Produtores de ostras de Florianópolis enfrentam uma das maiores crises já registradas na maricultura local. A mortalidade em massa causada pelo aumento da temperatura da água do mar chegou a até 90% da produção, um índice considerado sem precedentes pelo setor.
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— É algo que a gente nunca viu antes — afirma Vinicius Marcus Ramos, presidente da Federação das Empresas de Aquicultura.
Segundo ele, o problema não é pontual, mas generalizado em todo o litoral catarinense.
— A água não esquentou em um ponto específico. Ela esquentou em todo o litoral, e todos os produtores estão sofrendo com essa mortalidade.
De acordo com Ramos, relatos de perdas vêm sendo compartilhados há meses entre os produtores, por meio de grupos e reuniões. Há relatos de maricultores que, hoje, não tem nada para vender. Normalmente, nesta época, eles teriam cerca de 30 mil duzias.
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O que está causando a morte das ostras?
O principal fator por trás das perdas é o aumento anormal da temperatura da água. A ostra cultivada na região, do tipo Pacífico, é adaptada a águas frias e não resiste a temperaturas elevadas.
— Neste verão, a água chegou a 34ºC em vários momentos. Essa ostra não suporta esse nível de calor. Para os banhistas, foi um verão ótimo, com água quente. Mas, para a produção, foi devastador — explica Ramos.
Historicamente, perdas fazem parte da atividade, mas em níveis bem menores.
— É comum que cerca de 50% da produção não chegue ao tamanho comercial, por fatores como genética e predadores. Mas 90% de mortalidade causada por temperatura nunca foi registrado.
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Abastecimento comprometido
A crise já afeta diretamente o mercado. Muitos produtores não conseguem atender clientes, e os que ainda vendem têm recorrido a ostras menores.
— A gente foi vendendo as maiores sobreviventes primeiro. Depois, as médias acabaram, e agora restam as pequenas. Alguns clientes aceitam, outros não — relata o presidente da federação.
A tendência é que a oferta diminua ainda mais nas próximas semanas.
— Mesmo as pequenas vão acabar. Até que novas sementes cresçam, vamos enfrentar um período difícil.
A expectativa do setor é de que, com a queda da temperatura da água, a produção comece a se recuperar em cerca de 60 dias.
Apesar da escassez, os produtores afirmam que não há margem para repassar integralmente os prejuízos ao consumidor.
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— Não tem como aumentar o preço em 90% para compensar a perda. Isso seria inviável — diz.
O que está sendo feito sobre a crise
Diante da crise, o governo de Santa Catarina anunciou uma nova edição do Pronampe Aquicultura e Pesca para 2026, com mais de R$ 40 milhões em crédito com juros zero para pescadores e aquicultores.
O programa permitirá financiamentos de até R$ 50 mil por produtor, com possibilidade de usar até 75% do valor para custeio da produção. Segundo o governo, a medida busca ajudar na recomposição dos cultivos, aquisição de insumos e manutenção das atividades, após a queda significativa na produção registrada em diversas áreas.
A expectativa é que o programa beneficie mais de um milhão de pessoas ligadas direta ou indiretamente à cadeia produtiva da pesca e da aquicultura no Estado.
SC é responsável por 91% da produção de ostras no país
Principal polo da maricultura brasileira, Santa Catarina concentra praticamente toda a produção nacional de ostras, mexilhões e vieiras, e um tem peso decisivo no abastecimento do mercado.
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Dados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Estado respondeu por cerca de 91% de toda a produção brasileira de moluscos em 2024.
Ao todo, o país produziu 9,56 mil toneladas no período, com crescimento de mais de 20% em relação ao ano anterio. O desempenho, segundo a pesquisa do IBGE, foi puxado principalmente pela retomada da atividade em território catarinense.
A produção está concentrada especialmente no litoral, com destaque para municípios como Florianópolis, Palhoça, Bombinhas e Governador Celso Ramos, que juntos respondem por grande parte do volume nacional.






