Três meses depois de ser alvo da Operação Happy Nation, que apura os supostos crimes de rachadinha, corrupção e lavagem de dinheiro, o vereador afastado de Blumenau, Almir Vieira (PP), quebrou o silêncio. Interrogado pela comissão processante aberta pela Câmara de Vereadores para avaliar uma possível quebra de decoro, que pode resultar em cassação do mandato, Vieira tinha o direito de permanecer calado. Mas aproveitou a oportunidade para falar, no que também pode ter sido interpretado como um desabafo.

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— Sou pai de família. Fui dormir herói e acordei bandido, sem ter motivação nenhuma — disse Vieira nesta segunda-feira (4).

O parlamentar negou qualquer irregularidade e sustentou, em mais de uma oportunidade, a tese de que estaria sofrendo perseguição política. Para ele, as denúncias que levaram à operação seriam “frágeis” e “sem cabimento”. Vieira, no entanto, não questionou a atuação da Polícia Civil e admitiu que a instituição apenas cumpriu com o papel que lhe cabe.

— Se tem denúncia tem que ser apurada, como sempre fiz nessa Casa — disse, ao referir-se ao período em que foi presidente do Legislativo.

O alvo da defesa

Oito testemunhas indicadas pela defesa do vereador afastado também foram ouvidas nesta segunda. O advogado Diego de Oliveira, que representa o parlamentar, seguiu um roteiro comum, perguntando se em algum momento elas foram coagidas a devolver parte dos salários a Vieira ou a alguém por ele indicado – prática conhecida como “rachadinha”, investigada na operação. Todas negaram.

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Oliveira também questionou as testemunhas se haveria alguma “inimizade” entre Vieira e o vereador Egídio Beckhauser (Republicanos), presidente da comissão. A maior parte delas respondeu que sim, subsidiando uma tese da defesa de suposta perseguição política e de que Beckhauser, que fez a mais contundente manifestação política quando Vieira foi preso, seria suspeito para conduzir os trabalhos – argumento já rechaçado pela Procuradoria da Casa.

Troca de farpas

Houve momentos de tensão entre o presidente da comissão e o advogado de defesa. Oliveira questionou o ex-secretário de Esportes, Paulo Mundt, a primeira testemunha do dia, sobre supostas irregularidades na pasta investigadas pelo Ministério Público que supostamente recairiam sobre Beckhauser – que também ocupou o cargo na gestão passada.

Neste momento, Beckhauser interrompeu e disse que o depoimento deveria se ater à denúncia de quebra de decoro, dando início a uma troca de farpas.

O advogado Diego de Oliveira, responsável pela defesa de Almir Vieira (Foto: Rogério Pires, CMB, Divulgação)


— Se o senhor vai começar a barrar a defesa desde agora, a ser inconstitucional esse evento desde agora, a gente realmente vai ter um problema. Eu vou perguntar aquilo o que eu quiser perguntar e ele (Mundt) vai responder conforme a verdade que ele sabe, porque senão a gente vai ter um cerceamento de defesa. Isso aqui não é um circo, é um processo — disse o advogado.

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Logo depois, Oliveira disse que não era “palhaço”.

— Muito menos eu — retrucou Beckhauser.

A origem dos R$ 30 mil

No depoimento, Vieira disse também que os R$ 30 mil em espécie encontrados pela polícia com ele seriam fruto de feijoadas e eventos que uma empresa particular dele promove. O vereador afastado sustentou que mantinha os valores guardados para a compra de insumos e que todo o seu patrimônio e movimentação financeira estão declarados no imposto de renda.

Antes dele, o presidente da Associação de Veteranos do 23º Batalhão de Infantaria, Juliano Luiz Bilau, disse que contratou a empresa de Vieira para dois eventos na entidade, em 2024 e 2025, cujos pagamentos, de R$ 42 mil e R$ 47 mil, respectivamente, foram feitos em dinheiro vivo. A convocação dessa testemunha serviu para a defesa tentar comprovar um ponto de legalidade da movimentação em espécie.

— Minha vida é aberta. Podem ficar muito a vontade de procurar e rastrear — desafiou depois Vieira.

Vieira nega desavença com Beckhauser

Apesar de ex-assessores sugerirem que havia inimizades com Beckhauser, Vieira também repetiu mais de uma vez que não teria qualquer desavença com o por enquanto ex-colega de parlamento, dando a entender que uma eventual richa partiria somente do outro lado.

— Eu não tenho inimizade com ninguém. Porque eu não vim para esta Casa para fazer amizade, eu vim defender o direito da nossa população — disse.

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O vereador afastado declarou ainda que teria encontrado problemas na esfera administrativa quando assumiu a presidência da Câmara, em 2023, relacionadas à falta de assinaturas de empenhos e documentos. Ele sucedeu justamente Beckhauser na função, a quem esses supostos problemas seriam atribuídos.

Para Vieira, a partir disso teria se criado uma “celeuma”, que desencadearia uma suposta perseguição política. Ele alegou inclusive que teria sido vigiado durante uma campanha eleitoral.

— Eu quero deixar bem claro aqui, que se precisarem varrer e me virar do avesso, que façam. E mais uma coisa, olhando no olho dos senhores, se tiver culpabilidade da minha parte eu peço renúncia — disse.

Próximos passos

Após colher os depoimentos, a comissão processante deu prazo de cinco dias para a defesa de Vieira apresentar razões escritas. Depois disso, tudo volta para o colegiado para que o vereador Jean Volpato (PT) elabore o parecer final.

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Com o documento pronto, o caso irá a plenário para que o conjunto dos 15 vereadores analise a denúncia de quebra de decoro parlamentar e vote pela cassação ou não do mandato do progressista.