A nova ofensiva tarifária da Casa Branca contra o mercado brasileiro oficializada nesta quarta-feira, desenha um cenário de impactos profundamente assimétricos para a economia do país. Embora a taxação de 25% configure uma retaliação severa a supostas práticas comerciais desleais que o governo Trump argumenta, a lista final de exceções revela que os norte-americanos calibraram o peso da caneta para poupar o próprio mercado interno de pressões inflacionárias.

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A estratégia de autoproteção dos EUA: O agro fora da mira

O impacto global da medida acabou amortecido pela exclusão estratégica de aproximadamente 2 mil itens. Levantamento conduzido pelo Insper Agro Global aponta que 66,8% de tudo o que o agronegócio nacional vendeu para os EUA no ano passado ficou de fora da nova alíquota.

Proteínas, suco de laranja e o café não torrado (que isoladamente respondeu por US$ 1,9 bilhão em vendas no ano de 2025) foram poupados.

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— Os Estados Unidos utilizaram essa lista de exceções porque são produtos que acabam impactando o mercado interno e que eles não conseguem produzir, o que talvez impactaria muito a inflação local —explica Leandro Gilio, professor do Insper Agro Global.

Esse mesmo princípio de blindagem à cadeia de suprimentos americana garantiu a isenção dos óleos brutos de petróleo, líderes absolutos da pauta exportadora brasileira para o país, com faturamento de US$ 4,701 bilhões no ano passado.

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Da mesma forma, o setor de aeronaves (terceiro colocado no ranking, com US$ 3 bilhões em 2025) e o ferro-gusa (quinto colocado, com US$ 1,744 bilhão) não foram incluídos no pacote de Trump.

Já o grupo de produtos semiacabados, lingotes e formas primárias de ferro ou aço, segundo principal item negociado, somando US$ 3,362 bilhões, permaneceu sob as regras de tributação preexistentes da Seção 232.

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O estrangulamento da indústria de manufaturados

Na outra ponta da balança, a indústria de transformação nacional absorverá o núcleo do impacto cambial e aduaneiro. Segundo o ex-secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, o desenho da nova rodada restritiva pune especificamente o setor industrial.

— A tarifa adicional de 25% só contra os produtos brasileiros vai dificultar o acesso de produtos manufaturados ao mercado norte-americano — analisa o especialista.

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O setor de bens de capital lidera o ranking de vulnerabilidade. Projeções da consultoria MB Associados mostram que o segmento de máquinas e equipamentos é o mais exposto, tendo movimentado US$ 3,316 bilhões rumo aos EUA no ano passado.

Em escalas subsequentes de perdas potenciais aparecem as indústrias de madeira e mobiliário (US$ 1,299 bilhão) e o mercado de borracha e pneus (US$ 569,4 milhões).

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Em posicionamento oficial, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) alertou que o movimento injeta forte dose de imprevisibilidade no comércio bilateral, historicamente marcado por forte interdependência produtiva — em 2025, o Brasil exportou US$ 3,2 bilhões e importou US$ 4,8 bilhões.

A entidade destaca que o maior dano pode ocorrer na eficiência das cadeias globais de valor, já que expressiva fatia das transações é feita de forma intragrupo, fruto de investimentos diretos cruzados entre as duas nações.

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— A elevação de tarifas tende a aumentar custos, reduzir competitividade, comprometer investimentos e afetar a eficiência das cadeias produtivas instaladas nos dois países, produzindo efeitos que vão além da relação comercial bilateral— adverte a associação.

O raio-X do impacto fiscal nas exportações

No consolidado macroeconômico, as estimativas sobre o tamanho do prejuízo variam de acordo com a base histórica adotada:

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Projeção da MB Associados: Com base nas exportações do ano anterior, o tarifaço coloca sob risco direto US$ 9,51 bilhões, o equivalente a 25,2% de toda a pauta comercial brasileira destinada aos EUA.

Projeção do MDIC (Cenário 2025): Os cálculos oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços estimam um impacto de 15% sobre o fluxo de vendas, o que representa US$ 5,8 bilhões.

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Projeção do MDIC (Cenário 2024): Tomando como referência o período anterior ao início da escalada tarifária, a retenção prejudicaria 18% dos embarques para os EUA, totalizando US$ 7,4 bilhões.

Para o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, o anúncio do USTR apenas oficializa um cenário que as mesas de análise já precificavam.

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— Esse tarifaço já era esperado. Já estava na conta e vinha sendo discutido nas últimas semanas.

A aplicação da alíquota extraordinária de 25% passa a vigorar de forma definitiva a partir da próxima quarta-feira, dia 22.

*Com edição de Nicoly Souza