Em 1888, o Brasil aboliu a escravidão. Em 1925, foi aprovada a chamada Lei das Férias, que garantiu ao trabalhador um descanso anual remunerado. Trinta e sete anos depois, em 1962, surgia o 13º salário. Todos esses históricos direitos trabalhistas foram conquistados em meio a um discurso comum, geralmente patrocinado por uma fatia do empresariado: aprová-los arrasaria a economia e arrastaria o país para o fundo do poço.
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Como se sabe, nada disso quebrou o Brasil – o 13º, por exemplo, é hoje um grande impulsionador do consumo, ajudando a economia. Muitas crises que vieram depois, quando não causadas por fatores geopolíticos, foram provocadas muito mais por gestão ineficiente, corrupção e inchaço estatal do que por benefícios concedidos à classe trabalhadora.
O mesmo argumento ressurge agora em meio à discussão da substituição da escala 6×1 pela 5×2, sem afetar salários. O mercado grita: a medida pode inviabilizar negócios e derrubar o PIB. Será?
Não se trata de fazer pouco caso dos alertas de um possível aumento de custos e de escassez de mão de obra – que merecem e precisam ser considerados, inclusive com medidas compensatórias se for o caso –, mas de relativizar o alarmismo retórico bancado por alguns setores.
Toda grande transformação, nas relações de trabalho ou na economia em geral, exige um esforço de adaptação que nem todos estão dispostos a encarar. O mercado, com alguma razão, detesta tudo que é imprevisível e se sente mais confortável sem movimentos abruptos.
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Antes de condenar a proposta, porém, seria prudente ao menos tentar colocá-la em prática. Foi o que decidiu fazer uma das maiores empresas de Santa Catarina, com faturamento anual superior a R$ 10 bilhões e milhares de empregados.
O Grupo Koch, potência no varejo supermercadista, anunciou que vai testar a escala 5×2 em uma nova loja da rede que será inaugurada em São Bento do Sul. O gerente de RH da empresa disse à reportagem do NSC Total que o objetivo é entender no dia a dia a funcionalidade e acompanhar de perto como esse novo formato de jornada de trabalho pode impactar a vida dos funcionários.
A experiência pode chegar a no mínimo três respostas, que parecem óbvias: não funciona, funciona ou funciona com ressalvas. Certamente a análise do grupo levará em consideração fatores como despesas da operação, bem-estar e produtividade dos funcionários. Seja qual for o resultado, a iniciativa já tem o mérito de simplesmente se propor a avaliar a questão. Sem conclusões precipitadas.
O que muita gente costuma ignorar nesse tipo de debate, de forma conveniente ou não, é que as empresas vivem precisando se adequar aos novos tempos. Foi, é e continuará sendo assim diante de guerras, crises políticas, mudanças tributárias e previdenciárias, catástrofes ambientais, pandemias, novas tecnologias, relações de trabalho.
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Alguns – infelizmente para eles – ficam pelo caminho. Mas a história já mostrou várias vezes que a economia, mesmo que aos trancos e barrancos, sempre encontra formas de sobreviver e, se preciso for, recomeçar. Não é uma opção: é uma necessidade constante, fruto do dinamismo próprio da natureza do mercado que alguns não enxergam ou preferem não enxergar.
Respostas prontas nem sempre são as corretas. A redução de uma jornada de trabalho muitas vezes extenuante merece pelo menos a oportunidade de ser considerada e avaliada livre de verdades absolutas e incontestáveis.
Aliás
O fato de a pauta da redução da jornada ter certo componente populista, por estar sendo levantada pelo governo federal em ano eleitoral, e não surgir de um grande movimento popular, com manifestações na rua, não deveria invalidar totalmente um debate que mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo.

