Faxina literária

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Faxina literária (Foto: Unsplash)

O primeiro passo é providenciar a “sujeira”. Espalho frases de qualquer jeito, abuso dos pronomes possessivos, solto umas ideias mal alinhavadas. Que ninguém veja. Há um começo manco, um final precipitado, mas já se percebe o conteúdo, precisa apenas de uma boa faxina. É um texto, apenas mais um texto esparramado na tela em branco. Tem futuro, depois que começar a varredura pode dar certo, mas deixe pra amanhã, desligue o computador e vá dormir.

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No dia seguinte, mãos à obra. A página tem que ficar apresentável, estará diante dos olhos de muita gente, procure não passar vergonha.

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É a partir desse ponto que me animo, que gosto de ser aquela que escreve, sabendo que escrever não é só emendar uma palavra na outra. É limpar, suprimir, arrumar, desinfetar, reescrever uma, quatro, dez vezes, até abrir a porta ao prezado leitor e liberar o acesso, “pode entrar”.

Aquele verbo, por exemplo. A frase ganhará outro ritmo se ele tiver três sílabas em vez de duas. Busque outro com o mesmo sentido e se possível a mesma terminação.

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A palavra medo não se aplica no segundo parágrafo, o assunto não é tão dramático, troque por receio, que fica mais suave, e fique atenta àquela rima ali no meio, a não ser que seja proposital, o leitor perdoa quando o autor poetiza a rotina. Vamos lá, não desanime, ainda há trabalho pela frente. Aquelas redundâncias perto do fim: dispense todas elas.

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Caramba, justo onde inseri uma piada? Cortá-la vai doer, a gente se apega, sabe? Será que posso transferi-la para outra parte do texto? Não, ela não serve, precisa ser eliminada. Lá por novembro você tenta de novo, hoje não é dia de gracinhas. Diga adeus, coragem.

Retiro um “é preciso reconhecer que” para ir direto ao assunto, dou contundência a uma descrição, deleto quatro adjetivos poluentes e troco “até este exato momento” por algo mais enxuto: “por enquanto”, isso. Preciso me manter nas cercanias dos 2.300 caracteres ou comprometerei a diagramação da coluna.

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Passo a guilhotina nos advérbios, enxugo um excesso de palavras terminadas em “ão” e troco uma crítica explícita por uma ironia. Aparafuso uma palavra que estava frouxa, ajusto uma concordância equivocada e inverto a sequência de duas frases – hum, ficou melhor assim. Substituo uma expressão em inglês pela versão em português, retiro umas aspas, altero um tempo verbal, reforço um ponto de vista, volto a colocar as aspas, leio em voz alta e só então me indisponho com uma gíria que não se usa mais. Tudo bem, ela fica.

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Terminou? Termina nunca. Sempre sobra uma gordurinha ou uma pontuação duvidosa, mas, paciência, uma hora é preciso dar o texto por encerrado, relaxe, ficou ajeitadinho, o público já pode entrar.

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