O laudo pericial sobre a morte de mãe e bebê após quatro idas consecutivas ao hospital em busca de ajuda médica em Santa Catarina apontou “várias falhas” nos atendimentos. A afirmação é do delegado Ícaro Malveira, responsável pela apuração do caso.
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Segundo ele, o trabalho do perito da Polícia Científica, que avaliou os prontuários médicos da gestante, foi muito bem feito e permitiu esclarecer uma série de dúvidas sobre o que ocorreu a cada passagem de Maria Luiza Bogo Lopes pelo Hospital Beatriz Ramos, em Indaial.
A análise aponta negligência no atendimento prestado à jovem de 18 anos na segunda e na terceira vez que ela esteve na unidade de saúde. Ainda não há detalhes sobre quais teriam sido essas falhas, pois todos os procedimentos serão apurados pela Polícia Civil a partir de agora.
O que já se sabe, como mostrou com exclusividade o NSC Total Blumenau na sexta-feira (10), é que a gestante estava com dengue hemorrágica. O diagnóstico consta no prontuário do Hospital Santo Antônio, em Blumenau, para onde Maria Luiza foi levada às pressas e acabou morrendo.
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Mãe e bebê morreram em intervalo de uma hora e meia
O drama de Maria Luiza começou no dia 30 de março, quando ela começou a se sentir mal e decidiu procurar ajuda médica no hospital de Indaial, cidade onde morava. Ela chegou a ser medicada e foi liberada. No dia seguinte, continuava sem sentir-se bem e voltou à unidade.
Desta vez, exames mostram as plaquetas baixando e urina mais “suja”, conta a mãe da jovem. Uma médica chegou a dizer que suspeitava de dengue, mas ainda assim mandou a vítima, no sétimo mês de gestação para casa. Na terceira vez, ela também só foi medicada e liberada.
No quarto dia consecutivo, Maria Luiza decidiu ir ao posto de saúde onde fazia o pré-natal e onde duas semanas antes havia recebido o diagnóstico de diabetes gestacional. Chegou lá com manchas roxas pelo corpo, com sinal de desidratação severa.
Uma enfermeira colocou a paciente em um carro da prefeitura e a levou às pressas para o Hospital Beatriz Ramos novamente. Imediatamente precisou ser entubada e transferida para o Hospital Santo Antônio, em Blumenau. Ali tudo ocorreu muito rápido.
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Enquanto fazia a internação da filha, a mãe percebeu a correria de profissionais no pronto-socorro: estavam fazendo uma cesariana de emergência. Apesar dos esforços, a neta aguardada com carinho pela família não estava mais viva. Ali, então, começava uma luta pela vida de Maria Luiza.
Uma hora e meia depois, a jovem morreu. Pelo atestado de óbito, a jovem teve uma “coagulação intravascular disseminada, um descolamento prematuro da placenta e síndrome de HELLP”, uma complicação grave da gestação, considerada uma forma severa de pré‑eclâmpsia.
O prefeito de Indaial, Silvio César da Silva (PL), divulgou um vídeo nas redes sociais para dizer que acompanha o caso “com atenção, preocupação e tristeza”. Disse, ainda, que “situações como essa não podem acontecer e não serão tratadas com indiferença” e cobrou punição com o máximo rigor.
— Embora o Hospital Beatriz Ramos possua gestão técnica própria, a prefeitura está cobrando da direção uma apuração rigorosa e completa dos fatos. É fundamental esclarecer o que aconteceu e identificar eventual falha e, se confirmada qualquer irregularidade, que os envolvidos sejam rigorosamente responsabilizados — declarou o prefeito nas redes sociais.
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O que diz o Hospital Santo Antônio
O Hospital Santo Antônio informa que, conforme os protocolos legais vigentes, o acionamento do Instituto Médico Legal (IML) é indicado em casos de mortes decorrentes de causas externas, como acidentes e violências.
No caso em questão, a paciente deu entrada na instituição em estado gravíssimo, sendo prontamente atendida pelas equipes do pronto-socorro, obstetrícia, pediatria e neonatologia. A evolução clínica foi compatível com quadro de origem clínica, com suspeita de choque associado a processo infeccioso, com base nos sinais e sintomas apresentados no momento da admissão.
Diante desse contexto, não houve indicação legal para acionamento do IML.
Ressaltamos que foi oferecida à família a possibilidade de encaminhamento ao Serviço de Verificação de Óbito (SVO), estrutura responsável por investigar causas de morte de origem natural não totalmente esclarecidas. O SVO poderia contribuir para a elucidação da etiologia do possível quadro infeccioso, embora não haja garantia de identificação do agente causador.
O Hospital Santo Antônio permanece à disposição das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos necessários e reforça seu compromisso com a transparência, ética e qualidade assistencial.
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O que diz o Hospital Beatriz Ramos
A Associação Beneficente Hospital Beatriz Ramos informa que, desde a ocorrência envolvendo a paciente Maria Luiza Bogo Lopes, iniciou imediatamente a adoção de todas as medidas cabíveis para o esclarecimento completo dos fatos.
O caso está sendo submetido a investigação técnica rigorosa, conduzida em conformidade com os protocolos do Conselho Federal de Medicina e do Ministério da Saúde, respeitando todos os fluxos institucionais aplicáveis.
A apuração ocorre no âmbito da Comissão Técnica Hospitalar, com análise criteriosa e detalhada, incluindo a revisão minuciosa de todo o processo assistencial desde o primeiro atendimento prestado à paciente.
O Hospital Beatriz Ramos lamenta profundamente o ocorrido e expressa sua solidariedade à família neste momento de dor. A instituição reafirma seu compromisso com a ética, a transparência e a responsabilidade, assegurando que a apuração será conduzida com a máxima seriedade.
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