Durante boa parte do século XX, a Ilha do Francês, em frente à Praia de Canasvieiras, não era apenas um cenário de mata atlântica preservada e costões rochosos. Era também o lar de famílias que cuidavam do local, cultivavam hortas, criavam animais e mantinham um dos mais importantes orquidários de Santa Catarina.

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É essa história que o geógrafo, pesquisador e memorialista José Luiz Sardá busca preservar. Descendente direto de moradores da ilha, ele reúne há décadas documentos, relatos de familiares, entrevistas com antigos pescadores e pesquisas sobre um dos lugares mais emblemáticos do Norte da Ilha.

— Sou geógrafo por formação, mas historiador e memorialista por paixão — resume ele.

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Segundo Sardá, a ligação de sua família com a Ilha do Francês atravessa diversas gerações. Seu bisavô, Joaquim da Costa, conhecido como “Joaquim da Ilhota”, foi um dos responsáveis pela guarda da propriedade. Já a bisavó, Maria Virgínia Schroeder da Costa, era filha de João Ignácio Schroeder, personagem fundamental na história da ilha.

Todos os tios de Sardá nasceram na Ilha do Francês, assim como sua avó Maria da Costa Cunha. Sua mãe, Ruth Cunha Sardá, também trabalhou no local durante a juventude, realizando serviços domésticos para a família proprietária.

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Fotografia ano 2002: Avó de José, Maria da Costa Cunha, nascida em 1918 na Ilha do Francês; vó Maria faleceu em 26 de março de 2010 aos 92 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Visita à Ilha do Francês com a família; ao fundo, a praia de Jurerê (Foto Arquivo Pessoal de José Luiz Sardá)

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A ilha das orquídeas

Muito antes de se tornar conhecida pela beleza da paisagem, a Ilha do Francês ganhou fama pelo cultivo de orquídeas.

Os registros históricos apontam que a propriedade passou por diferentes donos ao longo do século XIX até chegar às mãos de João Ignácio Schroeder, em 1893. Imigrante naturalizado brasileiro, ele transformou a ilha em um grande viveiro de orquídeas e bromélias, tornando-se um dos pioneiros do orquidofilismo catarinense.

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Segundo o livro Orquídeas Catarinenses, de Antônio de Lara Ribas, foi ali que Schroeder realizou uma das primeiras experiências documentadas de hibridação de orquídeas em Santa Catarina, dando origem à variedade Laelia Elvira Schroeder. A produção alcançou reconhecimento internacional, com flores exportadas para a Europa.

Décadas depois, quando a ilha passou à família Muniz Barreto, o cultivo continuou sendo ampliado. Conforme relatos históricos reunidos por Sardá, estima-se que, em 1973, cerca de 300 mil flores tenham desabrochado no antigo orquidário.

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Laelia Elvira Schroeder (Foto: Luiz Filipe Varella, Divulgação)

Memórias da infância

Parte das lembranças mais vivas de Sardá nasceu justamente ali. Quando criança, ele acompanhava a mãe nas visitas à ilha. Recorda os banhos de mar, a pesca artesanal, as trilhas entre a mata, as frutas colhidas diretamente dos pés e as tardes passadas explorando os antigos sambaquis existentes na propriedade.

Também guarda na memória a casa principal, construída sobre o morro, as louças de porcelana, os jardins repletos de orquídeas e uma antiga luneta instalada na janela, de onde era possível observar o Arquipélago do Arvoredo, as Ilhas Galés e Deserta, além das praias do Norte da Ilha.

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Outro personagem marcante era o argentino Antônio Muniz Barreto, proprietário da ilha durante boa parte do século XX.

Segundo Sardá, sua mãe costumava contar que Barreto era conhecido pela hospitalidade e pelo hábito de presentear visitantes. Sonhava, inclusive, ser sepultado na ilha pela qual nutria profunda paixão.

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José Luiz Sardá é geógrafo e memorialista, além de ex-presidente do Instituto SOS Rio do Brás e atual Diretor de Comunicação do Instituto SOS Rio do Brás (Foto: Arquivo Pessoal)

Entre documentos e tradição oral

Grande parte das informações reunidas por Sardá nasceu da combinação entre pesquisa documental e memória oral. Ao longo dos anos, ele entrevistou parentes, antigos pescadores e moradores de Canasvieiras, muitos deles já falecidos. Foi a partir desses relatos que conseguiu reconstruir episódios pouco registrados em livros, como o funcionamento de engenhos de farinha, a criação de animais na ilha e antigos caminhos utilizados pelos moradores.

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Entre as histórias transmitidas pelas gerações anteriores está uma das possíveis explicações para a origem do nome “Ilha do Francês”. Enquanto algumas publicações associam a denominação à presença de um veterano do exército de Napoleão Bonaparte, pescadores antigos afirmavam que marinheiros franceses morreram durante uma epidemia e foram sepultados na ilha.

Para Sardá, essas diferentes versões fazem parte da riqueza histórica do lugar.

Ilha do Francês em 1970 (Foto: Casa da Memória de Florianópolis)

Um patrimônio da memória catarinense

Além da importância ambiental, a Ilha do Francês reúne patrimônio histórico, arqueológico e cultural. Os sambaquis existentes, a vegetação preservada, os antigos caminhos e o legado do orquidário transformam o local em um dos espaços mais emblemáticos da história de Florianópolis.

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Em 2001, uma reportagem do jornalista Celso Martins mostrou que a Fundação Pró-Florianópolis chegou a discutir a abertura da ilha para visitação pública controlada. A proposta, porém, não avançou diante da posição contrária dos ocupantes da área.

Hoje, mais de duas décadas depois, Sardá continua dedicando parte de seu trabalho ao resgate dessa memória. Seu objetivo é reunir pesquisas e relatos em um livro sobre Canasvieiras e o Norte da Ilha.

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— Eu tento levar essa mensagem de resgate dos valores culturais da nossa gente e do nosso lugar. É isso que me move — afirma.

Vejas fotos de como é a Ilha do Francês

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Como chegar na Ilha do Francês?

Para chegar na Ilha do Francês, é necessário alugar lanchas ou participar de excursões guiadas que partem das praias de Jurerê e Canavieiras, visto que o acesso é feito somente por meio aquático. Os valores variam conforme a empresa contratada.

Durante a alta temporada de verão, as reservas de passeios costumam esgotar rapidamente, por isso, é preciso se planejar com antecedência.

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