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HEROÍNA DE 2 MUNDOS

Nos 200 anos de Anita Garibaldi, linha do tempo mostra vida da catarinense

Guerreira e republicana, ela rompeu os padrões da época para defender seus princípios

26/08/2021 - 19h04 - Atualizada em: 30/08/2021 - 09h49

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Maria Eduarda
Por Maria Eduarda Dalponte

“Una piccola Ana per italiani voi dire Anita. Lo ti chiamerò di Anita.”. Foi com essa frase que Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva se tornou Anita Garibaldi. Em português quer dizer “Uma pequena Ana para nós em italiano se chama Anita. Vou te chamar de Anita”. Giuseppe Garibaldi, que proferiu essa mensagem, se apaixonou por Aninha de um barco em alto mar por uma luneta. Em terra, o guerrilheiro teve a certeza de que ela era sua amada: "Tu deve ser minha”, disse o italiano à catarinense. É assim que começa a história da heroína dos dois mundos.

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Apesar do nome no diminutivo, Anita ou Ana Maria nunca foi pequena, nem em pensamento, nem em ação. Filha de uma família pobre que transitava entre o litoral de Laguna e o sertão tropeiro de Lages, ela nasceu no bairro Morrinhos — hoje, Anita Garibaldi, em Tubarão, no Sul do Estado — em 30 de agosto de 1821. A menina de pensamento republicano se tornou guerreira em 1839, quando conheceu Garibaldi. Com um canhão na mão ou com o filho no colo, na frente ou na retaguarda de uma tropa, ela lutou na Revolução Farroupilha e na Unificação da Itália, rompendo barreiras e costumes para uma mulher do século XIX. 200 anos depois, se Anita fosse eterna não apenas em memória, ela estaria completando o seu bicentenário.

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Da reconstituição da história de Anita, nada foi comprovadamente escrito por ela. São pelas lembranças e interpretações de terceiros que a guerreira de séculos passados é formada na memória coletiva dos brasileiros e europeus. Nem todas as histórias são consensuais entre os pesquisadores. Alguns fazem da vida dela quase uma ficção, colocando a guerreira em posição de "super heroína", já os críticos reduzem a sua imagem a uma analfabeta “china”, como chamavam as mulheres que iam atrás de homens de guerra. A maioria deles, porém, concorda que a mulher estava à frente do seu tempo e fez história em dois continentes.

Ana Maria, uma revolucionária de Laguna

Era século XIX e o Brasil vivia em um regime regencial depois da volta de Dom João e Dom Pedro I para Portugal. As mulheres não podiam estudar além do nível básico, ter independência ou até mesmo votar. Anita, desde pequena, desafiou esse padrão. Ensinada por Bento Ribeiro da Silva, seu pai, a pequena aprendeu a montar, de verdade, em uma cavalo, diferente das moças da época, que sentavam de lado e com as pernas fechadas. Com a morte precoce do pai, Ana passou a conviver com a mãe e irmãos. Ela era a terceira de dez filhos.

Primeira casamento obrigado

Ana Maria tinha consciência e ideais republicanos, mas os deveres de uma sociedade conservadora a chamavam. Mesmo sem vontade, ela precisou casar aos 14 anos com o sapateiro Manoel Duarte Aguiar, um ferrenho seguidor da monarquia. Nem em amor, nem em ideal, Anita gostou daquele homem. Boatos que circulavam por Morrinhos diziam que o casamento nunca foi consumado. Alguns anos depois, talvez por vergonha, talvez por diferenças de pensamentos, Manoel foi embora para Florianópolis — na época, Desterro. O homem foi servir as tropas imperiais, convocado por João Carlos Pardal, e deixou Ana Maria em Laguna. Essa é uma das versões das histórias recontadas pelos historiadores e defendida por Adílcio Cadorin, autor da obra “Anita - A guerreira das repúblicas”.

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Influência republicana vem de família

Crente de seus princípios, ela não se deixou abalar. Princípios esses, aliás, que foram influenciados principalmente por seu tio Antônio, como contam alguns pesquisadores. O tio morava em Lages, mas teve a casa incendiada pelas tropas imperialistas em 1837 e precisou se mudar para Laguna e morar com a família do Sul. Com ele, Ana Maria passou a reforçar os ideais de liberdade, igualdade, justiça e dignidade humana. A força e o empoderamento feminino, que vinha de dentro, reunido com os princípios modernos e liberais, formaram a mulher que mudou a trajetória da história brasileira e italiana.

De Giuseppe surgiu Anita

Era julho de 1839 quando David Canabarro e Giuseppe Garibaldi lutavam pela Revolução Farroupilha e receberam a missão — bem sucedida — de conquistar Laguna e proclamar a República Juliana, que se estendeu pelo planalto sul catarinense. Depois da batalha vitoriosa, o italiano revolucionário, que tinha fugido do país natal por estar ameaçado de morte, viu uma jovem do seu barco. Convicto, ele desembarcou na cidade para conhecer a moça. Durante um café, os dois se encontraram e foi aí que Garibaldi passou a chamar Aninha de Anita.

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Na proa do navio

Depois de conquistarem Laguna, as tropas republicanas queriam ir mais longe, em direção ao Norte. Em outubro, Anita pegou uma trouxa de roupa e decidiu entrar em missão junto com Garibaldi, uma ação audaciosa e impensáveis para moças da época. Na volta a Laguna, em 4 de novembro, os barcos da tropa republicana foram encurralados pelos imperialistas na Baía de Imbituba. Navios do Império bombardearam as pequenas embarcações da tropa de Anita. Com medo, alguns soldados se esconderam no porão. Anita foi arremessada para longe com impacto de um tiro de canhão. Recuperada, ela subiu na proa da embarcação e passou a incentivar e gritar para a tropa reagir, até que o comandante da Flotilha Imperial foi atingido por um tiro e o ataque foi cessado.

Esse foi o primeiro ato da heroína, sucedido por lutas pela república no interior do Estado, mudança para o Uruguai e luta pela unificação italiana em Roma.

Coragem e revolução

Em outro episódio, ainda em novembro de 1839, a republicana estava em um barco na Baía de Laguna em um contexto de tensão com as tropas imperiais, que queriam recuperar esse território para o Estado. Giuseppe subiu em um dos morros próximos para analisar o movimento dos imperialistas e ordenou que, em caso de ataque, ninguém atirasse. Anita, porém, viu que os navios imperiais iam entrar pela Barra e, com as mãos no canhão, deu o primeiro tiro e iniciou a reação ao ataque. No meio do fogo cruzado, ela atravessou seis vezes a Baía de Laguna com um barco a remo para salvar a pólvora e os armamentos das tropas farroupilhas antes de fugir a cavalo. Foi nesse momento que a República Juliana chegou ao fim e os imperialistas retomaram o poder de Laguna.

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O amor incondicional

Anita, que no começo não podia nem fazer parte do exército republicano como uma legítima mulher, ganhou 20 homens para comandar em menos de um ano de batalhas. O fim da República Juliana levou o casal em direção ao Planalto Sul para continuar lutando pelos ideais republicanos. Durante uma luta em Curitibanos, Anita foi surpreendida e presa pelos imperiais. Os oficiais avisaram que Garibaldi foi morto na batalha. Imediatamente, Ana pediu para procurar o corpo do amado e, revirando os mortos, a catarinense se encheu de esperança ao não conseguir achar Giuseppe. A estratégica mulher esperou uma distração dos guardas para fugir com um cavalo e buscar seu amado.

Uma mãe guerrilheira

Depois das batalhas no mar e no interior de Santa Catarina, Giuseppe Garibaldi foi para o interior de São José do Norte lutar pelo porto de Rio Grande. Anita, grávida do primeiro filho, ficou em uma estrebaria. Em setembro de 1840, o primogênito Menotti veio ao mundo. Dias depois, Anita teve a casa cercada pelos imperiais. Com roupa de dormir, uma garrucha na mão e o filho no colo, a catarinense conseguiu fugir a cavalo e por quatro dias ficou sozinha com o recém-nascido na mata, antes de reencontrar Garibaldi.

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O outro lado de Anita

Depois de anos na luta pela Revolução Farroupilha e diversas batalhas travadas, Anita e Garibaldi buscaram uma vida mais tranquila com o filho Menotti. Giuseppe deixou o exército republicano em 1841 e, com a família, foi para Montevidéu, no Uruguai. O casal teve ainda mais três filhos: Rosa, que nasceu em 1843; Teresa em 1845 e Ricciotti em 1847. A primeira menina faleceu com dois anos e foi enterrada no Uruguai.

Com os filhos e o fim da batalha no país latino, Giuseppe queria voltar para a Itália, mas ele ainda era jurado de morte no país. Sem saber como seria a sua recepção, o republicano mandou primeiro a esposa e os filhos para Europa. Pouco tempo depois, Garibaldi também conseguiu retornar à Itália e a vida do casal parecia que iria tomar caminhos comuns.

O fim precoce da heroína de SC

Na volta à Europa, a luta pela unificação da Itália também voltou à tona. Garibaldi foi a Roma auxiliar na luta pela recém-fundada República, após a fuga do papa Pio IX. Sabendo que a cidade estava sitiada por francos e austríacos, Anita, grávida do quinto filho, se passou por homem para entrar pelos muros romanos e auxiliar o marido e a pátria italiana. Já com seis meses de gravidez, Anita cortou o cabelo e se colocou a postos para lutar. Derrotados, eles precisaram fugir e marchar até Veneza.

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Por mais de um mês, o exército republicano precisou travar longas batalhas para fugir e sobreviver. Grávida e com febre tifóide, Anita seguiu com as tropas. Quando eles chegaram perto de San Marino, a guerrilheira adoeceu ainda mais e precisou ser levada para uma casa de mulheres. Garibaldi, perseguido, precisou deixar o país, e Anita, ainda pior, resolveu seguir o marido. Já na Itália, na Fazenda Guiccioli, em Ravena, ela se rendeu à doença e precisou ser atendida por um médico. Era 4 de agosto de 1849 quando Anita faleceu e entrou para a história como a heroína dos dois mundos.

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