De janeiro até o dia 10 de abril de 2026, 39 pessoas foram mortas em confrontos contra a Polícia Militar de Santa Catarina. De acordo com os dados, obtidos por meio da Lei de Acesso a Informação (LA) pelo NSC Total, o número representa um crescimento de 18,18% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registradas 33 mortes.
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Neste ano, todos os mortos são homens, assim como no período anterior, com idades entre 16 e 46 anos. A maior parte das mortes é de pessoas brancas, com 23 casos. Segundo os dados, oito mortos eram pardos e sete eram negros, enquanto um era amarelo. Em nota, a PMSC afirma que o número é reflexo do aumento de 300% das operações dos agentes na rua (veja mais abaixo).
Dia, horários e locais: os detalhes das mortes em confrontos com a PM
Os dados apontam, ainda, que muitos dos confrontos que resultaram em mortes aconteceram durante o dia, na parte da manhã ou nas primeiras horas da madrugada. Pelo menos quatro casos, por exemplo, aconteceram às 10h30min, conforme os dados obtidos pela reportagem.
Já o mês de março foi o período com o maior número de mortes em confrontos com a PM em Santa Catarina. Ao todo, foram 15 mortes causadas por intervenção legal de agente do Estado de Santa Catarina, quase o dobro de casos registrados em 2025, quando foram oito.
Além disso, se levar em conta a soma de todos os casos registrados no ano no Estado, 16 deles aconteceram em Florianópolis, sendo que, se considerados outros municípios da Grande Florianópolis, como São José, Palhoça e Tijucas, o número na região representa 58% das ocorrências em 2026, totalizando 23 mortes.
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O número, no entanto, não leva em consideração as mortes registradas em um confronto armado contra a polícia nas proximidades da Vila Aparecida, em Florianópolis, que terminou com três homens mortos, no dia 14 de abril. Se somar este caso, o número de mortes por intervenção legal de agente saltaria para 42 em 2026.
Cidades de SC com mais mortes em confrontos em 2026
- Florianópolis — 15
- Balneário Camboriú — 4
- Palhoça — 3
- São José — 3
- Lages — 2
- Blumenau — 2
- Morro da Fumaça — 1
- Araranguá — 1
- Imbuia — 1
- Barra Velha — 1
- Trombudo Central — 1
- Joinville — 1
- Itajaí — 1
- Tijucas — 1
- União do Oeste — 1
Duas mortes em Florianópolis no mesmo dia
Em abril, outros quatro casos tiveram grande repercussão. O primeiro aconteceu no dia 6, em Araranguá, com um confronto no bairro Arapongas, onde um homem de 27 anos foi morto.
Outros dois casos foram registrados em Florianópolis, no dia 7 de abril. De acordo com a Polícia Militar, um homem de 29 anos morreu durante um confronto com policiais na comunidade do Siri, no Norte de Florianópolis, depois das equipes irem até o local com informação de que homens armados estavam na região e pretendiam executar um indivíduo. Conforme a PM, o homem teria mandado de prisão ativo por roubo, além de uma vasta ficha criminal com condenação de 23 anos.
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O segundo caso aconteceu no bairro Costeira, no Sul da Ilha. Éric Daniel dos Santos da Silva, de 35 anos, foi morto após ser baleado por agentes da Polícia Militar. Segundo a PM, a morte ocorreu durante ações de policiamento ostensivo de combate ao tráfico de drogas na região da Travessa Aurino Marques da Silva. “Durante a intervenção, um indivíduo atentou contra os policiais utilizando arma de fogo, os quais reagiram em legítima defesa“, diz a PM.
Ainda conforme a corporação, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado, mas o homem não resistiu aos ferimentos e morreu no local. Com ele, ainda de acordo com a PM, os agentes apreenderam uma arma de fogo e porções de maconha, cocaína, skunk, crack e haxixe.
No entanto, fontes próximas à Éric, que atuou como massagista no Avaí Futebol Clube por mais de um ano, afirmam que ele era “uma pessoa tranquila, comunicativa e gente boa”. Pai de duas crianças, ele era morador do bairro Carianos.

Ao NSC Total, a PM informou que abriu um inquérito na corregedoria para investigar a ação policial no caso. A corporação também destacou que o massagista foi localizado com uma pistola calibre nove milímetros e com carregador sobressalente, além de drogas no momento da ocorrência.
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O caso mais recente aconteceu no dia 10 de abril, no município de Morro da Fumaça, no bairro Capelinha, com a morte de um homem de 19 anos durante um confronto policial.
Relembre o cenário das mortes em confronto com a PM
Morte deve ser o último recurso, defende especialista
O pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Leonardo Silva, destaca que o uso da força é uma premissa do trabalho policial, levando em consideração que o Estado detém o “monopólio da força”, delegado para as instituições policial. No entanto, existem uma série de protocolos e medidas que devem ser adotadas antes do uso da força letal, como explica o pesquisador, para garantir que esse seja um recurso de última instância, quando todos outros caminhos já se esgotaram.
— Existem níveis de uso da força que começam desde a presença do policial. A simples presença dele é, sim, um mecanismo de usar força. Temos a verbalização, quando o policial dá uma ordem ou dá uma instrução para alguém da população, depois temos o uso da força física não letal, onde o policial aprende técnicas de mobilização e conta com equipamentos menos letais, até chegar ao último nível, que é justamente o uso da força em nível letal — aponta.
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De acordo com Silva, quando um policial faz o uso da força letal e fica comprovado que ele perpassou por todos os outros níveis de força e que atirar em um suspeito realmente foi necessário para contê-lo e para garantir a própria vida e a da população, é entendido que houve um “confronto e uma situação de uso legítimo da força letal”.
— O que nós temos visto, em um primeiro ponto, é que em reiterados casos das polícias do Brasil, vemos o uso da força letal de forma desproporcional ao que a ocorrência pede — afirma o pesquisador.
Como exemplo, ele destacou o caso da policial militar Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, que matou com um tiro no peito Thawanna Salmázio, em São Paulo, depois de uma discussão após o braço do marido da vítima ter tocado no retrovisor da viatura em que a policial estava em patrulhamento. Ela está afastada das ruas e é investigada pela Corregedoria da PM, conforme o g1.
A definição e o cumprimento das etapas são regidos por protocolos e manuais de procedimentos padrão criados pelas próprias polícias, fundamentados em estudos, doutrinas e tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.
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— Toda vez que tem um caso que envolve a morte provocada a partir de uma operação de um agente de um policial, a própria corporação e o Ministério Público precisam iniciar um procedimento de investigação para verificar se o policial agiu de acordo com esse manual. Uma vez que se comprove que ele perpassou por todas as etapas e que ele agiu de maneira proporcional a situação, ele é amparado pela lei. Mas quando ficam comprovadas a ações em que o uso da força letal foi desproporcional, nós temos um caso de homicídio — afirma.
Fim das câmeras corporais entra em debate na Justiça
Em 2024, o uso de câmeras corporais pela Polícia Militar de Santa Catarina foi suspenso, justificado pela corporação pela defasagem tecnológica, falta de manutenção adequada e insuficiência de espaço para armazenamento das imagens. O Estado foi pioneiro na implementação das câmeras corporais no Brasil, ainda em 2019.
Outra justificativa utilizada foi o comprometimento da privacidade, segundo alguns policiais. Desde de setembro de 2024, quando o uso foi suspenso, até abril de 2026, foram 151 mortes registradas em confrontos. De acordo com o pesquisador Silva, a retirada das câmeras no Estado pode ser considerada um “retrocesso”.
— Além da perda do instrumento em si, que visava garantir a segurança e a tranquilidade da maior parte dos policiais que atuam dentro dos protocolos, os policiais perdem uma prova técnica que lhes dão mais segurança jurídica para trabalhar, em favor de uma minoria policial que acaba praticando atos que não estão de acordo com os manuais de procedimento. O ato de tirar as câmeras também é uma mensagem política que os gestores passam para aqueles policiais que estão ali nas atividades operacionais, que os mecanismos de controle da força estão sendo afrouxados — destaca.
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Isso porque as câmeras, com a implementação de ferramentas tecnológicas de captação de vídeo, produziriam provas técnicas para fazer a vigilância do ambiente durante uma ocorrência.

— Para aqueles policiais que estão agindo dentro dos protocolos, isso é uma garantia que assegura a sua segurança jurídica para ele provar que agiu dentro dos protocolos. Vimos inúmeros casos que essas câmeras foram usadas para corroborar situações que os policiais agiram dentro dos protocolos e foi necessário o uso legítimo de força letal. Mas também temos visto vários casos de uso desproporcional da força, onde esses vídeos acabam desmentindo o depoimento de policiais que atuam fora do que determinam os manuais — aponta.
Para o Ministério Público de Santa Catarina, as câmeras corporais são reconhecidas como instrumentos importantes para garantir transparência na atuação policial, controle do uso da força e qualificação das provas. Por isso, o órgão pede que o Estado seja condenado a restabelecer o programa de câmeras corporais.
Se isso não acontecer de forma integral, a 40ª Promotoria de Justiça da Capital, que atua no controle externo da atividade policial, requer que seja fixado, ao menos, o uso obrigatório em situações específicas, como no ingresso em residências sem mandado judicial, em operações policiais envolvendo manifestações públicas, controle de distúrbios civis e reintegrações de posse e no atendimento de ocorrências de violência doméstica ou violência contra as mulheres.
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O processo segue em tramitação. Procurada, a PM afirmou que não irá se manifestar até a decisão final.
O que diz a Secretária de Segurança Pública (SSP)
Ao NSC Total, a SSP indicou a Polícia Militar como instituição para responder sobre o aumento no número de mortes em confrontos policiais.
O que diz a PM sobre o aumento no número de mortes em confrontos policiais
Em nota, a Polícia Militar afirmou que houve um “aumento expressivo” no número de operações policiais realizadas no Estado que, segundo a instituição, passou de 300% nas ações operacionais, “o que amplia naturalmente a exposição ao risco em ocorrências dessa natureza”.
Conforme a PM, a partir do aumento no volume de operações, “o crescimento no número de mortes em confronto ocorreu em proporção muito inferior”, o que “indica uma redução da taxa do índice por operação”.
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Leia a nota na íntegra
“A Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC) informa que houve um aumento expressivo das operações policiais realizadas no estado. Nos últimos períodos, houve um incremento superior a 300% nas ações operacionais, o que amplia naturalmente a exposição ao risco em ocorrências dessa natureza.
Apesar desse aumento significativo no volume de operações, o crescimento no número de mortes em confronto ocorreu em proporção muito inferior, o que, na prática, indica uma redução da taxa do índice por operação. O dado reforça o compromisso da corporação com a atuação técnica, o uso progressivo da força e a preservação de vidas.
A PMSC destaca ainda que os casos de confronto decorrem, em sua maioria, da resistência de suspeitos às ordens legais emanadas pelos policiais militares, muitas vezes optando pelo enfrentamento direto, resultando em apreensões de armas de fogo, inclusive de grosso calibre, e munições. Nessas situações, os agentes atuam dentro dos protocolos operacionais e da legislação vigente, visando garantir a segurança da população e a própria integridade.
A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a legalidade e a constante qualificação de seu efetivo, buscando sempre a redução de riscos e a proteção da sociedade catarinense.”
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