A morte do cão Orelha, cachorro comunitário que vivia na Praia Brava, na região Norte de Florianópolis, teve um novo capítulo nesta terça-feira (12), com o pedido de arquivamento do caso por parte do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). A decisão indica um novo caminho à investigação que passou por questionamentos e contradições nos últimos meses, aumentando a comoção com o drama vivido pelo cachorro antes de morrer.

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Ao longo de cinco meses, a morte do cão Orelha acumulou uma série de idas e vindas e episódios que foram vistos como contradições ou reviravoltas por quem acompanhava o caso. As dúvidas que persistiram mesmo no decorrer das apurações policiais vão desde o número de adolescentes supostamente envolvidos nas agressões até o momento exato em que o cachorro teria sido agredido, e chegaram a pôr no alvo até mesmo o ex-delegado-geral da Polícia Civil, Ulisses Gabriel, alvo de uma ação por suposta improbidade administrativa. Confira abaixo questionamentos sobre o caso:

Veja fotos do caso Cão Orelha

Data da morte

Uma das dúvidas que cercam o caso é sobre a real data da morte do cão Orelha. O cachorro foi encontrado por moradores agonizando na praia em 5 de janeiro de 2026. Ele chegou a ser encaminhado a um veterinário, mas não resistiu aos ferimentos. A investigação até o momento não havia conseguido apontar a data em que o animal teria sofrido as agressões que causaram a morte.

Suposta ação humana

Outra inconsistência sobre o caso surgiu após a divulgação do laudo da exumação do corpo do cão Orelha. No documento, a perícia apontou que todos os ossos do animal foram examinados e que “não foi constatada qualquer fratura ou lesão que pudesse ter sido causada por ação humana“. Apesar disso, o laudo esclareceu que a ausência de fraturas não significaria ausência de trauma cranioencefálico.

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“É plenamente plausível que o animal tenha sofrido um trauma contundente na cabeça e piorado clinicamente de forma progressiva”, diz o documento.

Mesmo sem conclusão definitiva da perícia, a Polícia Civil manteve o entendimento de que o conjunto de indícios apontava para agressão humana.

Provas citadas pelo governador

Outra contradição que cerca o caso seriam supostas provas a respeito das agressões ao cão Orelha que o governador Jorginho Mello (PL) disse ter visto. Em uma postagem nas redes sociais feita em 25 de janeiro, após a comoção sobre o caso, Jorginho escreveu que “as provas já estão no processo e me embrulharam o estômago”. O conteúdo dessas provas, no entanto, não foi detalhado pelo governador, gerando questionamentos à medida em que o caso registrava novas contradições ao longo da investigação.

Vídeo “ilustrativo” de jovens

Outro indício que gerou questionamentos sobre o caso Cão Orelha foi um vídeo divulgado pela investigação na conclusão do inquérito, no início de fevereiro. Nas imagens, um adolescente aparece ao lado de uma garota caminhando até a praia, por volta das 5h25min do suposto dia das agressões ao cachorro, e retornando da orla ao lado da jovem cerca de meia hora depois.

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No dia seguinte, após a divulgação outro vídeo posterior àquele horário em que o cão Orelha apareceria ainda vivo, a Polícia Civil afirmou que o vídeo seria apenas “ilustrativo” e que o pedido de responsabilização do jovem que apareceria no vídeo teria se baseado em outros elementos apurados pela investigação.

A jovem exposta no vídeo “ilustrativo”, segundo a própria investigação, não presenciou nenhum ato de agressão ao cachorro. Em entrevista à NSC TV, a delegada da Delegacia de Proteção Animal (DPA), Mardjoli Adorian Valcareggi, afirmou que não foram encontradas imagens e nem testemunhas do momento das agressões.

Vídeo com cachorro vivo após horário das agressões

Outro vídeo divulgado dias após a conclusão do inquérito mostra um cachorro que seria o cão Orelha caminhando pelo bairro por volta das 7h do dia das agressões. Naquele horário, a investigação afirma que ele já teria sido agredido, mas nas imagens ele parece andar sem sinais de ferimentos.

Quantos adolescentes estavam envolvidos?

O número de jovens possivelmente envolvidos na morte do cão Orelha também surgiu como outra contradição do caso. Inicialmente, a investigação apontou que quatro jovens estavam sendo investigados pelas supostas agressões. Semanas depois, informou que um dos adolescentes foi excluído das apurações. O motivo seria ele ter conseguido provar que não estaria no local na data das agressões ao cão.

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Ao final do inquérito, a Polícia Civil reduziu o número de supostos responsáveis pelas agressões a apenas um jovem, que foi alvo de pedido de internação provisória por ato infracional análogo a maus-tratos.

Suposta coação de testemunhas

Outra situação que gerou repercussão foi uma suposta ação de pais de adolescentes investigados contra testemunhas. O governador Jorginho Mello chegou a falar sobre essa suposta coação em postagens nas redes sociais. Uma abordagem de pais a um porteiro de um dos prédios que teria tido atrito com jovens da localidade fez parte da investigação.

O inquérito da Polícia Civil chegou a pedir o indiciamento de três adultos investigados por essa suposta coação (um dos homens morreu meses depois, após sofrer um infarto), mas o Ministério Público rejeitou a tese de coação.

Afogamento de Caramelo

Outra inconsistência do caso envolve o suposto afogamento que um grupo de adolescentes teria tentado cometer contra outro cão comunitário da Praia Brava, o Caramelo, que acabou sendo adotado. Inicialmente, a investigação da Polícia Civil apontou que os jovens que teriam agredido Orelha seriam os mesmos envolvidos na tentativa de afogamento de Caramelo. Um mês depois, na conclusão do inquérito, no entanto, a polícia apontou que seriam outros adolescentes que teriam praticado o ato.

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Atuação do delegado Ulisses Gabriel

A atuação do ex-delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, também entrou no alvo dos questionamentos sobre a investigação do caso Orelha. O MPSC abriu uma apuração que evoluiu para um inquérito para apurar a atuação do delegado na investigação.

O Tribunal de Justiça, no entanto, suspendeu as investigações criminais contra o ex-delegado-geral. As apurações cíveis e administrativas contra Ulisses continuaram.

Novas diligências

As incertezas acerca da investigação aumentaram depois que o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) considerou a apuração inicial inconsistente e solicitou novas diligências. A Justiça autorizou 35 medidas complementares e também a exumação do corpo do cão Orelha, que resultou no laudo que descartou a existência de fraturas ósseas no cão.