Dia do Meio Ambiente: como cuidamos da nossa flora em Santa Catarina

Referência no legado de acervos de plantas nativas, Santa Catarina vê sua flora ameaçada: 20% das espécies arbóreas e arbustivas registradas em 1960, não foram mais encontradas 50 anos depois

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Combater o desmatamento e restaurar as florestas remanescentes são os principais desafios para a conservação (Foto: Patrick Rodrigues)

O Brasil tem uma flora das mais ricas do mundo e Santa Catarina é referência no legado de acervos de plantas nativas. As áreas prioritárias para conservação das plantas estão ameaçadas pelo desmatamento, que é fonte de degradação dos recursos naturais. Isso apesar dos esforços para o melhor conhecimento da diversidade das plantas no bioma Mata Atlântica por meio da criação pioneira de catálogos feitos pelo padre botânico Raulino Reitz em meados do século 20 e por Santa Catarina ser o primeiro estado a concluir o Inventário Florístico Florestal (IFFSC) na atualidade. 

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– Santa Catarina pode se orgulhar porque sempre foi o estado no Brasil que melhor conhece sua flora e vegetação graças ao trabalho dos botânicos padre Raulino Reitz e Roberto Miguel Klein. Eles executaram o projeto Flora Ilustrada Catarinense e ao varrer o Estado todo em mais de 180 estações de coletas no tempo que nem existia asfalto – destaca o naturalista e ecólogo Lauro Eduardo Bacca.

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O especialista lembra que após recolher material no Estado todo, os dois naturalistas montaram o Herbário Barbosa Rodrigues com plantas devidamente conservadas, secas em estufas e conservadas dentro de latas. Depois de 20 anos coletando materiais pelo estado, a dupla tinha um trabalho para décadas, que não acabou até hoje. Atualmente a coleção está sendo reorganizada. 

– Cinquenta anos depois, a Furb coordenou o Inventário Florístico Florestal de Santa Catarina com mais de 490 pontos amostrais permanentes pelo Estado e com recursos de imagens de satélite, envolvendo uma equipe de mais de 100 pessoas que percorreram o Estado – completa Bacca.

Segundo o professor Alexander C. Vibrans, do curso de Engenharia Florestal da Furb, em Blumenau, e coordenador do IFFSC, entre a elaboração do Flora Ilustrada Catarinense e o IFFSC, das 860 espécies de árvores e arbustos foram encontradas 150 com apenas um ou dois indivíduos em todo o Estado. De 250 espécies, foram encontradas menos de dez indivíduos por espécie.

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No total, 435 espécies de árvores mostraram algum grau de raridade em ao menos uma das três tipologias florestais catarinenses, conforme as medições feitas entre 2007 e 2010, quando ocorreu o primeiro ciclo de medições, e entre 2014 e 2019, durante o segundo ciclo. 

– Registramos, em muitas parcelas das florestas amostradas, a saída (morte) de espécies pioneiras (por exemplo capororoca, jacatirão) e o ingresso de espécies mais exigentes de sombra (canelas, palmiteiro). Isto é um bom sinal, porque mostra que as florestas estão se desenvolvendo. Constatamos também que a massa vegetal (biomassa, e com isso, o estoque de carbono) das florestas cresce, em média, 1,3% por ano. Isto também é indicativo que as florestas estão aumentando o estoque de carbono e cumprem, assim, um papel importante na fixação de gás carbônico atmosférico e numa certa redução de gases que provocam as mudanças climáticas – explica Vibrans.

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– É alarmante a drástica redução da biodiversidade das espécies arbóreas constatada através da comparação com dados de 50 anos atrás dos botânicos Padre Raulino Reitz e Roberto M. Klein. Um quinto das espécies não foi mais observado em 2010 – diz Bacca. 

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De acordo com o professor da Furb André Luís de Gasper, membro do IFFSC desde a origem, há possibilidade de haver espécies extintas. 

– Tem três samambaias que as últimas e únicas coletas são de 1800 e começo de 1900. Podem até ter sido extintas, mas pode ser que sejam muito raras, por exemplo, e não conseguimos fazer novamente a coleta – explica Gasper.

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A importância dos inventários

Inventários sistemáticos são necessários para que se possa compor um banco de dados consistente e possibilitar a implantação de políticas de conservação e de manejo. Além disso, a maioria das florestas catarinenses é secundária, são plantas jovens de 40 a 70 anos que se regeneraram após cortes e exploração. 

– A diversidade é apenas um terço daquela que era das florestas originais. O mesmo vale para seu estoque de carbono – diz Vibrans.

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Para o naturalista Bacca, preservar e interligar os corredores florestais são importantes ações para conter o avanço do empobrecimento da vegetação.

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– Se não fosse o trabalho hercúleo do padre e outros pesquisadores, não teríamos como dizer que nossa floresta foi deteriorada. Se passar de avião e ver tudo verde lá embaixo não é mais a imagem verdadeira do que foi a mata original. A hora que se faz a radiografia daquilo, a gente vê que a qualidade dos remanescentes é muito inferior a décadas passadas, tem a metade da biomassa original, a diversidade e a qualidade das florestas são muito menores – afirma Bacca.

Apesar disso, das áreas remanescentes da mata original, cerca de apenas 5% do que havia originalmente podem ser responsáveis por grandes “bancos de propágulos”, com qualidade de diversidade genética e número de espécies. 

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– Graças a esses pontos de florestas de melhor qualidade, a natureza tem onde e como recompor as áreas degradadas. Esse processo pode ter ajuda do homem, enriquecendo em regiões específicas para acelerar o processo, mas sem promover uma “bagunça genética” – pontua o especialista.

Educação ambiental e reservas particulares

Em meio às restrições por conta da pandemia, o Instituto do Meio Ambiente (IMA) de Santa Catarina não interrompeu as ações de fiscalização. Durante o ano de 2020, o órgão colaborou com 14 municípios na elaboração do Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica. Durante o período, foram feitas quase 15 mil ações, como vistorias, e 845 fiscalizações ambientais. Entre elas, destacam-se operações contra extração ilegal de madeira na Reserva Biológica Estadual do Sassafrás, no Vale do Itajaí. Em 2021, o monitoramento foi reforçado com imagens de satélite que tem identificar desmatamentos.

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O Estado também tem iniciativas privadas por ato voluntário do proprietário e em caráter perpétuo para conservação da biodiversidade, do solo, da água e demais atributos. Segundo informações passadas pelo ICMBio, em Santa Catarina são 71 Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) federais e 18 estaduais, que ocupam área de 35 mil hectares. 

– Quando o proprietário cria a sua RPPN, ele está ciente de que esta ação é de perpetuidade e exigirá uma demanda de responsabilidades. Dos benefícios gerados pela criação da RPPN, o mais importante é o legado da conservação da natureza para as futuras gerações – explica o presidente da RPPN Catarinense Ciro Couto.

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Santa Catarina apresenta aproximadamente 200 espécies de plantas endêmicas, ou seja, espécies de plantas que ocorrem unicamente no seu território, muitas delas em locais muito restritos e que chamam a atenção por serem naturalmente raras. 

– Muitas dessas espécies são tão raras que são completamente desconhecidas pela população. Quando se fala em algumas espécies ameaçadas características daqui, como a araucária, o xaxim ou o palmiteiro, dificilmente alguém não conhece essas plantas. Mas quando se fala em Commelina catharinensis, Siphocampylus baccae, Prosopanche demogorgoni ou Ludwigia humboldtiana, poucas pessoas conhecem – afirma o biólogo mestre em botânica pela UFSC e consultor em curadoria do Herbário Barbosa Rodrigues, Luís Funez. 

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Funez explica que algumas dessas plantas constam em listas de espécies ameaçadas. Outras são consideradas extintas, de tanto tempo que não são vistas. O especialista destaca que com o avanço da degradação dos nossos habitats naturais, muitas vezes, por completo desconhecimento, as espécies endêmicas são negligenciadas e não constam em laudos. 

– São geralmente plantas herbáceas, que representam mais de 90% das espécies endêmicas de Santa Catarina. São pequenas ervas, que passam facilmente despercebidas – aponta Funez.

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