Estamos percebendo um movimento mundial que busca o retorno às práticas de viver a vida de forma mais autêntica, verdadeira e simples, mais próxima da natureza, que conecte de forma verdadeira com a essência humana. Por outro lado, o mundo do vinho é quase infinito, e conhecer sua história, significado, identificar aromas, sabores, complexidade, castas, origens diferentes, diversos terroirs e infinitos estilos etc. é tarefa que demanda tempo, muito estudo, prática, imensa dedicação e, sobretudo, muita paixão.

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Durante muito tempo, os sommeliers eram vistos como seres quase divinos, por perceberem tantas características numa taça de vinho que as outras pessoas não tinham a menor condição de perceber. Isso fez com que a figura do sommelier se transformasse em um estereótipo quase inatingível. E isso acabou os distanciando das pessoas que não tinham essas mesmas habilidades tão admiradas e valorizadas.

Também a escassez de profissionais com formação consistente na área, com capacidade real de exercer a profissão com conhecimento, reforçou o padrão inatingível da profissão, que, reforçado por alguns profissionais inseguros e outros prepotentes, contribui para reforçar o preconceito.

O fato é que esse tipo de profissional está com os dias contados. Em uma análise do comportamento dos novos consumidores de alta gama, percebe-se que não pagam mais somente pela fama do rótulo, mas por sua história, origem e exclusividade discreta. O luxo deixou de ser poder aquisitivo, deixou o trono de ouro. Riqueza foi redefinida como tempo, liberdade, saúde física, mental e espiritual, sustentabilidade, experiências significativas e não apenas posse de bens materiais.

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Essa mudança substitui a ostentação por consciência, bem-estar e autenticidade, valorizando a quietude, a conexão real com a natureza e o propósito.

Assim, o vinho ganha valor no prazer, nas sensações, na companhia, no ambiente e nas experiências que fazem sentido, com foco na exclusividade e personalização, buscando o sentir ao invés do ter, medido pelos rótulos a valor financeiro.

Em um mundo saturado de estímulos externos que nos levam para longe de nós, degustar uma bela taça de vinho sem pressa, só ou acompanhados, nos leva para dentro de nós, na medida em que precisamos focar nossa atenção no som do líquido vertendo na taça, na cor que enxergamos, nos aromas que sentimos, tentando identificá-los.

E, quando damos o primeiro gole, nos entregando a todas as sensações físicas e emocionais que despertam, a alma encontra um lugar de paz que envolve audição, visão, olfato, paladar e sensações táteis, em um momento de atenção interior plena, de prazer sensorial completo, criando uma experiência complexa, indescritível em palavras.

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Vivemos um movimento que abandona o espetáculo e abraça a essência, que, no mundo do vinho, se traduz em escolhas cada vez mais íntimas, quase confidenciais, que saem do óbvio e entram no raro: pequenos produtores, vinhos de parcelas específicas, intervenções mínimas e respeito ao terroir.

Isso não é sobre modismos, é sobre profundidade e significado, menos necessidade de aprovação externa, mas segurança no seu prazer pessoal. Beber bem deixa de ser performance e passa a ser experiência que traz prazer e sentido.

Afinal, muito antes do vinho ocupar mesas de ostentação e poder, ele ocupava e alimentava a própria vida das civilizações, como remédio, alimento, rituais, celebrações e até sobrevivência. O vinho não nasceu como luxo, mas como necessidade, como cultura, expressão da terra e do tempo. Não era sobre status, mas, paradoxalmente, algo sagrado e cotidiano ao mesmo tempo, daquilo que transcende o racional e como parte inseparável da vida social agregadora.

É provável, torço que seja, exatamente para esse lugar que estamos, silenciosamente, voltando.