A morte de milhares de peixes no manguezal do Itacorubi, unidade de conservação em Florianópolis, na última quarta-feira (22) foi causada principalmente por asfixia provocada pela falta de oxigênio na água, um quadro associado à presença de esgoto e ao acúmulo de matéria orgânica no ambiente. A conclusão é de um laudo técnico elaborado por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), divulgado após análises realizadas nos dias 22 e 23 de abril.
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O documento aponta que a morte dos animais ocorreu por hipóxia (baixa concentração de oxigênio dissolvido), levando a uma falência metabólica rápida. Segundo os pesquisadores, a decomposição de matéria orgânica, em especial esgoto não tratado, consumiu o oxigênio disponível na água, criando zonas praticamente sem vida, sobretudo durante a noite.
Durante as medições, foram registrados níveis críticos de oxigênio dissolvido, inferiores a 2 mg/L e chegando a valores próximos de zero em alguns pontos, condição considerada letal para a fauna aquática. Técnicos também observaram peixes boquejando na superfície, comportamento típico de sufocamento.
A mesma espécie, a manjubinha, também morreu aos milhares em Palhoça e Biguaçu, neste ano. Nesses casos, laudos técnicos já apontaram água com pH mais ácido e níveis reduzidos de oxigênio.
Veja fotos dos peixes mortos
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O laudo feito por pesquisadores da UFSC destaca ainda que o problema foi agravado por uma combinação de fatores ambientais, como altas temperaturas e baixa incidência de chuvas, que reduziram a diluição dos poluentes e favoreceram o consumo de oxigênio por processos biológicos. Segundo o documento, a presença de forte odor de esgoto e coloração acinzentada da água reforça a indicação de lançamento de efluentes não tratados na bacia do Itacorubi.
Além disso, os pesquisadores levantam a possibilidade de intoxicação por substâncias presentes no escoamento urbano, o que pode ter contribuído para agravar o quadro.
Outro fator relevante foi o comportamento natural das espécies atingidas. O laudo explica que muitos dos peixes, como sardinhas e manjubas, estavam em período reprodutivo e migraram para áreas estuarinas, como o manguezal, justamente no período noturno, quando as condições de oxigênio se deterioraram rapidamente, impedindo a fuga.
Órgãos ambientais se contradizem na causa da morte dos peixes
Na última semana, órgãos ambientais também se manifestaram sobre o caso. A Polícia Militar Ambiental (PMA) indicou que a mortandade ocorreu por “causas naturais”, ainda que o caso esteja sob investigação.
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Já o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) apontou um conjunto de fatores, incluindo a baixa concentração de oxigênio na água (hipóxia), mencionado pelo laudo da UFSC, além de variações de temperatura e salinidade. Mencionou, ainda, o comportamento migratório das espécies durante o período reprodutivo.
Outras instituições, como a Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan) e a Prefeitura de Florianópolis, também acompanham o caso. Informações anteriores indicam que não foram identificados indícios imediatos de contaminação química aguda, embora o cenário de poluição crônica siga sob investigação.
Os pesquisadores da UFSC defendem, no laudo, ações emergenciais, como a remoção dos peixes mortos, fiscalização do sistema de esgoto e monitoramento contínuo da qualidade da água.
Procurada pelo NSC Total, a prefeitura informou que aguarda o resultado final da análise conduzida pelo IMA. Disse, ainda, que um relatório preliminar aponta que as mortes ocorreram por conta da floração de microalgas. “A hipótese central é que essas microalgas estão sendo empurradas pelas correntes para áreas com menor circulação de água. Durante a noite, a grande quantidade de algas consome o oxigênio para respirar e, ao morrerem, sua decomposição no fundo do manguezal consome ainda mais oxigênio”, diz o órgão.
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A análise completa deve ser finalizada em até 20 dias pelo IMA. Enquanto isso, a prefeitura diz que avalia o estudo desenvolvido pela UFSC. Afirmou também que mantém ações contínuas de fiscalização para coibir o descarte irregular de efluentes. (leia na íntegra abaixo)
O Manguezal do Itacorubi guarda diversas espécies em uma formação clássica do ecossistema que marca o encontro do rio com o mar. Criado pelo Decreto n. 1.529/2002 e renomeado para Parque Natural Municipal do Manguezal do Itacorubi – Fritz Müller (PNMMI) em 2022, é uma área de preservação de 212 hectares na região central de Florianópolis.
O que diz a prefeitura de Florianópolis?
“A Prefeitura de Florianópolis, por meio da Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram), informa que, desde o início, tem atuado para identificar a causa do ocorrido e aguarda o resultado final da análise conduzida pelo Instituto do Meio Ambiente (IMA), órgão que possui a competência para elucidação. Segundo o relatório preliminar, o ocorrido se deve a floração de microalgas. A hipótese central é que essas microalgas estão sendo empurradas pelas correntes para áreas com menor circulação de água. Durante a noite, a grande quantidade de algas consome o oxigênio para respirar e, ao morrerem, sua decomposição no fundo do manguezal consome ainda mais oxigênio. Quando esse processo ocorre em área com baixa circulação, espécies sensíveis, como as manjubinhas – espécie afetada – não conseguem suportar. A análise completa deve ser finalizada em até 20 dias pelo Instituto. O Município também irá avaliar o estudo desenvolvido pela UFSC e reforça que mantém ações contínuas de fiscalização para coibir o descarte irregular de efluentes, por meio de iniciativas como a Blitz Sanear”.







