A morte de milhares de peixes da espécie manjubinha (Anchoviella lepidentostole) no manguezal do Itacorubiunidade de conservação em Florianópolis, na última quarta-feira (22), acendeu um alerta ambiental, e trouxe à tona uma dúvida central: por que algumas espécies, como a manjubinha, parecem mais vulneráveis e vêm morrendo aos milhares na capital catarinense?

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De acordo com o engenheiro Caio Magnotti, professor de pós-graduação no departamento de Aquicultura da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a resposta está menos em uma “fragilidade” isolada da espécie e mais na combinação entre suas características biológicas e as condições do ambiente em que vive.

Um peixe pequeno, mas importante

A manjubinha é um peixe de pequeno porte e sem grande relevância para a indústria nacional, de acordo com o professor da UFSC. Ainda assim, tem papel importante em contextos locais catarinenses.

Tradicionalmente, é consumida por comunidades pesqueiras, especialmente de forma artesanal, geralmente frita ou empanada, preparo semelhante ao da sardinha. Além disso, possui alto valor nutricional, com presença de ácidos graxos como ômega-3 e ômega-6.

Outro uso relevante é como isca. Em Santa Catarina, a espécie é bastante utilizada tanto na pesca esportiva quanto na industrial, especialmente na captura do bonito-listrado. Nesse processo, os peixes são mantidos vivos em tanques dentro das embarcações e usados para atrair cardumes em alto-mar.

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Vida em cardume e alta demanda por oxigênio

Um dos principais fatores que ajudam a explicar a mortalidade em massa das manjubinhas está no comportamento da espécie, de acordo com o professor. Em fevereiro, milhares dos peixes da espécie foram encontrados mortos no Rio Imaruim, no trecho da Avenida Rio Grande, na região Central de Palhoça. Em abril, o cenário se repetiu no manguezal do Itacorubi, em Florianópolis.

Mortes de milhares de peixes chocaram moradores de Palhoça

A manjubinha vive em grandes cardumes e está em constante movimento. Esse padrão, segundo o professor, exige um metabolismo acelerado — e, consequentemente, uma demanda maior por oxigênio.

Na prática, isso significa que, quando há redução nos níveis de oxigênio na água, esses peixes são impactados mais rapidamente do que espécies com comportamento mais lento ou menos ativo.

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— Ela tende a ser menos resistente a ambientes com baixa concentração de oxigênio justamente por essa exigência metabólica maior — explica o professor Caio.

Sensível a mudanças de salinidade

Outro ponto crucial é a baixa capacidade de adaptação a variações ambientais.

A manjubinha é considerada uma espécie estenoalina — ou seja, vive bem apenas em uma faixa estreita de salinidade, típica do mar aberto, entre cerca de 30 e 35 gramas de sais por litro.

Isso a diferencia de espécies como a tainha, que conseguem transitar entre água doce e salgada com facilidade. Já a manjubinha não tolera mudanças bruscas, o que a torna mais suscetível em ambientes como estuários e manguezais impactados por poluição ou alterações na água.

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O que aconteceu no manguezal?

Apesar dessas características, o professor reforça: o problema não está no peixe, mas no ambiente.

No caso registrado no manguezal do Itacorubi, a mortandade estaria associada ao lançamento inadequado de efluentes, que podem ser domésticos ou industriais, de acordo com Caio. Esse despejo favorece a proliferação de microalgas, que consomem grandes quantidades de oxigênio na água.

O resultado é um colapso: com a queda abrupta do oxigênio dissolvido, ocorre a asfixia de organismos aquáticos. E, diz Caio, não são apenas os peixes visíveis que sofrem.

— Com certeza impactou moluscos, crustáceos e outros organismos que a gente nem vê, porque ficam no fundo e se degradam mais rapidamente — afirma.

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Veja fotos dos peixes mortos no manguezal do Itacorubi

Um alerta que vai além da espécie

Para o especialista, a discussão precisa ir além da biologia da manjubinha. A mortalidade em massa é um sintoma de um problema maior: falhas no saneamento básico, fiscalização insuficiente e lançamento irregular de efluentes em corpos d’água.

— Não é só por que o peixe morreu. A pergunta anterior é: de onde vêm essas mortalidades? — questiona.

Embora a manjubinha seja mais suscetível a alterações ambientais específicas, isso não significa que seja uma espécie naturalmente fraca. Na verdade, ela é adaptada a um ambiente estável, de águas limpas e com pouca variação, segundo Caio Magnotti. Quando esse equilíbrio é rompido, sua biologia passa a jogar contra sua sobrevivência.

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