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Florianópolis completa um mês sem mortes por coronavírus: isolamento funcionou?

Capital catarinense possui um dos menores números de óbitos e de taxa de letalidade entre as capitais

04/06/2020 - 03h00 - Atualizada em: 04/06/2020 - 12h50

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Por Jean Laurindo
Florianópolis completou um mês sem mortes por conta da covid-19
Florianópolis completou um mês sem mortes por conta da covid-19
(Foto: )

Florianópolis completa um mês sem mortes por coronavírus nesta quinta-feira (4). O último óbito na cidade por conta da doença ocorreu no dia 4 de maio. Com a marca, a capital de Santa Catarina fica entre as capitais com menores números de óbitos e com uma das menores taxas de letalidade pela covid-19.

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Neste mês sem mortes por coronavírus, o número de casos confirmados passou de 353 para 697. Ao completar 30 dias sem óbitos pela covid-19, Florianópolis convive com a aprovação das medidas adotadas para reduzir o contágio e analisa novas estratégias para próximas etapas de reabertura, como a volta dos ônibus

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Para a prefeitura, esse mês sem mortes é resultado de medidas tomadas desde o início da pandemia, como o isolamento adotado cedo, a testagem em grande quantidade e o atendimento dos casos suspeitos e seus contatos. Para especialistas, outros fatores como o atendimento hospitalar também interferem no quadro.

A marca de um mês sem mortes por covid-19 ocorre em um momento que a cidade também apresenta outros números de destaque no controle da doença em comparação com capitais de outros Estados do país.

Florianópolis tinha até esta quarta-feira o menor número de mortes causadas pela covid-19 entre as 27 capitais, ao lado de Campo Grande (MS), ambas com sete óbitos. Na proporção de mortes pelo tamanho da população, a capital catarinense tem a segunda menor incidência, com 1,40 óbitos para cada 100 mil habitantes, contra 0,78 da capital sul-mato-grossense. A taxa de letalidade de Florianópolis, que é a divisão do total de casos confirmados pelo número de óbitos por covid-19, é a menor entre as 27 capitais, com 1%.

O secretário de Saúde de Florianópolis, Carlos Alberto Justo da Silva, cita que entre as medidas adotadas pelo município que teriam contribuído com o período sem mortes está a adoção do isolamento desde o início da pandemia – a cidade adotou o distanciamento desde 13 de março – e a testagem em grande escala. A prefeitura adquiriu mais de 30 mil testes e examinou pacientes suspeitos em pontos como o aeroporto, rodoviária e em um ponto de drive thru.

– Enquanto no Brasil se falava em testar só casos graves, já testávamos todos os suspeitos. Quando testava só na emergência, não dava atenção a todos os suspeitos e contatos. Testar em massa e monitorar os contatos dos positivos, para com isso poder isolá-los, foi determinante para evitar o aumento da doença – avalia justo da Silva.

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Além dos testes, o secretário cita também o atendimento de saúde básica, com as equipes de Estratégia de Saúde da Família, que puderam ser contatadas pelo aplicativo Whatsapp, e ferramentas como o Alô, Saúde, que foi lançado no início da pandemia e fez 44 mil atendimentos de videoconsulta.

“Não há uma resposta mágica para reduzir as mortes”, diz secretário

A parceria com empresas de tecnologia, que permitiu também a cidade avisar os moradores sobre a existência de casos suspeitos em raio de 200 metros, também deve ajudar na retomada do transporte coletivo, anunciada pelo município esta semana. Um QR-Code vai ser disponibilizado para quem quiser cadastrar o celular. Caso haja algum caso suspeito naquele veículo, o sistema deve facilitar a localização dos passageiros para comunicar o caso.

O secretário de Saúde de Florianópolis lembra que de acordo com a literatura médica aproximadamente 1,5% das pessoas contaminadas por covid-19 morrem por causa da doença. Por isso, segundo ele, o período de um mês sem mortes reflete acima de tudo um número menor de contágio da doença na cidade.

– Não há uma resposta mágica para reduzir as mortes. É impedir que haja circulação, de contaminação e de pessoas contaminadas. Quanto maior número de pessoas contaminadas, maior número de pessoas em UTI e também de óbitos – afirma o secretário de saúde.

O médico infectologista Antônio Miranda defende que na avaliação dele o bom atendimento hospitalar é a principal explicação para a redução nas mortes causadas por covid-19 em Florianópolis. Ele chama a atenção para o trabalho das equipes de médicos e profissionais.

– Essa questão hospitalar do atendimento precoce e de boa qualidade é fundamental. O paciente começando a ser sintomático, se você interna ele precocemente, com atendimento bom, diminui muito a mortalidade. Diagnosticar é importante, mas só isso não resolve, é preciso diagnosticar e tratar bem. Isso sim faz a diferença para uma menor mortalidade – aponta.

Epidemiologista alerta para subnotificação

O epidemiologista da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Fabrício Menegon, pondera que apesar das ações tomadas no município, é preciso ficar atento à subnotificação.

– Em que pese essas medidas todas serem importantes e trazerem diferencial em relação a outras capitais, não dá para dizer que isso explica completamente por que não tem tido morte nas últimas semanas. Óbitos por covid estão sistematicamente subnotificados, é o cenário do Brasil inteiro – pondera o especialista, que alerta para o risco de esses dados positivos justificarem decisões que acabem aumentando a circulação de pessoas.

Florianópolis mira alcançar “novo normal” até o verão

Testagem de coronavírus feita em sistema drive thru em terminal de Florianópolis
Primeiros testes rápidos foram aplicados em sistema de drive thru no bairro Trindade
(Foto: )

O próximo desafio para Florianópolis deve ser continuar com índices baixos de contágio com a liberação do transporte coletivo, anunciada para 17 de junho. Segundo o secretário de saúde, se tudo correr bem, a próxima meta deve ser vencer o problema das aulas e, em seguida, o dos eventos.

– Temos expectativa de que até o começo do verão, se todos cooperarem, a gente tenha mantido no novo normal, tendo condições de ter um movimento como tem hoje em dia a Alemanha e outros países que conseguiram controlar a doença – afirma o secretário.

O interno, que preocupa por ser o período de mais doenças respiratórias, por outro lado considerado mais favorável que é a maior tendência de as pessoas permanecerem em casa.

– Esse é outro desafio: ver como vai ser o inverno e como vamos responder. Tenho esperança que pelo fato de as pessoas usarem máscara vamos ter incidência menor também de outras doenças respiratórias – afirma.

“Não vencemos a guerra”, alerta prefeito Gean Loureiro

Em entrevista ao Bom Dia Santa Catarina desta quarta-feira (3), o prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro, falou sobre o período de 30 dias sem mortes na cidade.

– Isso é fruto do esforço de todos, que buscaram permanecer em casa, utilizaram a máscara de proteção, respeitaram as normas, confiaram no poder público. Acaba sendo nesse momento uma vitória de Florianópolis. Mas nós não vencemos a guerra. Não podemos relaxar. É importante todos continuarem com os cuidados – alertou.

O secretário de Saúde Carlos Alberto Justo da Silva também reconhece a contribuição dos moradores para que o último mês não tivesse mortes por covid-19 em Florianópolis.

– Quando começamos a dizer que só poderia entrar de máscara nos estabelecimentos, atender um de cada vez, apostamos na população e deu certo. Como estamos dizendo agora que não queremos superlotação de ônibus. Estamos acreditando que a população vai comprar ideia. Se ela não acreditar e os números piorarem, vamos ter que voltar atrás – afirma o secretário de Saúde.

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