A mobilização que ganhou as redes sociais nos últimos meses e resultou na aprovação do fim da escala 6×1 nesta semana na Câmara dos Deputados teve origem longe dos gabinetes parlamentares. Foi um vídeo de um balconista de farmácia denunciando a exaustão causada pela escala de trabalho 6×1, de seis dias de trabalho por apenas um de descanso na semana, que deu início à discussão sobre o tema e à extinção desta escala.

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O vídeo foi publicado pelo então atendente Rick Azevedo na plataforma TikTok, em setembro de 2023 (assista abaixo). Ele trabalhava em uma farmácia no Rio de Janeiro e criticava a falta de tempo para lazer, família e estudos em razão da jornada atrás do balcão com apenas um dia de descanso por semana.

— Quando é que nós da classe trabalhadora iremos fazer uma revolução nesse país relacionada à escala 6×1? Gente, é uma escravidão moderna. Moderna, não, ultrapassada. Antes fosse moderna. Não existe essa escala. Eu fico pensando: eu que não tenho filho, não tenho nada, sou sozinho, não dá para fazer as coisas, imagina quem tem filho, marido, casa para cuidar… — questionou no vídeo.

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O desabafo acabou repercutindo nas redes sociais, e Rick Azevedo passou a publicar mais vídeos sobre o tema. Ele lançou uma petição on-line em defesa de mudanças na escala e reuniu 3 milhões de assinaturas. Ao lado de outros trabalhadores, lançou um movimento chamado Vida Além do Trabalho (VAT), que foi voz ativa nas discussões sobre a PEC do fim da escala 6×1 aprovada esta semana na Câmara.

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Em 2024, um ano após o vídeo de desabafo sobre a escala 6×1, Rick Azevedo concorreu a vereador do Rio de Janeiro pelo PSOL e foi eleito com mais de 29 mil votos.

Rick Azevedo tem 32 anos, é ex-atendente de farmácia e trabalhou por 12 anos na escala 6×1, em atividades como vendedor, frentista e auxiliar de serviços gerais. Natural de Dianópolis (TO), ele se mudou para o Rio de Janeiro há mais de uma década, segundo informações da Câmara do Rio.

Fim da escala 6×1 virou pauta nacional

A pauta sobre a escala 6×1 chamou a atenção de outras lideranças da esquerda. Em 2024, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) apresentou um projeto de lei para acabar com a escala 6×1, propondo a adoção de escala 4×3 e redução de jornada para 36 horas semanais.

O assunto ganhou apelo popular nas redes sociais e aos poucos foi encampado também pelo governo Lula, que passou a ser um dos defensores do fim da escala 6×1. O apoio fez com que deputados aprovassem a medida com ampla maioria, por 461 votos a 19 em primeiro turno, mesmo com rejeição da ideia por parte de empresários, que apontam o risco de aumento de custos e de desemprego.

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A proposta aprovada nesta semana acabou ficando em um “meio-termo” da proposta de Érika Hilton, acabando com a 6×1, mas mantendo a escala 5×2 e definindo a jornada em 40 horas semanais a partir do ano que vem, caso seja a proposta seja aprovada também no Senado.

Assista ao vídeo que originou pauta da escala 6×1

“Eu queria desabafar”, relembra autor do vídeo

Nesta quarta-feira, antes de a Câmara aprovar a PEC de fim da escala 6×1, Rick Azevedo estava na sala da comissão especial que avaliou o texto e falou sobre o sentimento de ver a causa levantada por ele em um vídeo na internet ir adiante e estar perto de se tornar realidade.

— Uma demanda que surgiu de um balconista de farmácia precarizado, cansado, sucateado, e de fato, quando eu postei aquele vídeo, eu queria desabafar, reclamar, eu estava chateado. Eu não imaginaria que a gente conseguiria chegar até aqui. Mas ao longo do processo eu fui percebendo a força da classe trabalhadora — afirmou, em entrevista à TV Câmara.