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Tríplice viral: O que já se sabe sobre o estudo que avalia o impacto na Covid-19

Resultados preliminares de pesquisa da UFSC indicaram eficácia contra sintomas, mas estudo aguarda conclusão e requer cautela; veja 13 perguntas e respostas

29/01/2021 - 08h00

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Jean
Por Jean Laurindo
Vacina contra sarampo, caxumba e rubéola teve possível efeito contra Covid-19 analisado por estudo da UFSC
Vacina contra sarampo, caxumba e rubéola teve possível efeito contra Covid-19 analisado por estudo da UFSC
(Foto: )

Um dos projetos que visa novas descobertas para ajudar na imunização contra o coronavírus.vem de pesquisadores catarinenses e envolve a vacina da tríplice viral. Um estudo do Centro de Pesquisa do Hospital da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) apresentou na última semana resultados preliminares indicando que o uso da imunização, já utilizada contra sarampo, caxumba e rubéola, reduziu em 54% os sintomas de Covid-19 entre os voluntários. No caso de internações pela doença, a diminuição observada foi de 74%.

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A pandemia do novo coronavírus faz pesquisadores buscarem há quase um ano descobertas que possam controlar o vírus, as mortes, os prejuízos econômicos e tentar retomar a normalidade. A corrida por novas vacinas específicas contra a Covid-19 é o principal capítulo dessa jornada e elevou a esperança com o recente início da imunização em 55 países, incluindo o Brasil. Mas também há pesquisas e estudos em outras frentes como o soro para tratar a doença, do Instituto Butantan, outras vacinas e medicamentos que possam frear a multiplicação da Covid-19.

O estudo da UFSC sobre a tríplice viral deve ser concluído em até dois meses, mas os pesquisadores responsáveis não escondem o otimismo e definiram os resultados preliminares como "bastante animadores". A pesquisa não propõe que a tríplice viral substitua as vacinas específicas contra o novo coronavírus, como a CoronaVac e a vacina de Oxford, que vêm sendo adotadas na campanha de imunização no Brasil. No entanto, os líderes do projeto defendem que, se confirmados os resultados, ela poderia ser usada de forma simultânea às vacinas específicas, nos grupos não prioritários, para oferecer alguma proteção enquanto este público não tem acesso às doses das vacinas específicas, ainda em escassez no mundo.

Os dados são preliminares e não significam que a tríplice viral poderá fazer parte da estratégia de vacinação contra a Covid-19 no Estado ou no país. Para isso, é necessária a confirmação dos resultados e também decisões de governo que pudessem considerar a utilização deste imunizante de forma auxiliar – algo para o qual ainda não há movimentações. A reportagem consultou a Secretaria de Saúde do Estado sobre a existência de alguma iniciativa em análise relacionada à pesquisa, mas não obteve retorno.

Apesar dos resultados prévios, o estudo exige cautela. Nesta quinta-feira, a Vigilância em Saúde de Florianópolis emitiu uma nota de orientação lembrando que os resultados são preliminares e que o calendário de vacinação não sofreu alteração. Portanto, as vacinas tríplice viral continuam recomendadas apenas para as doenças às quais são indicadas, como sarampo. Segundo a nota, pessoas de até 29 anos devem ter duas doses da tríplice viral e de 30 a 59 anos, se não vacinados anteriormente, devem tomar uma dose.

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A médica infectologista Sabrina Sabino reforça o alerta de cautela e não vê os dados como animadores. Segundo ela, a eficácia identificada em uma vacina que não é desenvolvida especificamente para o coronavírus pode ter ocorrido por outros fatores, até mesmo o acaso, e a análise sobre a tríplice viral para esse fim exigiria estudos mais ampliados.

— O que tem que ser falado e alertado à população é que, por ora, não se pode dizer que (a tríplice viral) traz algum tipo de benefício e que ela é a vacina de Covid-19, caso contrário não precisaríamos mais fazer nenhum tipo de pesquisa nessa área. É importante esclarecer que a tríplice viral continua no calendário, protegendo principalmente contra o sarampo, e que ela no momento não serve (para Covid-19), tem que aguardar mais resultados e estudos mais ampliados a respeito da eficácia dela contra o coronavírus — pondera.

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Os pesquisadores do estudo alegam que a diferença encontrada no estudo estatístico refutaria a possibilidade de acaso. De todo o modo, o tema ainda desperta muitas dúvidas e interesse. Confira abaixo 13 perguntas e respostas sobre o que já se sabe acerca do estudo da UFSC:

O estudo já foi concluído?

Não. O estudo teve início em julho de 2020 e está na reta final, mas a previsão de término é entre fevereiro e março deste ano.

O que falta para o término?

A última etapa pendente segundo os pesquisadores são as visitas finais de alguns pacientes ao centro de pesquisa do Hospital Universitário da UFSC. Todo mês, desde o início do estudo, os voluntários foram até o local para serem avaliados e fazerem testes RT-PCR para indicar se haviam sido infectados pelo novo coronavírus. Essas últimas visitas são importantes para avaliar também o tempo de proteção que a vacina tríplice viral poderia conferir contra os sintomas da Covid-19.

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Quais os próximos passos?

Após a conclusão do estudo, os pesquisadores enviam um relatório para o Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH) da UFSC, para a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e também divulgam os resultados em uma publicação em uma revista científica. Essa publicação permite que o estudo passe pela chamada revisão de pares – quando a comunidade científica toma conhecimento dos dados, avalia os resultados e até mesmo desenvolve pesquisas semelhantes.

Como foi feito o estudo?

O estudo clínico de fase 3 da pesquisa seguiu o mesmo modelo dos testes das vacinas específicas contra a Covid-19 que tiveram resultados divulgados entre dezembro e janeiro – grupo de controle utilizando placebo, uma substância sem efeito, randomizado (escolha aleatória entre quem toma vacina e placebo) e duplo-cego (profissionais e voluntários não sabem quem pertence a cada grupo).

Foram avaliados 430 voluntários, com idades entre 18 e 60 anos, todos trabalhadores da área da saúde. Todos os pacientes são da Grande Florianópolis e foram avaliados mensalmente no Hospital Universitário da UFSC.

O número de voluntários é menor neste estudo do que nos testes de outros imunizantes específicos para Covid-19, como a CoronaVac, que teve 9 mil voluntários, por exemplo. No entanto, segundo o professor da UFSC Edison Natal Fedrizzi, chefe do Centro de Pesquisa do HU da UFSC e pesquisador responsável pelo estudo, isso não representa nenhum problema para a pesquisa. Isso porque o estudo atingiu o número mínimo de infectados necessário para a obtenção dos resultados. Além disso, por se tratar de uma vacina já existente, fatores como a segurança, dosagem correta e efeitos colaterais não precisariam ser alvo principal do acompanhamento da pesquisa, como no caso das novas vacinas.

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O que o estudo concluiu?

Os resultados finais do estudo ainda não foram divulgados, mas dados preliminares foram informados pelos pesquisadores em uma “nota prévia de análise interina dos dados”. A nota aponta que a vacina tríplice viral reduziu em 54% a possibilidade de ter sintomas de Covid-19 e de 74% na chance de internação por conta da doença. Esse percentual é calculado com base na proporção de pessoas vacinadas que tiveram sintomas ou internações pela doença em relação ao grupo que tomou placebo. Os números finais de quantos pacientes de cada grupo foram infectados, tiveram sintomas ou casos que exigiram hospitalização só serão divulgados com a conclusão do estudo.

O pesquisador responsável alerta, no entanto, que não é possível comparar os percentuais do estudo com a eficácia de outras vacinas específicas contra a Covid-19 porque há diferenças entre elas. Os testes da CoronaVac, por exemplo, não avaliaram infecções assintomáticas, enquanto o estudo da UFSC testou todos os voluntários, mesmo sem sintomas, entre outras diferenças.

O que o estudo descartou?

O estudo tinha três objetivos: descobrir se a vacina tríplice viral poderia reduzir o risco de infecção, de sintomas e de hospitalização pela Covid-19. Nos dois últimos, o estudo indicou a eficácia detalhada acima, mas no primeiro deles, não. O número de pacientes vacinados que se infectou pelo novo coronavírus não foi menor do que os do grupo de controle, que tomou placebo. Uma vez infectados, no entanto, menos voluntários tiveram sintomas e internações.

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Os resultados são definitivos?

Segundo o professor da UFSC e pesquisador responsável pelo estudo, Edison Natal Fedrizzi, sim. Ele afirma que os índices de eficácia não devem sofrer alteração até a conclusão do estudo e que confirmam o efeito do imunizante.

– Não mudam mais porque faltam poucas visitas dos pacientes. A tendência é que até melhorem, sejam mais robustos. Aquilo que comentamos em setembro, de que víamos uma tendência de que poderia ser eficaz, poderia ter um resultado diferente, poderia ter alguma observação ao acaso. Agora, não – sustenta, defendendo que o acaso deixa de ocorrer quando o estudo estatístico mostra diferença significativa e afirmando que os pacientes fizeram testes a cada 30 dias e quando tinham sintomas.

Isso significa que a vacina tríplice viral será usada contra a Covid-19?

Não, pelo menos por enquanto. O estudo mostrou que ela pode ser eficaz, mas uma adoção da tríplice viral como estratégia para proteger a população contra a Covid-19 dependeria de outras etapas, como a conclusão do estudo, confirmação dos resultados e o poder público adotar essas vacinas nos planos de imunização. O professor responsável pelo estudo afirma que nas últimas semanas recebeu contatos iniciais das secretarias da Saúde do Estado e de Florianópolis, mas ainda não há nenhum indicativo de qualquer medida que possa incluir a vacina nas ações de vacinação com foco em Covid-19 em SC ou no Brasil. Essa situação reforça a cautela necessária para que as pessoas não busquem a vacina para finalidade de combate à Covid-19 nesse momento.

Apesar disso, o professor responsável admite que a utilização da vacina seria o “desejo maior” dos pesquisadores do projeto.

– O resultado de nossa pesquisa teria atingido seu máximo benefício para a população se pudéssemos ter uma campanha nacional, se o PNI (Plano Nacional de Imunização) fornecesse as vacinas, seringas e agulhas à população que não terá acesso à vacina contra Covid-19 neste primeiro momento. Seria um grande avanço, e uma possibilidade que não é apenas fantasia, poderia ser realidade, mas dependeria de uma série de situações – afirma Edison.

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A tríplice viral pode substituir as vacinas específicas contra Covid-19?

Não. Os pesquisadores deixam claro que “em hipótese alguma” a tríplice viral poderá substituir as vacinas específicas contra Covid-19, como a CoronaVac e a vacina de Oxford, que vêm sendo aplicadas no Brasil desde 18 de janeiro. Eles defendem que ela poderia ser usada de forma paralela, em grupos não prioritários, para proteger contra sintomas e internações enquanto este público ainda não tem previsão para tomar os imunizantes específicos, por conta da escassez mundial.

– Não há intenção de substituir a vacina específica, é esta vacina que dará proteção em longo prazo. A tríplice entraria em grupo que tão cedo não vai poder usar a vacina, da população que não está no grupo prioritário. Mas isso não deve fazer com que eles deixem de vacinar contra Covid-19 quando chegar a sua vez – afirma Edison.

Quem já tomou tríplice viral na infância estaria protegido contra Covid-19?

Não. Segundo o pesquisador responsável, a partir de seis meses da aplicação a resposta imune contra o coronavírus já não existiria mais ou estaria enfraquecida. Por conta disso, caso o estudo confirme os resultados antecipados, seria necessária a aplicação de novas doses da tríplice viral para proteger contra sintomas e internações por Covid-19.

Vale frisar que para as doenças que são o alvo principal da vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), a proteção das doses tomadas na infância ou adolescência persiste ao longo dos anos, embora em casos de surtos possa haver convocações para novas imunizações.

Isso ocorre porque o tipo de imunidade almejado para cada doença é diferente. Para a Covid-19, segundo o professor do estudo, busca-se um efeito da primeira fase da imunidade, chamada de imunidade inata. Ela prepara o organismo para combater um agente invasor e protege contra infecções de forma mais geral. A segunda fase da imunidade, de longo prazo, é chamada de humoral e está associada à produção de anticorpos específicos contra a doença alvo - no caso da tríplice viral, o sarampo, a caxumba e a rubéola.

Quanto tempo dura a proteção segundo o estudo?

Este ponto ainda está em avaliação, mas os resultados preliminares falam em três a quatro meses (uma dose) e oito meses a um ano (duas doses).

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Tem contraindicações?

Por ser uma vacina atenuada – que utiliza o vírus vivo, mas enfraquecido – ela não pode ser tomada por grávidas, pessoas que tomam imunossupressores, que façam radioterapia, quimioterapia ou acima de 60 anos que tenham algum comprometimento da imunidade. Isso porque poderia desencadear de alguma forma uma infecção que, ainda que mais branda, pode comprometer a saúde desses públicos. Essa recomendação já é válida para o uso da tríplice viral na sua indicação atual – a prevenção contra sarampo, caxumba e rubéola.

A nota prévia dos pesquisadores também ressalta que pacientes não devem tomar qualquer outra vacina até 30 dias depois de receber a tríplice viral. Isso porque a tríplice poderia interferir na resposta imune da segunda vacina.

O que é a tríplice viral e como ela é aplicada hoje?

A vacina tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola e é amplamente usada no Ministério da Saúde. Ela é recomendada para crianças a partir dos 12 meses, segundo o calendário de vacinação da rede pública de SC. No calendário adulto, adultos de até 29 anos devem tomar duas doses e de 30 a 59, se não vacinados anteriormente, devem ter uma dose.

Em 2020, o Ministério da Saúde comprou 65,4 milhões de doses da tríplice viral para as ações de imunização contra sarampo, caxumba e rubéola, segundo entrevista do então secretário de Vigilância em Saúde no site do Ministério da Saúde. A vacina é fabricada no país, pela Fiocruz.

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