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Nem Blumenau e nem a Havan têm a ganhar com a intervenção no Centro Histórico

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Por Evandro de Assis
29/07/2021 - 07h53 - Atualizada em: 29/07/2021 - 10h45
Votos de conselheiros favoráveis ao projeto foram dados em silêncio
Votos de conselheiros favoráveis ao projeto foram dados em silêncio (Foto: Reprodução)

Nem Blumenau e nem a Havan têm a ganhar com a intervenção projetada pela rede de lojas para o Centro Histórico. A proposta é um equívoco do ponto de vista da conservação da memória dos imigrantes alemães e também do desenvolvimento econômico. Indicativos disso restaram evidentes nos método adotados para aprová-la no Conselho do Patrimônio Cultural Edificado (Cope), quarta-feira (28).

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Nenhum dos 12 votos favoráveis à construção de um galpão de paredes lisas e fachada que se propõe réplica da Casa Branca em meio ao mais representativo conjunto de edificações da Blumenau Colônia veio acompanhado de argumentação. Uma maioria silenciosa formou-se, sonegando da comunidade razões para confiar que o empreendimento, da forma como está desenhado, é bom para o patrimônio cultural edificado. Mesmo os representantes da construção civil (Sinduscon) e da habitação (Secovi), que se manifestaram na reunião, trataram mais da necessidade de adaptações arquitetônicas do que defender o que estava posto.

O governo municipal agiu deliberadamente pela aprovação da loja, mas não explicou o porquê. Primeiro, ainda em maio, o secretário de Planejamento, Éder Boron, conseguiu evitar que o projeto fosse votado — e recusado — em nome de uma oportunidade de reformulação pela Havan.

Em junho, a prefeitura nomeou para o Cope o secretário de Desenvolvimento Econômico, Sylvio Zimmermann, que acumula a pasta da Cultura desde a demissão de Rodrigo Ramos. Na reunião desta quarta, Zimmermann ocupou o lugar da suplente, Sueli Petry, diretora do Arquivo Histórico que, na reunião de maio havia feito a mais enfática contestação ao projeto da Havan.

No dia 20 de julho, portaria assinada pelo prefeito Mário Hildebrandt modificou dois suplentes indicados ao conselho pela Secretaria de Planejamento. Por coincidência, as titulares dessas duas cadeiras faltaram à reunião de quarta, cedendo os votos aos recém-nomeados. Por último, todos os oito servidores ligados à prefeitura votaram a favor da Havan, inclusive quem haviam criticado o projeto na primeira reunião. E não houve a prometida reformulação.

Sem a palavra dos favoráveis, ressoaram na reunião as críticas do Instituto Histórico de Blumenau (IHB), do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Furb. Elas tiveram o suporte de dezenas de cidadãos que participaram do debate. Mas a voz majoritária não se traduziu em voto.

Buraco

Outro indício de que a loja padrão da Havan no Centro Histórico será mau negócio para todos veio da fala do ex-prefeito e membro do Conselho de Administração da empresa Félix Theiss. Ele revelou que o terreno na Rua das Palmeiras foi o 12º procurado pela rede, lembrou que está à venda há 15 anos e chamou a área pejorativamente de "buraco", em alusão ao risco de enchentes. Citou o abandono de imóveis do Centro Histórico para ilustrar a desvalorização da região.

Longe de ser a área desejada pela rede, o terreno do antigo estádio do BEC é o que sobrou. Esse contexto facilita a compreensão de como a Havan (não) enxerga a interferência na zona histórica. A proximidade com uma alameda belíssima e sítios de memória relevantes é estorvo, e não vantagem. Fosse tudo concreto ou mato, tanto faria.

Logo a Havan, que devolveu a Blumenau o seu Castelinho, associando a marca da rede a um dos pontos mais fotografados da cidade. À época, a reforma conservou até detalhes do subsolo, mesmo o prédio não sendo tombado. Uma relação bem-sucedida entre patrimônio cultural e economia. Por que não fomentar outra?

A nova loja da Havan como foi proposta consolida a desvalorização do Centro Histórico apontada pela empresa. Instala na outra ponta da Rua das Palmeiras uma construção tão invasiva quanto o Edifício América — equívoco imperdoável com o qual gerações têm de conviver. Oferece uma parede de concreto aos pedestres e estacionamento aos carros. Reconhece as vias do entorno como meras passagens de veículos, ofuscando as casas históricas vizinhas.

O mesmo município que reformula o Museu da Cerveja e planeja uma praça atrás da prefeitura antiga, que mantém quatro museus, biblioteca e Arquivo Histórico nas redondezas, que se orgulha dos vestígios de Hermann Blumenau deixados nas palmeiras e nas casas enxaimel, agora trabalha por um projeto conflitante com a ideia de um Circuito Histórico de Turismo. E o faz sem dar explicações à população.

Mais do que possível, é preciso gerar empregos respeitando a cultura e as tradições. Ainda é tempo.

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