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Crônica

Ninguém nasce para uma vidinha besta, mas o que fazer para ser alguém que valha a pena?

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Por Martha Medeiros
14/05/2022 - 08h04
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Martha: "Cada um de nós tem a própria história, bonita e sofrida, mas insuficiente para que haja uma compreensão vasta do mundo" (Foto: Freepik)

Ninguém nasce para uma vidinha besta. Sonhamos em ter pensamentos que nos façam crescer, conversas que nos inspirem a evoluir. Em ser abertos às novidades, em escutar os outros com interesse verdadeiro. Gostaríamos de acessar os sentimentos secretos de desconhecidos, não para fazer julgamento moral, mas para identificar nossas próprias loucuras. Saber de onde viemos e por que as coisas são como são, a fim de mudar o mundo. Redes sociais nos distraem e, dependendo de quem seguimos, nos informam, mas é pela leitura que começa a revolução de nos transformarmos em alguém que valha a pena.

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Aí surge o intrigado: mas ler não seria o contrário de socializar? Um isolamento improdutivo, enquanto a correnteza da vida passa lá fora, por trás da janela? Leio de cinco a sete livros por mês e acho graça de quem se compadece da minha sina: “coitada, não vive”.

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Como toda cidadã mundana, vivo regularmente. Trabalho, namoro, viajo, frequento bares, faço exercícios e gasto um bom tempo xeretando no celular, mas ao menos por 30 minutos diários eu grudo em algum livro, e em vez de perder a correnteza que passa por trás da janela, derrubo a parede e inundo a casa toda, meu universo inteiro. Fico encharcada de existência.

Aos 11 anos, perdi pai e mãe num acidente de avião. Depois de me aposentar, fundei uma companhia de dança. Sou negra, criada pela minha avó. Tantos anos de batina e nunca havia escutado a confissão de um assassinato. Fui adotado por uma dona de bordel. Passei quatro anos sonhando todas as noites com Leila Diniz. Morei dois anos na Índia e voltei reconciliado com a solidão. Chego todo dia exausto do trabalho e meu vizinho faz tanto barulho que um dia ainda vou matá-lo. Atravessei sozinha os Estados Unidos de carona.

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Ninguém foi tão pirada quanto minha mãe, nem tão poética. Estou ficando cega. Até os 19, eu nunca tinha comido um bife. Morei três meses dentro de um aeroporto. Fui estuprada uma manhã, ao sair de casa para correr. Ganhei o Nobel da Paz depois de ficar 27 anos preso. Minha cidade começou a ser bombardeada no instante em que minha família se sentou para jantar. Estávamos em lua de mel quando meu marido revelou que era bissexual. Meu filho mais velho é trans. Fiquei milionário fazendo jingles para um fascista. Me apaixonei por uma mulher casada.

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Cada um de nós tem a própria história, bonita e sofrida, mas insuficiente para que haja uma compreensão vasta do mundo. Para se ter a consciência realmente expandida e empática do que acontece lá fora, para embrenhar-se nos corações e mentes dos estranhos que adoramos condenar à distância, só derrubando paredes. Não há ninguém mais desinteressado pela vida do que o dono de uma estante vazia.

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Martha Medeiros

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Escritora e cronista best-seller com livros adaptados para a TV e cinema. Escreve sobre o cotidiano, o dia a dia e temas de interesse comum.

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