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Entrevista

“Bolsonaro estimulou a divisão do país”, diz Doria, governador de SP, sobre politização da pandemia

Doria conversou com exclusividade com o Santa e falou sobre a Covid-19, economia, criticou o presidente e abordou temas políticos

20/07/2020 - 11h46 - Atualizada em: 20/07/2020 - 12h12

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Augusto
Por Augusto Ittner
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João Doria, governador de SP
(Foto: )

João Doria é uma faca de dois gumes — e a entrevista a seguir não nos deixa mentir. Embora não admita publicamente que já esteja com os olhos voltados às eleições presidenciais de 2022, o discurso do governador de São Paulo remete a alguém que tem o objetivo de agradar gregos e troianos. Ao mesmo tempo em que diz se espelhar em FHC, elogia de Michel Temer a Lula, e projeta um PSDB mais “social”, com programas que fazem lembrar o governo petista.

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Em meio à pandemia do novo coronavírus, Dória conversou com exclusividade com o Santa e falou sobre a Covid-19, economia, criticou (e muito) o presidente Jair Bolsonaro e abordou temas políticos e até a violência policial.

Confira:

Com tantos casos de coronavírus, mortes, um estado que é o epicentro da doença, enfim... Como é que o estão sendo as noites de sono do senhor desde que começou a pandemia aí em São Paulo?

Sono preocupado, mas tranquilo porque temos uma boa equipe, e isso é metade do caminho andado para manter um bom controle sobre ações, sobre a saúde, e emoções. Quem tem boa equipe, tem estrutura para enfrentar adversidade.

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Qual foi o momento em que o senhor mais ficou preocupado nesses cinco meses?

Bom... Sigo preocupado. Quando se trata de vidas, é preciso um grau de preocupação bastante elevado. Nós tomamos a opção de fazer a defesa da vida, desde a primeira pessoa que foi identificada com coronavírus em São Paulo, em fevereiro. Criamos o Centro de Contingência e graças a essa medida seguimos ao longo desses 100 dias a ciência e a medicina, e nunca saímos desse roteiro, onde toda a orientação do combate ao coronavírus foi feita com base na medicina.

Isso já é uma alfinetada no presidente Jair Bolsonaro?

Não. É um tom de realidade. A mim cabe fazer aquilo que o bom senso determina diante de uma pandemia, que é proteger as pessoas e não fazer disso um campo ideológico, partidário, ou de atender interesses de amigos, empresários, políticos. Isso não há em São Paulo. Tenho resistência suficiente e altivez para manter a quarentena, tomar as decisões que são importantes, mesmo aquelas que parecem impopulares. Estamos na sexta quarentena, que vai até o dia 30 de julho, e seguramente teremos mais uma por uma nova quinzena no início de agosto.

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São Paulo é o estado mais poderoso do país quando a gente fala de economia. Como é lidar com lobistas, pessoas e grupos que têm interesses pessoais e financeiros maiores do que a própria pandemia?

Aqui não há pressão. Há orientação da saúde e medicina. Não tem pressão política, econômica, familiar. Tem a orientação da saúde e da medicina. Com os demais nós conversamos, sempre com um bom entendimento, mas jamais nos submetendo às decisões e vontades tanto de ordem política como de ordem econômica.

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A pandemia fez com que o senhor virasse “comunista” para os defensores de Bolsonaro, chegando até a criar uma simpatia da própria esquerda nos últimos quatro, cinco meses, por conta do posicionamento contrário às atitudes do presidente. Isso o incomoda, o agrada, ou está indiferente?

(Risos) Não sou governador para agradar ou desagradar. Sou governador para governar, fazer uma gestão correta, transparente. Sobretudo em um regime de pandemia, proteger vidas. Não fico incomodado com manifestações dessa natureza ou até intransigências ou posturas antagônicas. Coloco isso na conta da democracia.

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João Doria, governador de São Paulo
(Foto: )

E como está a relação do senhor com o presidente hoje? Vocês conversam, trocam mensagens?

Não há relação de diálogo com o presidente Jair Bolsonaro. Não há porque o presidente não se apresenta como uma pessoa desejosa de se manter um diálogo constante, permanente com os governadores. Mantenho a minha posição. Temos uma relação com várias áreas do governo e mantemos isso de forma respeitosa e republicana, porém sem grau de dependência com o presidente Jair Bolsonaro. Ele também não demonstra interesse em manter relação com os governadores. São poucos com os quais ele fala. Cada um fica dentro do seu espaço, o que não é desejável.

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Eu gostaria de ter um presidente que harmonizasse as ações com os governadores e, sobretudo diante de uma pandemia, que fosse um grande líder pela saúde, e não um negacionista como tem demonstrado ser. Começou dizendo que era uma gripezinha um resfriado, minimizando a maior crise de saúde do mundo no século. Depois, com demonstrações de desrespeito à saúde, ao promover e aceitar a promoção de aglomerações, frequentá-las, não usar máscara, estimular o uso indiscriminado da cloroquina, e não coordenar um programa nacional de proteção à vida.

Bolsodória: se pudesse voltar no tempo, governador, o senhor apoiaria o então pré-candidato Jair Bolsonaro nas eleições de 2018? Se fosse hoje o cenário seria diferente?

Naquela circunstância de 2018, com o PT, eu não votaria. Venci o PT em 2016 na prefeitura de São Paulo, e exatamente o Fernando Haddad, que era prefeito e candidato à reeleição aqui. E venci o Lula, que estava livre, fazendo campanha pelo Haddad, e toda a coalizão que o PT construiu aqui em São Paulo para reeleger o Haddad. Foi uma vitória minha acachapante. Em 28 anos nunca um prefeito havia ganho as eleições em primeiro turno aqui em São Paulo.

Então, ora... Como poderia eu dois anos depois defender uma candidatura do Haddad, do PT, com apoio do Lula, para o meu país? Se eu vim do mundo privado para disputar uma eleição e vencer o PT, não seria em uma eleição presidencial que eu votaria neles. Naquele momento, no segundo turno, só tinham dois candidatos. No primeiro turno, votei no Geraldo Alckmin.

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Qual é a relação do senhor com o PT? O senhor é tão antipetista quanto o presidente Jair Bolsonaro?

Não. Sou mais ponderado. Eu dialogo com petistas, não tenho problema de diálogo. Mesmo com o ex-prefeito (de São Paulo) Fernando Haddad, fiz uma transição muito equilibrada, muito republicana, sem ataques, sem brigas. E depois que assumi não estigmatizei a gestão do meu antecessor. Tratei de forma respeitosa e mantenho um diálogo com várias figuras do PT e de outros partidos de esquerda. Diálogo democrático, respeitoso, dentro do princípio de que o contraditório faz parte da vida democrática. A minha posição é de centro. Sou do centro democrático liberal. Não sou nem de esquerda, nem de direita. Dialogo e respeito ambos.

Quero distância da extrema-esquerda e da extrema-direita, pois eles não querem diálogo, não querem entendimento, não valorizam a democracia, eles a afrontam. Já os que têm opção de centro-esquerda, centro-direita e aceitam a democracia, com eles aceito o diálogo, porque aceitam o contraditório, constroem, evoluem.

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O senhor é do Centrão, então?

Não. Centro democrático liberal não é Centrão. O Centrão não advoga pela democracia, ele advoga pelo interesse pessoal. É diferente.

Quem é a maior referência política do senhor?

No Brasil, Fernando Henrique Cardoso, um homem que ao longo da gestão teve uma visão social, comportamento ético, fez um governo inovador do ponto de vista econômico, com o Plano Real. Foi um representante que deu orgulho ao Brasil, representou bem o país nas manifestações internacionais, é preparado, e que continua cumprindo um bom papel hoje como ex-presidente do Brasil.

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E existe algum líder de político de esquerda que o senhor admira?

(Segundos de silêncio) Aqui no Brasil gosto de todos aqueles que são propensos ao diálogo, sem nominar. Tenho colegas governadores que são de partidos de esquerda e bons de diálogo... Rui Costa (PT da Bahia), o Camilo Santana (PT do Ceará), o Paulo (Câmara, do PSB de Pernambuco)... O próprio Flávio Dino (PCdoB do Maranhão), o Wellington (Dias, do PT do Piauí). São todos governadores de esquerda e que mantêm diálogo construtivo e com fluidez.

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João Doria, governador de São Paulo
(Foto: )

O brasileiro vem nos últimos anos polarizando tudo que pode, e agora conseguiu até dividir politicamente uma pandemia.

É um erro. Deveríamos estar unidos. Quem estimulou a divisão do Brasil foi o presidente Jair Bolsonaro, que colocou ideologia à frente do interesse da saúde. Ele deveria e poderia ter sido um grande líder do país em um momento de extrema dificuldade e de alto risco para a população. E não foi isso que ele fez.

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Existe uma corrente dos filhos do presidente contra o senhor nas redes sociais, com ironias, sarcasmos. Como o senhor lida com isso?

Fico entristecido de ver que um presidente da República depende dos filhos para lhe defender. Tenho a suposição de que ele mesmo seria capaz de fazer a defesa e a proteção, e não usar o Gabinete do Ódio no Palácio do Planalto. O que também é condenável. Um presidente não pode se servir do governo ou de estruturas do governo para atender a interesses políticos, pessoais, da família, dos filhos. Não é um bom exemplo, não é um bom gesto. É condenável.

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E a reunião ministerial de 22 de abril. O senhor viu? Surpreendeu-se de alguma forma?

Lamentável. Se aquele é o padrão das reuniões ministeriais, o Brasil está em más mãos. Porque com palavrões, com acintes, com colocações como aquelas que foram reproduzidas naquele vídeo, que confiança podemos ter na direção, o equilíbrio, a conduta de um presidente da República no Brasil?

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O PSDB passou de protagonista a coadjuvante nos últimos anos. O partido paga o pato por ter ficado apático nesse período?

Paga o preço por ter se distanciado das relações com a população, por ter se distanciado da visão social de amparar e trabalhar para reduzir pobreza, diminuir miséria, estimular a geração de empregos. O preço disso foi esse afastamento político, eleitoral, e que custou ao PSDB derrotas nas eleições presidenciais.

Defendo um novo PSDB, mais próximo da população carente, dos desempregados, dos desvalidos, e de um PSDB que tome posições e não fique em cima do muro, só para não ser julgado. Prefiro os que criticam por ter posições, do que os que não respeitam por não ter posição.

Ou seja, o senhor defende um PSDB com políticas públicas que lembram o governo Lula, é isso?

Ninguém pode estar permanentemente errado. Se houve acerto, em qualquer governo, seja de direita ou de esquerda. Você não pode condenar ou estigmatizar algo que funcionou bem e que trouxe benefício real à população. É preciso bom senso. O governo Michel Temer, embora curto, fez conquistas importantes para o Brasil mesmo em um período curto e de transição. O Lula também teve momentos importantes e que merecem registro.

O atual (presidente) fez a Reforma da Previdência. Com a ajuda do Congresso Nacional, mas fez. Isso foi uma conquista. Assim como a Reforma Trabalhista pelo Temer, assim como o campo de proteção social bem realizado pelo Lula. Você não precisa ser inteiramente contra um governo quando ele tem momentos de acerto. Tem que saber reconhecer e ser justo.

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O senhor citou reformas. O que mais precisa ser feito resgatar o país economicamente?

Primeiro é concentrar as atenções para vencer a pandemia e minimizar os graves efeitos nas infecções e óbitos. Na sequência, preparar e praticar um amplo programa de capitalização de investidores internacionais para projetos de desestatização do Brasil, com programas robustos de concessão, PPPs e privatizações, e também aquilo que possa atrair para polos de desenvolvimento alguns investidores de fora. Nós vamos lançar o programa Retomada 21-22, com extenso cronograma de viagens internacionais para atração de investimentos e vendas que envolvem o programa de desestatização do estado de São Paulo. É um programa que pode gerar até R$ 100 bilhões de investimentos.

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Menos reformas no Brasil e mais investimentos. É isso?

Exato. E com marcos jurídicos claros, oportunidades bem desenhadas e apoio desburocratizante, de fast track, para que o investidor internacional não fique preso a um emaranhado de leis e dificuldades para que o investimento seja materializado o mais rápido possível. Quanto mais rápido isso ocorrer, mais rápido vai gerar empregos, impostos e renda.

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João Doria, governador de São Paulo
(Foto: )

O senhor mantém contato com o governador de Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL)?

Mantenho. Temos um fórum em que mantemos um diálogo por telefone e WhatsApp. Até janeiro tínhamos reuniões frequentes com os governadores e do Cosud (Consórcio de Integração Sul e Sudeste). Depois da pandemia passamos a ter encontros virtuais, mas mantenho uma relação, sim, com o governador Carlos Moisés.

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O advogado do Queiroz, Frederick Wassef, acusou o senhor de participar de uma conspiração contra o presidente Jair Bolsonaro. Essa conspiração existe?

Desconheço. A conspiração a que se refere o advogado Wassef é aquela que ele fez com o Queiroz, a mulher do Queiroz, e outros milicianos amigos do Queiroz que ele protegeu e escondeu na sua casa em Atibaia, ou no apartamento em Garujá. Não compete a mim fazer juízo de valor sobre aquilo que é de competência da Justiça, que é fazer Justiça com o Wassef, o Queiroz, a esposa do Queiroz, e outros milicianos.

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São Paulo vem registrando uma série de casos de violência policial no último mês, pouco tempo depois dos protestos “Vidas Negras Importam”. O senhor conversou com o comando estadual da PM sobre esse cenário? Alguma atitude será tomada?

A PM de São Paulo é a melhor do Brasil. São 80 mil policiais militares, uma polícia bem treinada, bem equipada, bem preparada. 99,6% dessa polícia cumprem protocolos e agem de forma cuidadosa e zelosa. Infelizmente há alguns policiais que descumprem orientações e não agem como deveriam no uso proporcional de força. Esses, que não terão o meu apoio, serão indiciados, julgados, e espero que sejam expulsos da corporação porque não representam o que há de melhor na Polícia Militar de São Paulo.

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Esses 0,4% precisam ser mandados embora?

Eles têm que ser julgados e depois expulsos. Sempre prudente dar o direito de defesa em qualquer circunstância. Mas penalizar com o processo e, se forem condenados, sim, expulsos.

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Por fim, senhor já se considera pré-candidato ao governo federal em 2022?

Se você não me fizesse essa pergunta eu ia estranhar, ia achar que tinha alguma coisa errada contigo (risos). Brincadeiras à parte, não é hora de tratar de candidaturas. Temos uma eleição municipal que vem antes das eleições presidenciais de 2022. Para governadores, como é meu caso, agora é a hora de tratar da vida e das pessoas. Prioridade na pandemia e os efeitos delas no plano econômico. Tratar de campanha de 2022, ao meu ver, só em janeiro de 2022.

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Então em janeiro de 2022 a resposta é “sim”, é isso?

Em janeiro de 2022, marque na caderneta: “ligar para João Doria”. Vou te responder.

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