outro. A gente já está vendo nas redes sociais e na imprensa novidades sobre o caso Vorcaro, que até parecem nem estar fazendo tanto efeito, mas que pode voltar à tona. Além de questões ligadas aos ministros do STF, do TSE e algo ligado à aprovação da escala 6×1. As campanhas podem estar guardando fogo para a última semana”, aponta.












