Florianópolis foi a única cidade de Santa Catarina a responder ao diagnóstico nacional do programa Beat the Heat (Mutirão contra o Calor Extremo), iniciativa ligada à COP30 e ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O levantamento ouviu 53 municípios brasileiros para avaliar o grau de preparação das cidades diante do avanço das ondas de calor e revelou que a capital catarinense reconhece o problema, mas ainda não o considera entre seus três maiores riscos climáticos.

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No questionário, a prefeitura classificou o calor extremo como um risco importante, mas não entre os três principais“. A posição difere da maioria das cidades participantes: 68% dos municípios colocaram o calor entre seus três maiores desafios climáticos e 93% o consideram um risco relevante.

Questionada pelo NSC Total sobre a razão dessa avaliação, a Secretaria Municipal de Planejamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano afirmou que outros riscos recebem prioridade devido às características geográficas da cidade.

“Devido à condição insular da maior parte do território do município, outros riscos são priorizados pela Defesa Civil Municipal, como deslizamentos, inundações e erosão marinha. Mas os estudos sobre ilhas de calor estão sendo aprofundados e considerados dentro da gestão”, informou a prefeitura.

Segundo o município, a questão do calor extremo em Florianópolis também será incorporada ao Plano de Ação Climática atualmente em elaboração no âmbito do projeto CITinova II, iniciativa nacional de desenvolvimento urbano sustentável criada em 2023 e executada em Florianópolis desde 2025, desenvolvida em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO).

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Embora a prefeitura não coloque o calor extremo entre os três principais riscos climáticos, episódios recentes mostram que o tema já faz parte da realidade dos moradores da capital catarinense, uma vez que Florianópolis vem registrando temperaturas e sensações térmicas incomuns até mesmo fora do verão. Em maio deste ano, em pleno outono, por exemplo, a Capital chegou a ter índice de calor acima dos 40°C, fenômeno provocado pela combinação entre altas temperaturas e elevada umidade do ar.

Segundo Maikon Alves, técnico em Meteorologia da Epagri/Ciram e doutor em Climatologia, episódios dessa magnitude durante o outono podem ser considerados atípicos para o comportamento climático esperado na região. Ele explica que, embora a umidade elevada seja uma característica permanente do litoral catarinense, temperaturas suficientemente altas para produzir índices de calor acima dos 40°C costumam ser mais frequentes nos meses de verão.

Calor “fora de época” está mais frequente

Em Santa Catarina, estudos climáticos e séries históricas de observação indicam uma tendência de aumento das temperaturas médias e, principalmente, das temperaturas mínimas ao longo das últimas décadas, reduzindo a ocorrência de frio intenso e ampliando a probabilidade de episódios de calor fora do período de verão. Alves cita pesquisas realizadas no Estado que apontam mudanças no comportamento térmico catarinense e mostram que eventos extremos de temperatura elevada vêm se tornando um componente cada vez mais relevante da climatologia local.

— O que chama atenção é a sucessão de eventos de calor registrados nos últimos anos, inclusive em meses de transição, como outono e primavera — afirma. Na avaliação do climatologista, esse comportamento sugere uma ampliação da variabilidade térmica e uma maior probabilidade de extremos de calor em períodos historicamente mais amenos.

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Por isso, embora enchentes, movimentos de massa e ressacas continuem entre os principais riscos climáticos de Florianópolis pelo potencial de impacto, o calor extremo merece atenção crescente nas estratégias de adaptação da cidade. Além dos efeitos sobre a saúde da população, especialmente idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas, eventos de calor intenso podem pressionar a demanda por energia, afetar a qualidade de vida urbana e trazer reflexos para setores econômicos como a agricultura, de acordo com o especialista.

A tendência observada, segundo Alves, indica que episódios de calor “fora de época” podem se tornar cada vez mais frequentes e relevantes para o planejamento urbano.

Florianópolis está em fase inicial de planejamento “contra” o calor

O diagnóstico mostra que Florianópolis ainda está nas etapas iniciais de preparação para enfrentar o calor extremo. A cidade informou que realiza o planejamento e o mapeamento de calor, com coleta de dados e articulação de parcerias, mas ainda sem um plano consolidado de ação.

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A prefeitura declarou à pesquisa que possui dados locais sobre ilhas de calor, porém reconheceu que eles ainda não estão incorporados de forma estruturada à gestão municipal. Em resposta ao NSC Total, contudo, o município contestou a interpretação de que os mapas estariam sem uso e afirmou que os estudos já vêm sendo utilizados em projetos urbanos.

Ilhas de calor são pontos da cidade onde a temperatura fica mais alta por causa da concentração de construções, asfalto e falta de árvores, que reduzem a circulação de ar e aumentam o acúmulo de calor.

Segundo a administração municipal, os primeiros levantamentos de concentração desses fenômenos foram identificados em 2025 a partir de pesquisas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Desde então, segundo o município, os dados subsidiaram propostas de refúgios climáticos no Centro da cidade e um projeto de corredores verdes na região continental.

A prefeitura informou, ainda, que os mapas estão sendo cruzados com informações sobre áreas de interesse social para identificar populações mais vulneráveis ao calor. (entenda mais abaixo)

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Onde estão as principais ilhas de calor de Florianópolis?

Os estudos disponíveis apontam que as ilhas de calor mais intensas do município estão concentradas em duas áreas centrais: uma no entorno do Terminal Rodoviário Rita Maria e do Terminal de Integração do Centro (Ticen), e outra próxima ao Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC).

Além dessas regiões, há focos menores distribuídos por diferentes áreas urbanizadas da cidade.

De acordo com a prefeitura, um dos levantamentos identificou diferenças de até 12°C entre áreas urbanizadas e regiões preservadas do município. Outro estudo mais recente, disponibilizado pelo World Resources Institute (WRI) — instituto internacional que apoia governos no desenvolvimento de soluções para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas — em 2026, aponta que determinadas áreas urbanas podem registrar temperaturas de superfície até 24°C superiores às encontradas em áreas não urbanizadas.

Cidade prioriza regiões mais afetadas pelas ilhas de calor, diz prefeitura

No diagnóstico, Florianópolis informou que espera beneficiar diretamente menos de 50 mil pessoas com as ações prioritárias previstas para os próximos 12 a 18 meses.

À reportagem, a prefeitura explicou que o número considera principalmente moradores e frequentadores das áreas identificadas como ilhas de calor urbano. Segundo o município, os benefícios indiretos podem alcançar um público muito maior, incluindo turistas, moradores de outras regiões da cidade e habitantes da Grande Florianópolis.

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Ou seja, segundo a administração municipal, os grupos prioritários definidos e mencionados no diagnóstico são moradores de áreas mais expostas ao calor, crianças e jovens — especialmente estudantes — e usuários de equipamentos públicos.

Corredores verdes e refúgios climáticos estão entre os projetos

A principal aposta da cidade para enfrentar o calor extremo está em soluções baseadas na natureza, como arborização e ampliação de áreas verdes.

Um dos projetos em desenvolvimento prevê a criação de uma rede de corredores e espaços verdes entre os bairros Coqueiros e Estreito. A proposta inclui quase 25 quilômetros de corredores arborizados, implantação e revitalização de áreas verdes, intervenções em pontos de ônibus e equipamentos públicos, além de medidas para reduzir enchentes e melhorar a mobilidade ativa.

Segundo a prefeitura, o projeto beneficiaria diretamente cerca de 23 mil moradores da área de intervenção e oito comunidades classificadas como áreas de interesse social.

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Outro projeto prevê a transformação do Centro de Florianópolis em uma rede de refúgios climáticos e ruas verdes. Entre as intervenções planejadas estão a criação de um parque urbano próximo ao Ticen, a implantação de corredores arborizados e a revitalização de espaços públicos. A proposta prevê o plantio de 831 árvores e a transformação de 4,5 quilômetros de vias em ruas verdes completas.

Ambos projetos estão em fase de pré-viabilidade, etapa em que são realizados estudos técnicos, definição de custos e busca por fontes de financiamento para viabilizar a implementação das propostas.

Projetos dependem de financiamento para avançar

Assim como a maioria das cidades participantes do diagnóstico, Florianópolis informou depender principalmente de apoio externo para avançar nas ações de adaptação ao calor. A principal barreira apontada pela administração municipal é a limitação de recursos financeiros.

Apesar disso, a prefeitura afirmou que existem fontes locais de financiamento para etapas iniciais dos projetos, por meio do Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano, recursos de infraestrutura e do Fundo Municipal de Defesa Civil. O município também busca apoio de instituições nacionais e internacionais voltadas ao financiamento climático para tirar os projetos do papel e expandi-los para outras regiões da cidade.

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Projetos amadurecem com apoio técnico internacional

Florianópolis participa do Acelerador para Soluções de Calor Urbano, iniciativa coordenada pelo WRI. No formulário do diagnóstico, a prefeitura afirmou que o programa ainda apresentava poucos resultados concretos, mas gerava avanços na qualificação técnica e no desenvolvimento de projetos.

Ao NSC Total, o município esclareceu que a avaliação foi feita quando o programa ainda estava no início. Segundo a prefeitura, após a conclusão do ciclo de capacitação, os projetos ganharam maturidade técnica e chegaram a ser apresentados a potenciais financiadores em Brasília.

“O projeto deixou de ser apenas uma ideia, em setembro de 2025, para se tornar um projeto real e atrativo para financiamento em maio de 2026”, informou a administração municipal.