Em pouco mais de 13 minutos de produção, o cineasta Jorge Furtado mostrou em “Ilha das Flores”, de 1989, uma das faces mais cruéis da sociedade. Homens, mulheres e crianças de Porto Alegre disputavam comida no lixão com animais. Restos de alimentos eram a mesma fonte de sobrevivência, tanto das pessoas como dos porcos. Em alguns casos, o que restava dos suínos ainda era consumido pelos humanos. Chocantes, as imagens do curta-metragem – que está disponível no Globoplay – me voltaram à cabeça neste 2021, um ano onde há brasileiros recorrem aos restos de carne para colocar uma proteína na mesa.

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E isso tudo acontece aqui perto da gente, em Santa Catarina, o Estado risco, do pleno emprego e da arrecadação recorde. Famílias buscam ossos para “dar um gostinho” na refeição, como contou uma catarinense em reportagem da NSC TV na última semana. Fica impossível não se sentir impactado também com a imagem do açougue de Florianópolis que passou a vender ossos ao invés de doá-los. Episódios que resumem um país desigual, onde milhares dependem de restos de comida para sobreviver.

Por isso, aos poucos, o cenário de 32 anos atrás em Ilha das Flores se reproduz nos tempos atuais. A necessidade faz o desespero bater ao ponto de que famílias procurem por simples vestígios de alimentos. Brasileiros em outras regiões do país já se enfileiram por qualquer resto de comida em caçambas. 

Enquanto isso, os engravatados de Brasília sentam-se diante de mesas fartas para decisões políticas que os beneficiam, mas deixam de lado os que passam fome. Assim era em 1989, quando Jorge Furtado produziu seu curta histórico, e assim é no 2021 de pandemia do coronavírus. Quem passa fome só interessa para quem decide os rumos do país se a resolução do problema tiver impactos políticos.

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Nessa toada, a desigualdade revela-se parte de um mecanismo cruel onde só quem ganha é quem se utiliza do abismo social para se promover. Prova disso é que se realmente houvesse disposição para o ajuste dessa engrenagem desproporcional, Ilha das Flores não estaria perto de uma segunda edição mesmo mais de três décadas depois.

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