Quem vê um pinus crescendo no alto da Serra de Santa Catarina ou espalhado pelas dunas do litoral catarinense dificilmente imagina que aquela árvore não pertence à paisagem. Introduzido no Estado há cerca de 70 anos para atender à produção florestal e recuperar áreas degradadas, o gênero Pinus se tornou uma das espécies exóticas invasoras mais problemáticas do Estado.
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Hoje, além de ocupar quase 1 milhão de hectares de florestas plantadas em Santa Catarina, segundo levantamento da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em Lages, em parceria com a Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária (Sape), o pinus também avança sobre áreas protegidas, reduz a biodiversidade, altera o funcionamento dos ecossistemas e pode até comprometer a disponibilidade de água em algumas regiões.
— O gênero Pinus é considerado o mais invasor do Hemisfério Sul. Ele continua tendo importância econômica, mas também é inegável sua capacidade de causar impactos ambientais — explica a ecóloga Michele de Sá Dechoum, professora da UFSC e coordenadora do Laboratório de Ecologia de Invasões Biológicas, Manejo e Conservação (Leimac).
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Como o pinus chegou a SC?
A história começou na década de 1950. Segundo Michele, as primeiras mudas foram introduzidas no então Parque Florestal do Rio Vermelho, em Florianópolis — hoje Parque Estadual do Rio Vermelho. Na época, a área funcionava como uma estação experimental destinada a testar espécies florestais. A partir da década de 1960, o cultivo foi ampliado para o litoral e o Planalto Catarinense.
A justificativa era dupla: recuperar áreas que haviam sido desmatadas e impulsionar a produção de madeira para abastecer setores como papel, celulose e construção civil.
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— O contexto era de muitas áreas desmatadas. O pinus foi introduzido com essa justificativa de reflorestamento. Mas, na prática, substituiu ecossistemas nativos extremamente diversos por monoculturas — afirma a pesquisadora.
A monocultura de árvores é o cultivo de uma única espécie arbórea — como eucalipto ou pinus — em grandes extensões de terra. Focada na alta produtividade comercial para celulose ou madeira, essa prática empobrece o solo e reduz drasticamente a biodiversidade nativa em comparação com ecossistemas naturais.
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A espécie que mais se difundiu foi o Pinus elliottii, originário do sudeste dos Estados Unidos. Como apresenta características muito semelhantes às encontradas no Sul do Brasil — solos arenosos, clima úmido e temperaturas compatíveis —, encontrou condições ideais para se estabelecer.
Conheça a árvore exótica invasora
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Por que o pinus virou uma espécie invasora?
O problema não surgiu décadas depois. Segundo Michele, o potencial invasor sempre existiu. Isso acontece porque o pinus reúne uma série de características que favorecem sua expansão. São elas:
- cresce rapidamente;
- começa a produzir sementes ainda jovem, por volta dos cinco anos;
- produz grande quantidade de sementes;
- as sementes são carregadas pelo vento por longas distâncias;
- possui baixa exigência nutricional;
- encontrou poucos inimigos naturais no Brasil.
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— Uma árvore produz um número limitado de sementes. Outra coisa é você ter milhões de árvores produzindo bilhões de sementes ao mesmo tempo. Isso aumenta muito a capacidade de invasão — explica.
Os ambientes mais ameaçados
Embora o pinus consiga se espalhar por diferentes regiões, alguns ecossistemas catarinenses são especialmente vulneráveis.
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As maiores preocupações estão nas áreas abertas, como:
- campos naturais da Serra catarinense, que fazem parte do bioma Mata Atlântica;
- restingas do litoral;
- dunas e áreas arenosas.
Isso porque as sementes conseguem germinar com facilidade onde a vegetação é baixa e há maior incidência de luz. Já dentro de florestas fechadas, o estabelecimento é muito mais difícil.
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Segundo Michele, os campos naturais da Serra — os Campos de Altitude, vegetação sensível da Mata Atlântica —, estão entre os ambientes mais ricos e menos conhecidos do Estado. Mais de 1.600 espécies de plantas já foram catalogadas nesses ecossistemas, sendo cerca de 25% endêmicas — ou seja, só existem naquela região.
— O que muita gente não percebe é que plantar árvores em áreas de campo também significa perda de habitat. Assim como desmatar uma floresta destrói um ecossistema, transformar um campo natural em plantação de pinus também elimina uma biodiversidade única.
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Impactos vão além da vegetação
Os efeitos da invasão não se limitam às plantas. Segundo a pesquisadora, o avanço do pinus provoca uma série de alterações ambientais:
- reduz a diversidade de espécies nativas;
- modifica o habitat de animais silvestres;
- altera a estrutura da vegetação;
- muda as características físicas, químicas e biológicas do solo;
- reduz a disponibilidade de água;
- aumenta o risco e a intensidade de incêndios florestais.
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A diminuição da água preocupa especialmente porque pode atingir regiões de abastecimento humano. Um dos exemplos está no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, onde o pinus invadiu áreas próximas ao Pico do Cambirela.
As árvores surgiram a partir de sementes carregadas pelo vento de plantações vizinhas e hoje ocupam áreas públicas dentro da unidade de conservação. Ali também estão nascentes que abastecem parte da Grande Florianópolis.
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— Você teve um benefício privado gerando um ônus público. Agora o problema está dentro de uma unidade de conservação e precisa ser resolvido com recursos públicos — pontua Michele.
É possível controlar o pinus?
Eliminar completamente a invasão é considerado inviável, mas especialistas afirmam que é possível reduzir os impactos. A principal medida é impedir que o pinus ultrapasse os limites das plantações comerciais.
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Como as sementes são levadas pelo vento, empresas precisam realizar monitoramentos frequentes e retirar todas as árvores que surgem fora das áreas autorizadas. Esse tipo de manejo já faz parte das exigências de certificações florestais em diversos países. Segundo Michele, no entanto, o desafio é incorporar esse custo ao próprio processo produtivo.
— Quem planta pinus precisa garantir que ele não vai invadir outras áreas. Esse controle custa dinheiro, mas deveria fazer parte do custo da produção.
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Um debate que envolve economia e conservação
Santa Catarina possui uma das maiores cadeias florestais do país, responsável por milhares de empregos e importante parcela da economia estadual.
Ao mesmo tempo, especialistas defendem que os impactos ambientais precisam entrar nessa conta.
— O desafio não é acabar com a produção. É encontrar equilíbrio entre produção e conservação para que os benefícios econômicos não sejam acompanhados de prejuízos ambientais que acabam sendo pagos por toda a sociedade — conclui Michele.
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Por que o pinus é considerado invasor?
- É uma espécie exótica, originária dos Estados Unidos;
- Produz sementes em grande quantidade;
- As sementes são levadas pelo vento por quilômetros;
- Cresce rapidamente;
- Encontra poucas barreiras naturais no Brasil;
- Invade restingas, campos naturais e unidades de conservação;
- Reduz a biodiversidade e aumenta o risco de incêndios.





