Era um almoço a céu aberto em Florianópolis. O calor estava terrível. O suor escorria por dentro da roupa, a cabeça esquentava, os miolos torravam, a sede aumentava. Pedi um refrigerante, qualquer um. A resposta do garçom veio rápida e com um sorriso maroto:

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– Na elegância?

Sem saber o que ele queria dizer, respondi no desespero:

– Isso mesmo, na elegância.

Pouco depois, em minhas mãos, estava o copo redentor: um pouco de guaraná mergulhado em muito gelo.

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Agradeci ao garçom:

– Esta é a elegância de quem sabe ser elegante. Muito obrigado.

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Desde daquele dia penso no exato sentido da elegância. Para a estilista Coco Chanel, “a simplicidade é a chave da verdadeira elegância”. Para o colega Yves Saint Laurent, “sem elegância no coração não há elegância” que pare de pé.

Fico com a pureza da visão do poeta-filósofo Paul Valéry: “Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir”. Simples assim.

Frite os mesmos

No mundo do jornalismo aprendemos a técnica (muitas vezes perigosa) de se evitar a repetição de palavras – uma besteirada ensinada nas escolas de Comunicação. Dois exemplos clássicos: água será sempre água, jamais o “precioso líquido”; e vinho será sempre vinho, nunca a “bebida dos deuses”.

Nas redações contava-se até uma piada sobre o tema: a mulher pede ao marido, repórter investigativo, para comprar peixes para o jantar. Na saída do trabalho ele vai à peixaria, escolhe, paga, volta para casa, chega, põe a sacola na mesa e deselegantemente diz à patroa, todo pimpão:

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– Estão aí os peixes que você pediu. Agora, frite os mesmos!

César Seabra: Vivendo num país chamado “Sete a Um”

Pessimismo garantido

Sabendo muito bem o que é torcer para o Botafogo, quatro meses atrás apostei que não seríamos campeões brasileiros. Àquela altura éramos os líderes, com folgados dez pontos à frente do adversário mais próximo. Fui chamado de louco, pessimista, derrotista, cético, descrente, negativo, chorão, herege, blasfemador, farofeiro, bravateador, fanfarrão, bufão, gabola, garganta. Deu no que deu.

Nós, botafoguenses, vivemos de nosso glorioso passado. Agora, nada é pequeno por acaso. Somos o que somos. Desafortunados alvinegros.

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O verbo botafogar e a “vitória culposa”

Graças à inacreditável campanha do Botafogo, a língua portuguesa ganha um novo verbo: o “botafogar”. Ele significa dar, oferecer, ceder, doar, emprestar, passar às mãos, entregar. Eu botafogo, tu botafogas…
Neste campeonato também foi criada a expressão “vitória culposa” – quando os times não têm a intenção de ganhar.

Leia outras colunas de César Seabra

Leituras, Leituras, Leituras

Mais três bonitos livros degustados neste 2023 que está perto do fim:

  1. “Gaza, Terra da Poesia”, antologia de 17 jovens poetas palestinos (editora Tabla)
  2. “Brancura”, do norueguês Jon Fosse, Nobel de Literatura deste ano (editora Fósforo)
  3. “De Amor e Trevas”, do escritor israelense Amós Oz (editora Companhia das Letras)

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