Carol Carvalho aprendeu cedo que a universidade não era um destino óbvio, e sim uma conquista. Nascida em Florianópolis, ela cresceu vendo o esforço de mulheres negras que fizeram do estudo um caminho possível. A mãe, pedagoga, foi a primeira da família a acessar o ensino superior. A irmã mais velha viria depois, tornando-se doutora. Ainda adolescente, ela, que atualmente tem 30 anos, passou a vislumbrar um futuro na universidade.
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— Ver uma mulher negra ter acessado aquele espaço sempre me inspirou. Foi algo que eu desejei muito jovem, e já tinha traçado aos 15 anos que eu seria professora doutora em História — relata.
O ingresso na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) veio em 2013, quando a política de cotas ainda era recente. Implantado em 2011, o programa passou a reservar vagas no vestibular para estudantes de escola pública (20%) e candidatos pretos e pardos (10%). Carol fez parte das primeiras turmas a acessar a universidade por meio das cotas raciais.
Na Udesc, Carol encontrou uma rede de apoio em espaços coletivos como o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab), onde integrou debates que ajudaram a sustentar sua trajetória acadêmica. Formou-se em 2016, cursou mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e em 2024 virou doutora em História do Tempo Presente pela Udesc.
— Nada foi dado. Tudo foi conquistado — diz.
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Atualmente, Carol é professora de História na educação básica em São José, e atua na formação de estudantes e professores a partir de uma perspectiva antirracista:
— A minha trajetória como cotista me fortaleceu como professora. Porque eu consigo trazer conjunturas históricas para que meus estudantes entendam os modos plurais de ser, estar e pensar o mundo e a população negra no Brasil. Eu fico muito orgulhosa de dizer que sou cotista. Foi fundamental para mim, para minha vida e minha trajetória.
A história de Carol ajuda a ilustrar a transformação que as cotas trouxeram para a universidade. Em 2010, antes das ações afirmativas, apenas 4,9% dos ingressantes da Udesc se declaravam pretos ou pardos. Em 2022, esse número chegou a 20,1%, segundo dados do Censo da Educação Superior do Inep. Desde o início, a Udesc já recebeu mais de 1,8 mil estudantes via cotas raciais.
Veja fotos de Carol Carvalho
Lei que proíbe cotas em SC é questionada na Justiça
Desde janeiro, porém, as cotas raciais passaram a ser questionadas no plano político em Santa Catarina. Em 2025, a Assembleia Legislativa (Alesc) aprovou um projeto de lei, de autoria do deputado Alex Brasil (PL), que proíbe a adoção de cotas raciais em universidades públicas estaduais ou em instituições que recebam recursos do governo estadual. A proposta foi aprovada por 33 votos favoráveis, em um plenário de 40 deputados, e sancionada em 22 de janeiro pelo governador Jorginho Mello (PL).
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Na prática, a lei afeta a Udesc e instituições do sistema de Associação Catarinense das Fundações Educacionais (Acafe), que reúne 14 unidades de ensino e mais de 100 mil alunos, além de faculdades privadas que recebem bolsas do programa Universidade Gratuita e do Fundo de Apoio à Educação Superior (Fumdesc).
A reação foi imediata. No mesmo dia, a Udesc publicou uma nota contrária à medida. “As experiências consolidadas na Udesc, em Santa Catarina e no país demonstram que as políticas de cotas produzem resultados positivos e mensuráveis, ampliando o acesso à universidade sem prejuízo à qualidade acadêmica. Ao contrário, a diversidade de trajetórias, vivências e perspectivas enriquece o ambiente universitário, fortalece a produção do conhecimento e amplia o retorno social do investimento público em educação”, disse a universidade.
O caso foi parar na Justiça. O PSOL ajuizou ações diretas de inconstitucionalidade no Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC) e no Supremo Tribunal Federal (STF), pedindo a suspensão da lei. Os autores alegaram que a norma é inconstitucional e representa risco a processos seletivos em andamento.
No dia 27 de janeiro, a desembargadora Maria do Rocio Luz Santa Ritta, do TJ-SC, concedeu liminar suspendendo os efeitos da lei. Na decisão, ela identificou indícios de inconstitucionalidade que contrariam entendimentos já consolidados pelo STF. A medida ainda precisa ser confirmada pelo Órgão Especial do TJ-SC.
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Governo citou maioria branca em SC
No STF, o ministro Gilmar Mendes pediu diligências antes de decidir. Em resposta, o governador Jorginho Mello (PL) e o procurador-geral do Estado, Marcelo Mendes, defenderam a constitucionalidade da lei e afirmaram que Santa Catarina adota um modelo próprio de inclusão, baseado em critérios socioeconômicos.
Na justificativa, o governo citou ainda que Santa Catarina tem maioria da população branca e que a população negra é “significativamente inferior à média nacional”, o que chama de “singularidade demográfica e socioeconômica”.
“A reserva por critérios exclusivamente econômicos se ancora em vulnerabilidade mensurável — renda, patrimônio, situação de risco social — e, por isso, tende a ser mais controlável, menos sujeita a presunções identitárias e mais facilmente revisável conforme indicadores públicos”, argumenta o governo.
Após a reposta do governo estadual, a Advocacia-Geral da União (AGU) e a Procuradoria Geral da República (PGR) se manifestaram pela suspensão da lei, citando a jurisprudência do STF.
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“As ações afirmativas constituem instrumentos constitucionalmente legítimos para a promoção da dignidade humana em sua dimensão material, ao possibilitarem que grupos historicamente marginalizados tenham acesso efetivo a oportunidades educacionais. A proibição imposta pela legislação estadual representa, portanto, restrição incompatível com esse postulado fundamental”, diz o documento assinado pelo advogado-geral da União substituto Flávio José Roman.
Números revelam desigualdades persistentes
A discussão jurídica ocorre em um contexto em que os números seguem revelando distorções. Em Santa Catarina, 23,27% da população é preta ou parda, segundo o Censo de 2022 do IBGE. Ainda assim, somente 8,8% da população negra adulta concluiu a graduação, contra 21% dos não negros, conforme dados do Observatório de Enfrentamento ao Racismo de Santa Catarina.
Para a pesquisadora Karina Marcelino, pós-doutoranda em Administração pela Udesc e autora da tese “A universidade tem cor: o racismo na pós-graduação stricto sensu em Administração das universidades públicas catarinenses”, as cotas raciais são um ponto de partida indispensável para a justiça social.
— Por meio das cotas, essas pessoas conseguem ascender socialmente, alcançar uma formação, alcançar mercado de trabalho, acessar lugares que antes eram negados. A cota impacta toda a trajetória acadêmica, profissional e de vida desse cidadão — pontua a pesquisadora, que integra a Comissão Técnica Nacional de Diversidade para Assuntos relacionados à Educação dos Afro-brasileiros (Cadara), vinculada ao Ministério da Educação.
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Segundo Karina, o argumento de que Santa Catarina tem maioria da população branca ignora desigualdades históricas entre brancos e negros:
— A população negra é a que mais sofre com a falta de acesso à educação, à saúde, ao saneamento básico, à cultura, é a população com os menores salários, com os maiores índices de encarceramento, de violência obstétrica, de violência contra as mulheres.
Na avaliação da pesquisadora, o debate não deveria mais ser sobre a constitucionalidade das cotas, mas sobre permanência, acolhimento institucional e combate ao racismo dentro das universidades.
— O grande desafio hoje é a consolidação das políticas de ações afirmativas. Em 2026, a gente precisaria estar discutindo os desafios de permanência. Como essas pessoas permanecem dentro desse espaço, de forma objetiva e subjetiva? Por meio de bolsas permanência, por meio de apoios psicológicos, institucionais, por meio de uma cultura verdadeiramente antirracista — afirma.
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Solidão, permanência e pertencimento
A experiência cotidiana dos estudantes ajuda a dimensionar o peso subjetivo de ser um estudante cotista. Mateus Lopes, gaúcho de Caxias do Sul, ingressou no curso de Administração Pública da Udesc em 2019 como um dos únicos estudantes negros da turma. Ele descreve uma trajetória marcada pela solidão em um ambiente onde a presença de colegas negros era rara.
— Como estudante negro da Udesc, minha trajetória foi muito solitária. Era difícil estar em um ambiente que não acolhe. Ao final da minha graduação, participei do Coletivo Negro Guerreiro Ramos (grupo de estudantes do Centro de Ciências da Administração e Socioeconômicas, a Esag), que foi uma das poucas formas de ter contato com pessoas negras que passavam pelos mesmos desafios — diz.
Mateus afirma que a cota foi fundamental para seu ingresso na universidade. Hoje, aos 25 anos, atua como diretor de uma rede de supermercados.
— Pude adentrar ambientes que antes me eram negados, pude obter reconhecimento e respeito. O que antes era um olhar de preconceito passou-se a ter admiração — afirma.
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Para Carol Carvalho, a escola e a universidade são espaços decisivos para fortalecer a autoestima e o pertencimento de estudantes negros:
— Se eu pudesse deixar uma mensagem para um estudante cotista hoje, diria para nunca pensar que aquele espaço não é seu. Esse espaço é nosso por direito. Sei que tem dificuldades, desafios, que há vários movimentos que nos impedem de acessarmos esse espaço. Mas se lutarmos e pensarmos na importância das políticas públicas, de gerar essas oportunidades, vamos acessar, vamos transformar e vamos alcançar.





