A divulgação de conversas atribuídas ao senador Flávio Bolsonaro (PL) e ao empresário Daniel Vorcaro desencadeou uma ofensiva jurídica marcada por uma série de pedidos de investigação e de possíveis medidas cautelares, como quebra de sigilo e prisão preventiva do pré-candidato à Presidência.

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Um levantamento feito pela CNN Brasil aponta que ao menos 20 solicitações foram encaminhadas, principalmente à Procuradoria-Geral da República (PGR), além da Polícia Federal (PF), Supremo Tribunal Federal (STF), Controladoria-Geral da União (CGU), Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e Tribunal de Contas da União (TCU).

As medidas surgiram após reportagens do Intercept Brasil revelarem áudios, mensagens e documentos relacionados a negociações entre Flávio e Vorcaro, realizadas entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, envolvendo recursos destinados ao financiamento do longa “Dark Horse” — cinebiografia sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O contrato de patrocínio previa R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos.

Saiba mais sobre Daniel Vorcaro

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Além das ações dirigidas a órgãos públicos, duas siglas informaram ter protocolado representações pedindo a possível cassação de Flávio por quebra de decoro parlamentar. A federação PSOL-Rede e o partido Missão afirmaram ter acionado o Conselho de Ética do Senado. O colegiado, porém, não realiza reuniões desde julho de 2024.

A equipe da pré-campanha de Flávio ainda aguarda os próximos desdobramentos para definir estratégias jurídicas sobre o caso. Caso identifique o que classifica como “difusão de fake news” envolvendo o episódio, o grupo afirma que pretende recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Sobre as negociações com Vorcaro, Flávio nega irregularidades e sustenta que as conversas tratavam “especificamente” da produção do filme. Segundo o senador, o acordo previa exclusivamente recursos privados.

O que se sabe sobre os pedidos de investigação

Grande parte das solicitações foi apresentada por parlamentares da base aliada do governo, que têm intensificado críticas a Flávio, pré-candidato à Presidência e adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa pela reeleição.

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Os deputados Lindbergh Farias (PT), vice-líder do governo na Câmara, e Sâmia Bomfim (PSOL) apresentaram pedidos individuais ao STF sugerindo a prisão preventiva de Flávio. O parlamentar petista também encaminhou solicitação semelhante à PF e à PGR.

Para justificar os pedidos, os deputados alegam riscos “à instrução criminal e à aplicação da lei penal”, além de possível “risco concreto de destruição de provas, coação de testemunhas, obstrução das investigações ou continuidade delitiva”.

O líder do PT na Câmara, deputado Pedro Uczai, também acionou o Coaf para que o órgão investigue o destino de R$ 61 milhões que teriam sido transferidos por Vorcaro para a produção do filme sobre Bolsonaro.

Em outra iniciativa, um pedido subscrito por líderes do PT, PC do B e PV, além de outros parlamentares petistas, foi enviado à PGR solicitando investigação sobre possível lavagem de dinheiro envolvendo recursos do Banco Master destinados à cinebiografia “Dark Horse”.

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A solicitação também pede apuração sobre eventual uso de emendas parlamentares no financiamento da produção. (saiba mais abaixo) Na mesma linha, o deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL) apresentou pedidos ao STF, CGU, TCU e PGR.

Dino abriu investigação sobre uso de emendas parlamentares

Na sexta-feira (15), o ministro Flávio Dino, do STF, determinou a abertura de um processo para investigar supostos direcionamentos de emendas parlamentares para projetos culturais, entre eles o filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

A lista de solicitações inclui ainda um pedido coletivo da bancada do PSOL, articulado pelo líder da legenda na Câmara, deputado Tarcísio Motta (PSOL). O documento encaminhado ao STF e à PGR pede abertura de inquérito e eventual adoção de medidas de quebra de sigilo. A deputada Erika Hilton (PSOL) também informou ter protocolado pedido individual na PGR para investigar o possível “elo entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro”.

Como mostrou a CNN, o grupo Prerrogativas também acionou a PGR e a PF solicitando apuração e rastreamento financeiro das verbas destinadas à produção de “Dark Horse”.

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No campo eleitoral, o deputado Rogério Correia (PT) encaminhou pedido à PGR questionando o uso do filme “Dark Horse” como estratégia de “propaganda eleitoral dissimulada” e “financiamento eleitoral irregular”. O partido Missão também anunciou representação ao Ministério Público Eleitoral (MPE) para investigar o possível uso de “dinheiro sujo” no lançamento do filme durante o período eleitoral e na promoção de Flávio.

As negociações entre Flávio e Vorcaro também ampliaram a pressão pela instalação de uma comissão parlamentar de inquérito sobre o Banco Master.

Cinco requerimentos relacionados ao tema já alcançaram o número mínimo de assinaturas, enquanto outros dois, apresentados nesta semana, ainda estão em fase de coleta. Para que a comissão seja instalada, parlamentares cobram uma decisão do STF que obrigue o Congresso a avançar na abertura da CPI.