Em menos de 20 dias, o governo de Santa Catarina anunciou quatro novos decretos para conter o avanço do novo coronavírus no Estado com medidas consideradas paliativas por especialistas, já que as imposições – que foram da suspensão das atividades físicas em grupo à proibição do transporte público -, ainda não surtiram efeitos, se analisados os números relacionados à doença.
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Do primeiro decreto publicado em julho, no dia 13, ao mais recente, nesta sexta-feira (31), o índice de isolamento social teve um aumento quase simbólico, de apenas 1%, enquanto a lotação das UTIs só cresceu. Ao mesmo tempo, as mortes foram registradas cada vez em maior número, assim como as notificações dos sintomas em novos pacientes.
Somente na última sexta-feira, 60 novas mortes e 3,1 mil novos diagnósticos de covid-19 foram confirmados. O mês de julho também encerrou com a pior média diária de mortes e pessoas infectadas: todos os dias, 1.414 novas pessoas apresentaram sintomas do vírus e outras 23 perderam a vida por complicações da infecção.
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Chefe do Departamento de Saúde Pública da UFSC, Fabrício Augusto Menegon avalia que um decreto de lockdown com duração mínima de 15 dias poderia controlar a situação do vírus no Estado, desde que acompanhado de um plano de contingência que preveja redução do contágio “considerando a infraestrutura de saúde, a capacidade de testagem diagnóstica e acompanhado de investimento em comunicação com a população para garantir a adesão às medidas:
– Os decretos devem vir acompanhados de um plano de contingências que diga aos setores econômicos e à população o que será feito em termos estruturais e por quanto tempo. Caso contrário, é medida de pouca adesão. Quase inócua.
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Para o epidemiologista, o plano de contingência deve indicar claramente o tempo em que os setores econômicos ficarão fechados, para dar uma dimensão dos impactos econômicos.
– Isso ajuda o planejamento das empresas e aumenta a adesão dos setores econômicos, já bastante fragilizados pela redução do consumo – explica.
Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) destacou, por meio de nota, que SC foi o primeiro Estado a adotar medidas mais restritivas contra a transmissão do vírus e disse que “acompanha o cenário (da evolução coronavírus) diariamente e emite boletins aos municípios com os dados necessários para as tomadas de decisão”.
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Também reforçou que divide a responsabilidade sobre o combate à pandemia com os municípios, que “também podem adotar medidas mais restritivas de acordo com a realidade das regiões”.
Confira cinco evidências de que os decretos de julho não foram suficientes:
1. Leitos de UTIs com mais de 80% de ocupação
Na última semana, o Estado chegou a ter 82,9% de 1377 leitos de UTI pelo SUS ocupados. A mais alta taxa durante essa pandemia. Nessa sexta, havia baixado para 81,7%. Essa conta, no entanto, considera leitos adultos, pediátricos e neonatais. Como a doença tem característica de atacar principalmente adultos, os leitos dedicados a essa faixa etária ultrapassaram 90% em algumas regiões. É o caso da Foz do Itajaí, que nesta sexta-feira tinha 91,9%, mas chegou a 97% nesta semana.
Diferentemente da ocupação de leitos pediátricos e neonatais, nos quais a maioria absoluta está internada por outras doenças, nos leitos adultos é o inverso. Em todas as 7 macrorregiões de saúde a lotação dos leitos adultos é provocada por pacientes confirmados ou suspeitos de covid-19.
O Estado apresenta taxa geral de ocupação de UTIs acima de 80% desde 24 de julho. E acima de 70% entre 12 e 23 de julho. Segundo Julio Henrique Croda, ex-diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e pesquisador da Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), quando o índice de ocupação atinge 70%, é recomendável ampliar as restrições à circulação de pessoas imediatamente, para controlar a taxa de contágio. Quando atinge 80% de leitos ocupados, o controle deveria ser ainda mais severo.
– É preciso imprimir novas medidas de distanciamento. Vai ter que fechar comércio, interromper transporte público. Toda parte de flexibilização vai ter que dar um passo para trás. Nesse momento que aumenta o número de casos, é preciso a retornar o que foi feito lá no início da pandemia – disse o especialista ao NSC Total ainda em 9 de julho, quando os dados apontavam para crescimento acelerado.
Mesmo se adicionar a rede privada, os índices são os mais altos nesta pandemia. Entre pacientes suspeitos de covid-19 e confirmados, 630 estavam em terapia intensiva nessa sexta-feira.
2. Média diária de novos casos é superior a 1,4 mil
Entre 1º e 31 de julho, Santa Catarina registrou a média de 1.414 casos novos diários, segundo a data de aparecimento dos primeiros sintomas. O pico ocorreu em 10 de julho, quando 2.942 pacientes tiveram os primeiros sinais de covid-19.
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A média de julho é quase o dobro do registrado em junho (878 por dia), 4 vezes a média diária de maio (316) e 15 vezes o que o Estado notificava em abril (91), quando ainda havia restrições mais rigorosas, mas a testagem da população era menor.
3. Média diária de 23 mortes em julho
Mais casos confirmados, por consequência geraram mais mortes em julho. A média diária de óbitos entre 1º e 31 de julho é de 24,4 até esta sexta-feira. E pode aumentar com a confirmação de casos ainda não contabilizados nos boletins que serão divulgados pelo Estado na próxima semana.
Esse índice começou a crescer aceleradamente a partir da segunda semana de junho. A média diária de mortes em julho é três vezes maior do que a do mês anterior.
4. Índice de isolamento social não supera 40%
Segundo dados do In Loco, os mesmos utilizados pelo governo do Estado para monitorar a movimentação de pessoas a partir de dados de GPS gerados por celulares, desde 11 de maio, Santa Catarina teve dificuldades em manter uma taxa de isolamento acima de 40% nos dias úteis. Mesmo com restrição do transporte público em algumas regiões em julho, no geral, esse índice melhorou apenas 1 ponto percentual.
O recomendável, conforme especialistas em saúde pública, seria manter acima de 50%, pelo menos. O maior índice num dia útil foi alcançado em 23 de março, quando o Estado registrou 64,4% das pessoas em casa, segundo a plataforma In Loco.
5. Maior número de casos ativos na pandemia
Santa Catarina superou dia após dia o número de casos ativos nesta pandemia, o total de pacientes que ainda seguem em tratamento contra a covid-19 e, portanto, podem transmitir o coronavírus para outras pessoas. Chegou nesta sexta-feira a 12.370. Há casos ativos em todas as microrregiões do Estado, com maior concentração no litoral, desde o Norte até o Sul, justamente as primeiras regiões afetadas pela doença.
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O Oeste, que sofreu com a disseminação de novos casos entre abril e junho, hoje apresenta índices mais baixos.
Até mesmo o número de cidades com 100% dos casos recuperados caiu em julho. Em 15 de junho, eram 80 cidades que haviam zerado o número de pacientes em tratamento contra a covid-19. Nesta sexta-feira, eram apenas 31.
Tendência de alta nos novos casos
Com exceção das microrregiões de Xanxerê e Concórdia, as demais 18 do Estado apresentam média móvel ascendente, o que indica que a taxa de novos casos continua acelerada nas últimas semanas. A média móvel calcula a média dos novos casos nos últimos sete dias, como forma de atenuar a curva e permitir enxergar se a tendência é de crescimento ou queda.
A média móvel de novos casos em Santa Catarina é de 2,5 mil em 31 de julho. O Estado chegou a ensaiar uma queda em 15 de junho, quando chegou a 240 casos diários em média, mas começou uma nova escalada que ainda não dá sinais de queda.
