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Conheça a catarinense que virou referência no cultivo de lúpulo no Brasil

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Por Santa Cerveja
05/06/2021 - 14h22 - Atualizada em: 05/06/2021 - 14h24
Mariana Mendes Fagherazzi
Mariana Mendes Fagherazzi foi a primeira mulher a defender uma tese de doutorado sobre o cultivo de lúpulo (Foto: Arquivo pessoal)

Um dos grandes avanços recentes do setor cervejeiro no Brasil é o crescimento da produção local de lúpulo. O insumo indispensável para a fabricação da cerveja, quase sempre importado pelos produtores brasileiros, está se adaptando a algumas regiões do país e começa a aparecer como cultivo viável para a agricultura familiar.

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Como o lúpulo prefere regiões frias, a Serra catarinense foi escolhida para um projeto pioneiro no Brasil que já começou a fornecer insumos totalmente produzidos em Santa Catarina para cervejarias.

A fazenda em Lages onde funciona o projeto, administrado pela Ambev, é supervisionada por uma mulher que está fazendo história no setor. Mariana Mendes Fagherazzi, 32 anos, foi a primeira mulher a defender uma tese de doutorado sobre o cultivo do lúpulo e, desde 2019, supervisiona todos os processos da fazenda.

Além de ser a responsável pela produção do lúpulo na Serra, a engenheira agrônoma catarinense foi uma das fundadoras da Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo).

O Santa Cerveja conversou com Mariana sobre a produção do insumo em SC, machismo no setor e a qualidade do lúpulo local. Confira abaixo:

Santa Cerveja: De que forma foi possível adaptar a região de Lages às características climáticas necessárias para o cultivo do lúpulo? Quais foram os pontos positivos encontrados na região, e quais os maiores desafios?

Mariana Mendes Fagherazzi: Para o cultivo do lúpulo aqui no Brasil, temos observado uma elevada versatilidade para distintas regiões produtoras, e não foi diferente para a região de Lages, com algumas mudanças de técnicas de manejo, incluindo adubação, manejo fitossanitário, irrigação e suplementação luminosa. De tal modo, em um primeiro momento foram avaliadas diferentes cultivares, para observar quais delas possuíam melhor desempenho para as condições edafoclimaticas dessa região. Observamos a diferença entre material genético plantados em diferentes regiões, e um dos maiores desafios é a criação de cultivares adaptadas, ou seja, há uma necessidade de investimento em melhoramento genético para desenvolver cultivares com diferentes necessidades de fotoperíodo, podendo assim alcançar maiores níveis de produtividade das plantas e de qualidade dos cones que são produzidos, atendendo as exigências e os padrões cervejeiros.

Como você enxerga a possibilidade da cultura do lúpulo ser mais trabalhada no Brasil? Para beneficiar o mercado cervejeiro e também gerar renda aos agricultores?

A agricultura familiar exerce uma participação de 84% na produção de alimentos no Brasil, segundo dados do IBGE de 2017. Ou seja, possuímos um sistema alimentar produtivo que é ancorado pela agricultura familiar, e é a partir daí que o cultivo do lúpulo se encaixa, como uma opção para a diversificação das propriedades rurais. Permitindo também, o aumento do potencial econômico dos agricultores, evitando a vulnerabilidade de possíveis imprevistos que possam ocorrer durante a safra. O projeto da Fazenda Santa Catarina da Ambev em parceria com a Epagri, UDESC, e a Prefeitura Municipal de Lages, visa fomentar a produção de lúpulo nas propriedades familiares da região do Planalto Sul Catarinense, criando assim, um ecossistema sólido entre todos os integrantes do meio.

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Como surgiu o seu interesse pela cultura do lúpulo?

O assunto “lúpulo” começou em 2013, com meu irmão, Rafael Mendes, que é cervejeiro. Ele comentou sobre o potencial que o cultivo de lúpulo poderia ter no Brasil, pois todo esse insumo utilizado nas cervejarias é importado, principalmente da Alemanha e Estados Unidos. Entretanto, naquele momento eu estava realizando meu mestrado com pesquisas direcionadas para outra área. Assim, em 2017, quando decidi fazer doutorado, fiz algumas buscas na internet sobre ‘lúpulo no Brasil’ e observei poucas informações e dados técnicos. Vi nesse momento, uma imensa oportunidade de pesquisa, com muitos desafios pela frente e paradigmas a serem vencidos. Desde então sou uma apaixonada pela cultura, em adquirir conhecimento e passar para os produtores que desejam iniciar o cultivo. A cultura do lúpulo vai além de uma panela de brasagem, ela é capaz de unir o produtor rural, as cervejarias, desenvolver o turismo local e fomentar a pesquisa e a extensão.

Em um mercado majoritariamente masculino, que já registrou uma série de casos de preconceito contra as mulheres, como você enxerga a sua atuação em um projeto tão importante para o setor?

O curso de Agronomia historicamente sempre foi predominante masculino. Entretanto de uns anos para cá essa diferença começou a diminuir, fazendo com que o espaço de liderança da mulher no agro aumentasse. A busca por profissionalização é independente de gênero, buscamos sempre transmitir confiança e sabedoria para as recomendações técnicas que são repassadas ao agricultor, é assim que tornamos nossa participação ímpar no meio. É assim que vejo a minha participação nesse projeto, e por isso, sou muito grata em poder fazer parte dessa história que está sendo construída.

Em comparação com os lúpulos importados que geralmente abastecem o mercado brasileiro, o insumo cultivado em SC pode competir em qualidade e viabilidade?

Os dados preliminares que os produtores estão obtendo são animadores e com prospecção para igualar a qualidade do lúpulo importado. Isso por si, já é um grande resultado, pois implementar uma cultura nova em uma Região dita ‘não favorável agronomicamente’ pela literatura internacional, fazem os desafios serem maiores, então é um trabalho a longo prazo que necessita de pessoas determinadas e investimentos em pesquisa, para assim podermos tornar o lúpulo como um cultura consolidada para Santa Catarina.

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