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"Não tratava o paciente, mas a pessoa", diz colega de médico vítima da Covid-19 em Lages

Único geriatra na cidade serrana com 186 mil moradores, a morte de Jonas Coelho Lehmkuhl deixou ainda mais viúvo o coração de muitos idosos

12/12/2020 - 06h00 - Atualizada em: 12/12/2020 - 06h39

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Por Ângela Bastos
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Jonas, de jaleco azul e blusa preta por baixo, com equipe do Hospital Maternidade Teresa Ramos
(Foto: )

Toda vida tem um valor inestimável. Porém, algumas mortes causam comoção maior. Muitas vezes este sentimento é consequência da forma como a pessoa se relaciona com a comunidade. Foi o que aconteceu em Lages, em julho, quando a Covid-19 tirou a vida de Jonas Coelho Lehmkuhl, 55 anos. Único geriatra na cidade serrana com 186 mil moradores, a morte do médico deixou ainda mais viúvo o coração de muitos idosos.

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Difícil encontrar em Lages uma família onde alguém não tivesse tido algum contato com doutor Jonas. Fosse no Hospital Maternidade Teresa Ramos, no consultório da clínica, no curso de medicina da Universidade do Planalto Catarinense (Uniplac). Em um abrigo para velhinhos, ou no antigo retiro das Irmãs da Divina Providência. 

Contratado ou como voluntário, doutor Jonas imprimiu uma marca em seu cotidiano: a humanização.

– O Jonas não tratava o paciente, mas a pessoa. Atender idoso é muito complicado, pois não é só a doença em si. Mas a dificuldade de ouvir, de ver, de expressar o que sente que nem sempre é ou só é físico, mas também tristeza ou depressão. Jonas era inigualável nesta abordagem, e por isso o vazio que ficou na população – conta o anestesista Marcelo Luiz Arietti, do Hospital Nossa Senhora dos Prazeres.

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Rosa Maria Espíndula, 64 anos, experimentou esta relação de proximidade, respeito e de um profissional tecnicamente capacitado e atualizado. 

Além dela, o médico tratou da mãe e do marido dela.

– Ainda estou com dificuldade para encontrar um geriatra. Esta transição não é simples, pois depende de estabelecer confiança. Cinco meses se passaram e posso afirmar o quanto doutor Jonas faz falta – diz a pensionista.

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Uma pessoa disponível para o trabalho

O cirurgião Roberto Pontin, então diretor técnico no Hospital Maternidade Teresa Ramos, ficou tão abalado com a morte do colega e amigo que preferiu deixar o cargo. 

Na ocasião, recorda, vários profissionais da instituição estavam infectados e era preciso atender a demanda. Além disso, a doença espalhava o medo entre as equipes que se mostravam angustiadas pela possibilidade de adoecer ou levar o coronavírus para as famílias. 

Altruísta que era, Jonas se ofereceu para cuidar e escutar os trabalhadores.

Revezava-se no atendimento no ambulatório e na Unidade de Terapia Intensiva. Com a ajuda de uma colega médica, montou rodas de conversas e palestras motivacionais para os funcionários. 

O trabalho foi tão bem feito que ninguém morreu na equipe que ele cuidava.

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Disposto para o trabalho e com várias atividades, doutor Jonas costumava ouvir que parecia “ligado numa tomada 220 volts”. 

Na memória dos colegas permanece a imagem de uma pessoa disponível para o trabalho, amante das viagens e das prazerosas pescarias nos rios do Pantanal. 

Era hábil nos roteiros: visitava Paris com a esposa e pescava dourado, pintado e pacu com o pai e um irmão.

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A família Lehmkuhl é de Painel, pertinho de Lages. Ainda jovem, Jonas trocou os campos serranos pela proximidade das águas da Lagoa dos Patos, no sul do litoral gaúcho. 

Foi morar em Rio Grande (RS) e estudar Medicina no disputado curso da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG). 

Mais tarde fez especialização em Medicina do Trabalho e em Geriatria. Era conselheiro fiscal da Unimed Lages e também médico da Clínica Cates.

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Doutor Jonas é um dos 12 médicos de Santa Catarina vencidos pelo coronavírus. 

Outro profissional vítima da mesma doença e também muito conhecido em Lages foi o pediatra Moacir José Cucco, 72 anos, colega de Jonas na Uniplac, falecido em agosto. 

Dos quase 20 dias em que doutor Jonas esteve internado, sete foram na Unidade de Tratamento Intensivo.

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Jonas morreu em um sábado, 25 de julho, um dia frio, típico do inverno serrano. 

O médico deixou a esposa, a fonoaudióloga Cediane Borges Lehmkuhl, e dois filhos, uma adolescente de 14 anos, e um jovem de 22. Na missa de sétimo dia, celebrada na Catedral Nossa Senhora dos Prazeres, Cediane leu um texto que continha uma frase do marido: 

“A vida é uma coleção de emoções. Alguns escolhem por ter uma coleção pequena, mas a minha já é uma seleção bem grande...”. 

O filho mais velho do casal cursa Medicina, em Curitiba.

Em agosto foi inaugurada a nova ala do Centro de Tratamento Intensivo do complexo hospitalar Teresa Ramos. O lugar chama-se Dr. Jonas Ramos Lehmkuhl.

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