A empresa pivô da suposta máfia da merenda em Blumenau recebeu, em quase duas décadas, R$ 511 milhões da prefeitura, mostra um levantamento do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco). A Risotolândia dominou o serviço nas escolas municipais da cidade de 2006 a 2024. No começo de 2025, o contrato foi rompido. O Gaeco estima que por pelo menos dois anos R$ 3,6 milhões foram pagos a três funcionários públicos como forma de propina, dando origem à operação Arbóreo.
Continua depois da publicidade
As análises da investigação se restringiram ao final de 2021 e 2024. Nesse período, os pagamentos à empresa somaram R$ 120 milhões e, como a suspeita do Ministério Público é de que o acordo previa exatos 3% de propina, o montante desviado teria alcançado os R$ 3,6 milhões — desses, há provas de repasses de R$ 2,3 milhões, sustenta o MP.
Ao olhar todos os anos de serviços prestados, a Risotolândia recebeu R$ 511 milhões do governo municipal, “o que demonstra a relevância econômica do objeto e o potencial prejuízo ao erário decorrente das práticas ilícitas apuradas”, escreveu o MP no relatório da investigação obtido com exclusividade pelo NSC Total. Além das merendas, a empresa foi responsável pelos kits de alimentos entregues durante a pandemia do coronavírus, por exemplo.
Veja prints de conversas
Alto escalão da prefeitura
No período investigado, César Botelho e Ronaldo “Roni” Wan-Dall, chefe e diretor de gabinete do então prefeito Mário Hildebrandt (PL), trocaram áudios para falar sobre a licitação que definiria a empresa responsável pela prestação de serviços de nutrição e alimentação escolar, sustenta o MP. Mesmo em férias, Wan-Dall demonstrou interesse no assunto, diz ainda o documento. A partir daí, uma série de provas teria demonstrado a existência de um estruturado esquema.
Continua depois da publicidade
A última interação entre a “máfia da merenda” analisada foi em fevereiro de 2024. Depois disso, a averiguação parou para dar sequência à investigação com outros trâmites. No ano começo do passado, a prefeitura rompeu o contrato com a Risotolândia após todo o valor previsto para ser usado até abril de 2025 acabar em dezembro de 2024. A orientação jurídica da Procuradoria-Geral foi de que se evitasse a renovação.
O governo, então, optou por acionar outra emergencialmente. A Risotolândia fez um pedido liminar à Justiça para reverter a situação, algo que foi negado.
Arbóreo
Durante a operação Arbóreo, no último dia 7, nove mandados de busca e apreensão foram cumpridos em endereços residenciais e empresariais em Blumenau, Indaial e Araucária (PR). O Gaeco quer identificar outros elementos que confirmem as suspeitas já levantadas ao longo de quase um ano de investigação, que começou durante as análises das provas contra a suposta corrupção do cartel de obras em Blumenau.
Ali, os investigadores perceberam indícios de um esquema também na empresa da merenda e abriram um novo procedimento para aprofundar a história. Informações do portal da transparência, quebras de sigilo telefônico e arquivos digitais encontrados em equipamentos eletrônicos dos investigados apontam, segundo o Gaeco, Botelho, César Poltronieri e Wan-Dall como os nomes ligados à fraude com a empresa Risotolândia, do Paraná.
Continua depois da publicidade
A pedido da promotoria, a Justiça autorizou o bloqueio de R$ 3,6 milhões das contas dos três suspeitos e da empresa. O objetivo do MP é que, em caso de condenação, o dinheiro público que teria sido desviado volte aos cofres da prefeitura.
Os 3% de sempre
Botelho teria o papel de liderança, acredita a promotoria, coordenando as etapas do esquema, acionando Poltronieri para obter dados financeiros, autorizando deslocamentos de Wan-Dall para buscar o dinheiro no Paraná, sede da empresa, e mantendo controle sobre o fluxo de informações sensíveis. Em uma das conversas com Wan-Dall, no final de 2022, o chefe de gabinete expôs com prints da calculadora do computador parte dos pagamentos feitos à Risotolândia pela prefeitura e, na sequência, 3% do valor, identificou o MP.
Em um rascunho escrito à mão, mais cálculos foram feitos, sempre com precisos 3% sobre o total que era pago pelo governo municipal à empresa contratada. Para os investigadores, como consta no documento, são provas claras de como os envolvidos se organizaram para garantir o montante recebido ilegalmente. Em um dos episódios, no mesmo dia da troca de mensagens sobre o dinheiro, Wan-Dall teria escrito a Botelho: “Chefe, ficou a ida para quinta-feira”.
O chefe de gabinete sabia dos valores pagos à Risotolândia — e, com isso, calculava o montante da propina — com a ajuda de Poltronieri, aponta a investigação. Como secretário da Fazenda, ele teria viabilizado o acesso a dados financeiros, fornecendo “valores atualizados de empenhos e pagamentos destinados à Risotolândia, inclusive em período de férias, alimentando relatórios e cálculos que serviram de gatilho para deslocamentos e encontros subsequentes”, detalha o relatório do Gaeco.
Continua depois da publicidade
Possíveis crimes
Na Risotolândia, Carlos Gusso, dono da empresa, e Elizete Furtado, consultora, teriam viabilizado os repasses ilícitos. “A presença de ambos nas agendas telefônicas dos investigados do núcleo público, associada às posições hierárquicas que ocupam ou ocuparam dentro da empresa, indica que exerciam papel de conexão entre a administração pública corrompida e a origem dos recursos ilícitos, configurando-se, portanto, como elos fundamentais da engrenagem criminosa”, sustenta a investigação.
Os cinco envolvidos na suposta “máfia da merenda” podem responder por corrupção ativa e passiva, fraude à licitação e organização criminosa, explicou o promotor do caso, Marcionei Mendes. A investigação segue em andamento com a análise dos materiais apreendidos neste mês e a oitiva dos suspeitos.
Contrapontos
O NSC Total enviou mensagem para todos os citados na reportagem na tarde de terça-feira (19). Além disso, ligou para Elizete Furtado, César Botelho e Ronaldo “Roni” Wan-Dall. Ninguém atendeu. O espaço segue aberto.
Carlos Gusso indicou que a manifestação seria através da assessoria de comunicação da Risotolândia. A equipe informou por nota que o proprietário “se desvinculou do dia a dia da empresa em 2020, tendo saído formalmente dos atos societários como administrador em abril de 2021”.
Continua depois da publicidade
Já sobre Elizete Furtado, a empresa explicou que ela se aposentou em 2022.
A Risotolândia ressaltou ainda que a “existência de investigação em curso não representa conclusão definitiva quanto a fatos, responsabilidades ou eventual culpabilidade, circunstância que somente pode ser estabelecida após a devida apuração pelas autoridades competentes, com garantia plena do contraditório e da ampla defesa”.
“O Grupo Risotolândia reafirma seu compromisso inegociável com a ética, a integridade corporativa, a conformidade legal e a transparência em todas as suas operações. A empresa seguirá acompanhando o tema com serenidade, responsabilidade institucional e absoluto respeito às autoridades e ao ordenamento jurídico brasileiro”.
César Poltronieri escreveu que não tem “nada a declarar nesse momento inicial”. Único dos agentes públicos que é efetivo na prefeitura de Blumenau, ele estava cedido ao governo de Indaial, mas foi exonerado do cargo de secretário de Administração e Finanças quando a operação Arbóreo veio à tona. No momento, dados da transparência do governo blumenauense mostram que o servidor está em férias. A Prefeitura diz aguardar a notificação oficial da Justiça para adoção das medidas administrativas cabíveis.
Mário Hildebrandt afirmou por nota que não é alvo das investigações e sequer é citado nos procedimentos em andamento. Escreveu que “enfrentou alguns dos maiores desafios da história recente de Blumenau, como as enchentes e a pandemia, conduzindo o município com responsabilidade, equilíbrio e compromisso com a população”.
Continua depois da publicidade
“Todas as contas de sua gestão foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado, refletindo uma administração pautada pela transparência, responsabilidade na aplicação dos recursos públicos e respeito às instituições”, diz o texto. Ele também se colocou à disposição da Justiça e se disse “confiante de que os fatos serão devidamente esclarecidos no menor tempo possível”.











