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O que esperar da Floripa pós-pandemia?

Reportagem consultou especialistas, autoridades e profissionais que atuam em diversas áreas para responder a pergunta

05/06/2021 - 14h00

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Redação
Por Redação DC
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Confira as projeções de como Florianópolis vai se reconfigurar no pós-pandemia, com base nas lições levadas até aqui
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Os dois quilos da caixa de engraxate que Rafael da Silva carrega pelo Centro da Capital se tornaram mais pesados nos últimos 15 meses. A pandemia diminuiu a quantidade de sapatos circulando no entorno do prédio do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC), e agora ele também carrega panos de prato, grampos de roupa, pinhão e, às vezes, laranjas, que vende nas ruas.

– Eu tô (sic) acordando às 4h da manhã todos os dias. Vou dormir meia-noite. Pra querer o bem do meu filho, fazer algo melhor pra deixar pra ele – diz Rafael, pai de um menino de oito anos.

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Assim como os clientes que compram dele nos carros, os donos dos sapatos sociais que ele engraxa e mais meio milhão de habitantes da Capital, Rafael tem feito o exercício de imaginar como vai ser a vida quando tudo passar.

– A pandemia daqui a pouco vai acabar. E é só aprendizado – pondera.

Se Rafael está certo na previsão otimista, os números da doença ainda não mostram. Com quase 500 casos ativos, taxa de ocupação de leitos de UTI acima de 80% e 160 mil vacinados com pelo menos uma dose até a última segunda-feira (31), a Capital ainda está longe de se ver livre da doença. Mas não faltam projeções de como Florianópolis vai se reconfigurar no pós-pandemia, com base nas lições levadas até aqui.

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Com a pandemia, o engraxate Rafael da Silva teve que se reinventar para gerar renda e sustentar a família
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A reportagem consultou especialistas, autoridades e profissionais que atuam em várias áreas para saber o que está sendo projetado para economia, turismo, educação, saúde, assistência social e uso dos espaços da capital catarinense.

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O pós-pandemia encontrará uma Florianópolis mais desigual. O mercado de trabalho da Capital foi um dos mais afetados do Estado na análise do coordenador do Núcleo de Estudos de Economia Catarinense/UFSC, Lauro Mattei, a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE. 

– Para se ter uma ideia, a taxa de desocupação média de Santa Catarina durante a pandemia variou entre 5% e 7%, enquanto a taxa de desocupação em Florianópolis variou de 7% a 12%, ou seja, quase o dobro – destaca o professor.

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Desde o início da pandemia, o setor que mais perdeu postos formais de trabalho na Capital foi o de serviços, que ainda permanece com um déficit de 3.757 empregos, diz Mattei. Somente um setor teve alta nos empregos, o da construção civil, que gerou 421 novos postos formais de trabalho no município. A renda é outra preocupação: quase metade (49,6%) dos empregos de carteira assinada da cidade remuneram com até três salários mínimos. 

Vulnerabilidade social que ganhou força na pandemia

Na Capital, a vulnerabilidade social que ganhou força na pandemia também se materializa aos olhos de todos, nas calçadas e viadutos. Há um ano, cerca de 500 pessoas viviam em situação de rua na cidade, segundo estimativa da prefeitura. Hoje, o número dobrou. Para Márcia d a Silva Mazon, doutora em Sociologia Política e professora da UFSC, os Centros de Referência de Assistência Social (Cras) podem ter um papel importante no atendimento às populações vulneráveis. 

– Além de ter acesso a essa população, eles podem atualizar os dados para aproveitar e dar maior eficiência à distribuição de recursos – diz Márcia.

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Há um ano, cerca de 500 pessoas viviam em situação de rua na cidade, segundo estimativa da prefeitura. Hoje, o número dobrou
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A procura por essa assistência vem crescendo: em 2019 foram 21.693 atendimentos do Cras na Capital, número que chegou a 30.046 em 2020 – um aumento de 38,5%. O arquiteto e urbanista Carlos Alberto Souza acredita que a pandemia também deixou mais evidentes problemas antigos que terão de ser encarados: 

– Os morros têm uma deficiência até geográfica, de transporte coletivo, de como a água chega, como o esgoto é recolhido. Por viver numa cidade bem estruturada, a gente meio que deixava de lado, e agora com essa pandemia isso fica bem claro – pontua. 

Em maio, a prefeitura da Capital iniciou os pagamentos de um auxílio emergencial municipal, em cinco parcelas de R$ 300 (e de R$ 375 no caso das famílias com mães solo) para famílias inscritas no CadÚnico até dezembro de 2020 – e que naquele mês não tenham recebido auxílio federal. Serão cerca de 1,8 mil famílias beneficiadas. 

Mas há um caminho longo a ser percorrido, reconhece o prefeito da Capital, Gean Loureiro: 

– A verdadeira transformação social é um processo lento, demorado. Tem que ter persistência e isso vem acontecendo durante a pandemia e no pós-pandemia vai ser feito com mais intensidade, acreditando que mais oportunidades de emprego vão ser geradas na nossa cidade. 

Márcia da Silva Mazon aponta um caminho que passa por um olhar para o passado: 

– Um desafio para o pós-pandemia seria pensarmos uma agenda que possa articular direitos trabalhistas com o combate a todas as formas históricas de exclusão e discriminação, sejam da condição de gênero ou raça.

Home office veio para ficar

Para os que mantiveram os empregos, a pandemia impôs, muitas vezes, transformações que pareciam passageiras, mas têm tudo para ficar. Tatiana Back Correa é business partner de gente & cultura de uma empresa de tecnologia no Norte da ilha. Até março de 2020, ela encarava todos os dias a SC-401 quase inteira para ir de casa, no bairro Itacorubi, até o escritório. Mas a pandemia trouxe o trabalho para dentro do lar.

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– Vamos tirar a grande lição de que confiamos nas pessoas que trabalham com a gente – diz Tatiana, que vê como desafio no pós-pandemia equilibrar o formato presencial e a consolidação do trabalho remoto.

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Tatiana Back vê como desafio no pós-pandemia equilibrar o formato presencial e a consolidação do trabalho remoto
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No serviço público, a atividade remota também tem sido cogitada para permanecer.

– Muitos setores da prefeitura apresentaram uma melhor produtividade trabalhando em home office. Percebemos que muitas reuniões que tinham deslocamento para encontros presenciais podem ter resultados muito mais rápidos se feitos de maneira virtual – avalia o prefeito Gean Loureiro.

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A transformação das relações de trabalho deve também mudar a forma como nos relacionamos com a cidade. Para o arquiteto e urbanista Carlos Alberto Barbosa Souza, o formato híbrido deve potencializar as centralidades dos bairros:

– Vou dar um exemplo: Trindade, Itacorubi, e as próprias praias. Você vai ficar mais tempo em casa, então você vai consumir mais perto da tua casa. Vai ao banco, vai fazer uma compra, vai almoçar – diz.

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Segundo Barbosa, esses pequenos “centros” dentro dos bairros tendem a diminuir a pressão sobre o transporte e permitirão que os serviços se espalhem pela cidade. 

Muita gente teve que começar de novo

Dados da Junta Comercial de Santa Catarina apontam que, só em Florianópolis, 7.014 negócios foram fechados entre 16 de março de 2020 e 14 de maio de 2021. Outros 23.460 foram abertos nesse período. Luciane May ilustra o movimento de transformação na vocação dos negócios.

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No dia 17 de março de 2020 a empresária se viu diante do impensável. De olho no movimento de professores e estudantes, ela já tinha um restaurante no IFSC e havia recém-aberto outro na UFSC, quando a pandemia esvaziou corredores e salas de aula. E ela teve que fechar as portas.

– Consegui aguentar os funcionários com o auxílio do governo ainda por quatro meses – conta Luciane.

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Mas ela acabou demitindo 17 funcionários:

– Foi muito triste demitir as meninas – lembra.

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Luciane May fechou as portas de dois restaurantes e aposta agora em uma padaria
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Para sobreviver, ela passou a vender pratos congelados e, recentemente, deu um novo passo para se reerguer: abriu uma padaria no bairro Estreito, região continental da Capital.

– O ponto é bom, estamos chamando os clientes e eles estão vindo devagarinho. Nossa expectativa agora é crescer – projeta a empresária.

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Para o presidente do Conselho Regional de Economia em SC, Sílvio José Martins Filho, as atividades relacionadas à prestação de serviços é que devem fazer a diferença no pós-pandemia em Florianópolis.

– É uma atividade que pode se recompor rapidamente. Ela tem como absorver toda essa mão de obra ociosa que ficou durante esse período e que normalmente é um pouco menos qualificada – pontua Martins Filho.

Uso da tecnologia: caminho sem volta na educação

Uma das áreas mais impactadas pela pandemia, a educação também deverá absorver as transformações desse período. Especialmente, a relação entre ensino e tecnologia. Professor e assessor de direção na rede municipal, Willian Marques Paulo acredita que será um caminho sem volta:

– A gente sempre postergou muito essa questão de trazer as tecnologias para o meio educacional. A pandemia nos forçou a isso. Então, acredito que a gente vai sair desse processo da pandemia com mais domínio, mais uso desses recursos tecnológicos que nos ajudam nesse processo educacional.

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A pandemia reforçou a relação entre ensino e tecnologia
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Com a crise econômica, especialistas acreditam que a demanda por escolas públicas deve aumentar cada vez mais. Na Capital, três escolas foram entregues, apesar de não terem sido oficialmente inauguradas em função da pandemia.

A prefeitura também tem o projeto de construir a Escola do Futuro do Continente e a nova EBM Anísio Teixeira, também prevista para ser Escola do Futuro. Outras duas escolas são projetadas para Ratones e Ponta das Canas. Todas com previsão de licitação para o segundo semestre, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação.

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Com a crise econômica, especialistas acreditam que a demanda por escolas públicas deve aumentar cada vez mais
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Há ainda quatro creches na fase final das obras, segundo a prefeitura, na Tapera, no Morro do Céu, Morro do Horácio e Caieira do Saco dos Limões. E outras três em construção: Campeche, Rio Vermelho e Pântano do Sul.

Ampliação da estrutura de Saúde deve ser um legado

A Capital pretende manter a estrutura hospitalar e de vacinação montada nesse último ano. O prefeito Gean Loureiro informou que pediu para o Ministério da Saúde não desabilitar nenhum leito de UTI aberto na pandemia. Em fevereiro de 2020, Florianópolis contava com 165 leitos de UTI adulto geral. O ano fechou com quatro novos leitos gerais e outros 100 abertos para tratar pacientes de Covid na Capital, de acordo com levantamento feito pela Secretaria de Estado da Saúde a pedido da reportagem.

Apesar da pandemia, as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e os Centros de Saúde tiveram uma redução no número de atendimentos no primeiro ano da pandemia do novo coronavírus. A diminuição chegou a 22,29% quando comparados os atendimentos de 2020 e 2019 das três UPAs juntas. A única que apresentou crescimento (+13,12%) nos atendimentos foi a unidade instalada na região continental. Em 2020, os Centros de Saúde tiveram 16,66% menos atendimentos em relação a 2019.

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A Capital pretende manter a estrutura hospitalar e de vacinação montada nesse último ano
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Por outro lado, serviços ligados à saúde mental tiveram um aumento na procura. Os atendimentos nos Centro de Atenção Psicossocial (Caps) da Capital deram um salto de 32,5% durante a pandemia. Em 2019 tinham sido 24 mil atendimentos, que subiram para 31,8 mil em 2020.

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A prefeitura pretende ampliar o serviço do Caps existente na UPA do Continente para permitir internação psiquiátrica no local e atendimento 24 horas Para isso, depende de recursos do governo federal, pelo menos para cobrir parte dos custos dos Caps. O Ministério da Saúde ainda não sinalizou se atenderá a essa demanda. 

Oportunidade para o melhor desenvolvimento do turismo

Depois de 35 anos atuando como uma espécie de “intermediária de sonhos”, a empresária Jane Helena Bertoli Balbinotti se deparou com um pesadelo. Dona de uma agência de turismo no Centro da Capital, ela viu o movimento cair em 90% quando a pandemia começou. Mas, diferente de tantos outros negócios do setor, o dela resistiu. Com mudanças. Contratos foram renegociados e a estrutura da empresa, redimensionada, para manter o emprego dos 11 funcionários. E agora, a esperança aumenta a cada avanço na vacinação. 

– A gente já tá (sic) sentindo isso, né? Quem já fez duas doses de vacina liga e diz: “Olha, a gente já pode remarcar aquela viagem”, “Quando é que você acha que podemos repensar nossa viagem?”. Então, as pessoas querem viajar – afirma Jane.

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O número de voos no Aeroporto Internacional de Florianópolis caiu pela metade entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2021, quando comparado ao período anterior. A expectativa é que em dezembro de 2021 se alcance 80% do movimento de 2019.

A retomada da aviação de uma maneira completa vai depender basicamente da vacinação, diz Ricardo Gesse, CEO da Zurich Airport Brasil, que gere o aeroporto.

– Existe uma busca intensa de pessoas por destinos de natureza. Quando as pessoas se sentirem mais confortáveis para viajar, acho que a gente, em Santa Catarina, vai se beneficiar da diversidade de belezas naturais que temos – acredita Gesse.

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O número de voos caiu pela metade entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2021 no aeroporto de Florianópolis
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Para Tiago Savi Mondo, pós-doutor em turismo e professor do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), é hora de diversificar o chamariz turístico de Florianópolis, além das praias. 

– Temos muitos outros atrativos que podem se tornar produtos turísticos: o ecoturismo, as trilhas, os parques, e atrativos construídos também. A gente vê nossos vizinhos em Balneário Camboriú desenvolvendo roda gigante, aquário…A captação de recursos externos e privados para construção desses outros atrativos, penso que seja uma das chaves – pondera ele.

O turismo de luxo também está na mira de projetos como o da marina da Beira-Mar Norte, que há anos passa por transformações que ainda não saíram do papel. O projeto atualizado, com os detalhes de como devem ser ocupados os mais de 120 mil metros quadrados, deve ficar pronto no começo do segundo semestre. 

Outro segmento que vinha em plena expansão e está sendo repensado é o turismo de negócios e eventos. Em 2019, 130 seminários, congressos e simpósios em áreas científicas foram cadastrados pelo Floripa Convention Bureau. A pandemia levou esses encontros para os ambientes virtuais, mas Florianópolis, que vinha se estruturando para isso, como um Centro de Convenções no Norte da Ilha que hoje funciona como ponto de vacinação, ainda pretende explorar o segmento.

– Queremos ter um calendário permanente e não um calendário apenas de temporada de verão. É possível estabelecer prioridades, estimulando meses que têm menor ocupação de taxa hoteleira – diz o prefeito Gean Loureiro.

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Especialista em turismo defende que a Capital aproveite a oportunidade para diversificar o turismo, além das belas praias
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Uma coisa é certa. Nunca mais seremos os mesmos, e as cidades também não. Quando tudo isso passar, restarão as lembranças e as lições desse tempo. Por enquanto, a Capital é uma cidade que espera. E a esperança que cada morador carrega é bem simples: que amanhã seja melhor do que hoje.

*Textos de Mariana Faraco e Paulo Mueller

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