A onda de calor que atinge a Europa já mudou a rotina de milhões de pessoas e obrigou moradores a adaptar o dia a dia para enfrentar temperaturas que ultrapassam os 40°C. Na França, o cenário é considerado histórico: o país registrou os dias mais quentes desde o início dos registros meteorológicos, com dezenas de departamentos sob alerta vermelho e uma infraestrutura pouco preparada para lidar com o calor extremo.
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O verão europeu começou oficialmente no domingo (21), mas a estudante de mestrado Lívia Corrêa, de 27 anos, que mora em Paris há cerca de três anos, diz que nunca viu nada parecido.
— Eu nunca passei tanto calor. Está cerca de 12 graus acima da média e isso não é normal nem para essa época do ano, nem para o próprio verão. O pico costuma acontecer em julho e agosto, mas o calor chegou muito antes — conta ela, que é natural de Florianópolis (SC).
Mais do que os termômetros, foi a cidade que mudou, de acordo com Lívia. Quem caminha pelas ruas de Paris percebe menos pessoas circulando durante o dia. Os parques, normalmente lotados no verão, perderam movimento nas horas mais quentes. Em vez disso, moradores passaram a reorganizar completamente a rotina para fugir do calor.
Lívia, por exemplo, tem saído mais cedo de casa para evitar os horários mais críticos e passou a trabalhar presencialmente sempre que pode:
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— Eu tenho ido mais ao escritório porque lá tem ar-condicionado. Também escolho linhas de metrô que são climatizadas, porque nem todas são. Quando chego em casa, tento simplesmente não sair mais.
Isso porque o pior momento do dia chega justamente no fim da tarde.
— Aqui o pico do calor é por volta das 17h. É diferente do Brasil. Então, quando saio do trabalho, vou direto para casa.
Mas nem sempre ficar em casa significa alívio. Segundo ela, muitos prédios antigos de Paris têm isolamento térmico precário e quase ninguém possui ar-condicionado.
— Tem gente que simplesmente não consegue permanecer dentro de casa. Uma amiga minha mora no último andar de um prédio antigo e o apartamento virou um forno. Hoje, ela vai trazer o ventilador para dormir aqui em casa porque lá está impossível.
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Nesses casos, nem comprar ventilador tem sido tarefa fácil.
— Outra amiga foi em oito lojas diferentes procurando um ventilador e não encontrou nenhum. Está tudo esgotado.
Emergências e alertas pela cidade
Os impactos na saúde da população são percebidos amplamente. Nesta quinta-feira (25), o prefeito de Paris, Emmanuel Gregoire, afirmou que o número de mortes estava aumentando devido ao extremo climático e acendeu um alerta para os serviços de emergência médica.
O estudante catarinense Lucas Ortiz, de 24 anos, também mora na região de Paris e afirma que é possível perceber o aumento constante de ambulâncias pela cidade:
— Meus amigos e eu estamos ouvindo sirenes de ambulâncias passando o dia inteiro. Paris já é uma cidade barulhenta, mas com as ocorrências de saúde, isso só aumentou.
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Ele conta que já viveu situações de emergência por conta do calor. Em uma manhã, quando saía para o trabalho, encontrou um vizinho de cerca de 80 anos passando mal dentro do prédio.
— Ele superaqueceu. Era diabético, teve uma queda de glicemia e acabou precisando de atendimento. Eu tive que ficar ajudando até os bombeiros chegarem.
Segundo Lucas, que faz o mestrado na Université Paris Cité, a onda de calor também tem provocado problemas de saúde em pessoas mais jovens.
— Não é uma questão só de idosos ou pessoas vulneráveis. Jovens que não têm nenhum problema de saúde também estão sendo afetados.
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Um intercambista de 17 anos, conhecido de Lucas, teria sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) associado ao episódio de calor extremo.
— Ele não tinha nenhum problema de saúde, nenhum fator de risco. Foi algo causado por essa situação.
Banhos proibidos viram alternativa para escapar do calor
A busca desesperada por água também mudou a paisagem da capital francesa. Para Lívia, que mora perto do Canal Saint-Martin, os “banhos proibidos” se tornaram parte do cenário cotidiano. Ela conta que centenas de pessoas têm ignorado as restrições da prefeitura:
— Está lotado todos os dias. As pessoas fazem praticamente uma praia ali. É impossível controlar.
Segundo ela, diante da quantidade de pessoas pulando no canal, a prefeitura chegou a liberar um trecho específico e em horários determinados para banhos supervisionados.
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Ainda assim, muitos continuam entrando em áreas proibidas, e o comportamento preocupa as autoridades francesas. Desde 18 de junho, pelo menos 48 pessoas morreram afogadas no país enquanto tentavam se refrescar em rios, canais e outros locais não autorizados, a maioria jovens, segundo o governo francês. A ministra dos Esportes, Marina Ferrari, reforçou os alertas para que a população evite nadar em áreas perigosas.
Lucas também relata que o calor levou muitas pessoas a procurarem rios e locais sem estrutura para banho.
— Teve várias pessoas que morreram afogadas tentando fugir desse calor, entrando em lugares com correnteza e que não são seguros.
Cidade tenta se adaptar, mas esbarra em infraestrutura antiga
A estudante afirma que a estrutura da cidade simplesmente não acompanha o aumento das temperaturas. Restaurantes, farmácias, pequenos comércios e muitos prédios residenciais não possuem climatização suficiente. Em alguns casos, até o transporte público sofre.
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— Outro dia mudei minha rota para pegar um ônibus com ar-condicionado e o sistema tinha quebrado por causa do calor.
Lucas, que trabalha em um restaurante enquanto estuda, conta que até no ambiente de trabalho as adaptações precisaram aumentar.
— A gente tem que aumentar os momentos de hidratação. Os próprios gerentes estão incentivando a equipe a beber mais água para não correr risco de passar mal.
Além disso, no restaurante, o ar-condicionado não consegue resolver totalmente o problema.
— No andar de cima, onde a gente trabalha, não sustenta porque as portas ficam abrindo e fechando. Dá a impressão de que não tem ar-condicionado nenhum.
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Com o calor extremo, cidades da região metropolitana de Paris passaram a divulgar listas de locais públicos climatizados para onde moradores podem ir. Escolas também reduziram horários em alguns locais para evitar que crianças fiquem expostas durante os períodos mais quentes.
Dentro das casas, a rotina também mudou.
— As pessoas estão deixando cortinas e venezianas fechadas nos horários de pico, todas as janelas fechadas, para tentar manter o ambiente mais fresco — relata Lucas.
Para ele, Paris é uma cidade que não foi projetada para enfrentar temperaturas tão altas.
— A arquitetura foi feita para o frio. Muitos prédios têm telhados de zinco, que superaquecem. Quem mora nos últimos andares basicamente cozinha dentro de casa.
A instalação de ar-condicionado também não é simples. Em muitos prédios históricos, mudanças na fachada precisam passar por autorizações.
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— Não é algo que você decide instalar de um dia para o outro. Tem toda uma burocracia por causa da preservação da arquitetura.
Além disso, Lucas afirma que existe uma resistência de parte da população ao uso indiscriminado de aparelhos de ar-condicionado, por causa do impacto ambiental.
Alertas espalhados pela cidade
Além dos avisos constantes na televisão e nos aplicativos de celular, mensagens da prefeitura aparecem em estações de metrô, ônibus e espaços públicos orientando moradores a beber água, evitar exposição ao sol e ficar atentos aos sintomas de golpe de calor.
— Eles colocam nos telões dos transportes orientações sobre hidratação e os sinais de alerta. Está em todos os lugares — diz Lucas.
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Para Lívia, porém, as recomendações esbarram em um problema maior.
— A cidade simplesmente não foi construída para isso. Instalar ar-condicionado é caro, burocrático e muitos prédios nem permitem. Dá uma sensação de desespero. É um calor opressor.
Europa enfrenta cenário histórico
A onda de calor atinge diversos países da Europa Ocidental. França, Espanha, Itália, Reino Unido, Suíça e Luxemburgo registraram alertas máximos para temperaturas extremas.
Na França, os termômetros chegaram a 44,3°C na cidade de Pissos, enquanto imagens divulgadas pela Agência Espacial Europeia mostraram temperaturas superiores a 50°C na superfície em áreas do centro e sul do país e também do norte da Espanha.

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Especialistas explicam que o fenômeno é provocado por um bloqueio atmosférico conhecido como bloqueio ômega, que mantém uma massa de ar extremamente quente estacionada sobre a Europa e impede a chegada de frentes frias. O sistema ainda transporta ar quente vindo do Norte da África, prolongando a duração da onda de calor.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial, a Europa é o continente que mais aquece no planeta, com um ritmo superior ao dobro da média global, tornando episódios extremos como este cada vez mais frequentes.





