A formação do El Niño e a previsão de um inverno mais quente em Santa Catarina acendem alerta para a safra da tainha, iniciada na última sexta-feira (1º). Especialistas, no entanto, apontam que o aquecimento da água não ameaça a espécie, podendo apenas antecipar ou atrasar a migração pelo litoral catarinense. O principal fator de atenção é o aumento das chuvas, que pode alterar as condições costeiras e influenciar a passagem dos cardumes.

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Meteorologistas indicam que há chance de um El Niño mais intenso ao longo de 2026, chamado popularmente de “super El Niño”. Em Santa Catarina, há previsão de temperaturas acima da média no inverno e possibilidade de mais chuva na primavera, a partir de setembro.

— O El Niño esquenta água no Oceano Pacífico, lá na costa do Peru. Isso faz com que tenha uma evaporação maior da superfície do mar, e isso promove mais nuvens, e essas nuvens acabam atravessando a Cordilheira dos Andes, chegando ao Brasil. E causam aqui maior chuva — explica o professor Gilberto Manzoni, coordenador de maricultura no curso de Oceanografia da Escola Politécnica da Universidade do Vale do Itajaí (Univali).

No entanto, o pesquisador pontua que a perda de 90% na safra de ostras em Florianópolis, causada pelo aquecimento do mar, não tem relação direta com o El Niño.

— A elevação da temperatura da água é um processo mais associado às mudanças climáticas, com aumento gradual ao longo do tempo — diz.

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Como foi a safra da pesca da tainha em 2025

Temperatura da água define rota e tempo da safra

Para a tainha, o principal fator ambiental para a reprodução é a temperatura da água do mar. De acordo com o engenheiro Caio Magnotti, professor de pós-graduação no Departamento de Aquicultura da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a espécie migra sempre em busca de uma faixa térmica específica.

— A tainha vem nadando sempre numa água entre 19 °C e 21 °C, que é a condição ideal. Ela vai fugindo do frio e se deslocando para o Norte — explica.

Esse comportamento faz com que a espécie atravesse o litoral catarinense todos os anos, mas o momento da passagem varia: se o mar esfria rápido, os cardumes tendem a passar mais cedo por Santa Catarina e seguir rumo ao Sudeste, onde encontram temperaturas mais favoráveis para a desova; se o mar permanece mais quente, os peixes ficam mais tempo na região e podem até desovar mais ao Sul.

— Se estiver muito quente, essa faixa ideal de temperatura fica aqui na região. Então o peixe migra menos e pode permanecer em Santa Catarina — detalha Magnotti.

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Mais chuva pode influenciar a reprodução

A chuva também entra na equação da tainha. A espécie desova em mar aberto e depende de água com alta salinidade. Episódios de chuva intensa podem reduzir essa salinidade em áreas costeiras, especialmente próximas à desembocadura de rios, o que pode alterar o comportamento dos peixes.

— Com muita chuva, a água do mar pode ficar mais doce. Nesse caso, o peixe tende a ir mais para o mar aberto para desovar — explica Magnotti.

O professor Gilberto Manzoni complementa que essas reduções de salinidade não ocorrem apenas em eventos extremos.

— As chuvas dependem das condições do tempo, mas podem, sim, influenciar a entrada de água doce no mar e reduzir a salinidade nas áreas costeiras. Aí, sim, teríamos um efeito do El Niño nessa região — avalia.

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Impacto maior é no calendário, não na quantidade

Apesar das variações climáticas, os pesquisadores são cautelosos ao falar em prejuízos à espécie ou em redução do volume de peixes.

— O peixe vai para onde estiver confortável. O que muda é quando ele passa e até onde vai — resume o engenheiro Caio Magnotti.

Na prática, o principal efeito percebido pelos pescadores tende a ser no calendário da safra: anos mais frios podem antecipar a passagem dos cardumes, enquanto períodos mais quentes podem atrasar ou prolongar a temporada.