A interferência política na saúde está na moda nos palanques políticos, e se torna mais perigosa ainda quando vem revestida de doutrinação religiosa. Nos últimos cinco anos, vemos uma preocupante aliança entre políticos extremistas com religiosos fundamentalistas que não apenas rejeitam a ciência, mas usam a fé como artimanha para desinformar, controlar e pregar narrativas anti-saúde.
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Joseph Ladapo, secretário de Saúde do Estado da Flórida (EUA), é médico-cirurgião e pesquisador de políticas de saúde, suspendeu a recomendação da vacinação para crianças saudáveis. Ele foi nomeado para o cargo pelo Governador Ron DeSantis em setembro de 2021, durante a pandemia de Covid-19.
Fato é, que a decisão, além de ser cientificamente refutada, também tem raízes na postura conservadora, fortemente vinculada a discursos religiosos manipuladores de Ladapo. Essa combinação tóxica de fanatismo político-religioso e saúde pública cria uma suposição onde a ciência é ignorada, a população é doutrinada, e vidas humanas são colocadas em risco em nome de ideologias que priorizam crenças pessoais sobre os direitos coletivos.
Sabrina Sabino: Esse hábito todo mundo tem e além de ser perigoso é subestimado
A doutrinação religiosa, quando usada como ferramenta política, raramente é inocente. Políticos como Joseph Ladapo e outros líderes ao redor do mundo usam a religião de maneira opressora para justificar posições contrárias à saúde e à ciência, julgando como ameaças às “liberdades individuais” ou, pior, como algo contrário à vontade divina.
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Na prática, isso cria uma falsa dicotomia: ciência versus fé. Para muitos, especialmente em comunidades menos instruídas, esses discursos plantam dúvidas, alimentam desinformação e reforçam medos.
Aqui no Brasil, o desastre desta combinação de fanatismo religioso, aliado à malandragem política, matam pessoas inocentes, o problema é que esta vertente tem crescido de forma exponencial. Assim como Joseph Ladapo, aqui no Brasil temos líderes desse perfil, que se posicionam contra a vacinação ou medidas de saúde pública, e o discurso é apelativo, como a ideia de que “Deus protege os fiéis”.
Figuras como Joseph Ladapo ilustram bem como a religião, quando usada como arma política, coloca vidas em risco. Sua decisão de suspender a recomendação de vacinação em crianças não foi baseada em evidências científicas — as quais mostram que as vacinas são seguras e eficazes, e é devido a elas que a nossa expectativa de vida vem crescendo — mas, segundo seus discursos e postura, surge a fala que mistura conservadorismo político com retórica religiosa fanática.
Essa narrativa conecta a vacinação infantil à perda de autonomia e à ideia de que o governo estaria impondo algo “contra a liberdade das famílias” e que veem a ciência como um inimigo. Mais do que isso: ao invocar ideais religiosos em suas falas públicas, Ladapo e outros políticos de perfil similar fornecem legitimidade a movimentos antivacinas, especialmente em comunidades religiosas mais vulneráveis à influência dos líderes espirituais.
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No Brasil, a situação é a mesma, grupos religiosos fundamentalistas costumam usar argumentos semelhantes em debates sobre vacinação e outras questões de saúde. Não faltam exemplos de campanhas antivacinas sustentadas por discursos religiosos que distorcem informações. A solução para esse problema só será encontrada se enfrentarmos de frente essa ideia totalmente deturpada sobre a ciência com coragem e clareza. As decisões de saúde pública devem ser feitas com base na ciência e por especialistas técnicos, não por políticos ou entidades religiosas que trabalham para agendas próprias. Isto não tem mais cabimento.
A minha vontade é de dizer para este grupo seleto de políticos fanáticos: a ciência não está nem aí para sua opinião. Saúde pública não é lugar para palanque político ou doutrinação religiosa.
Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.
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