Extinto de Florianópolis há 260 anos, espécie de primata volta a viver na Ilha e ajuda a recuperar a Mata Atlântica

Retorno dos animais teve início em 4 de julho de 2024, quando cinco famílias de bugios-ruivos foram reintroduzidas em áreas de mata da Ilha

Compartilhe:

Espécie havia sido registrada pela última vez na Ilha em 1763 (Foto: Lucas Amorelli, Arquivo DC)

Depois de desaparecer das florestas da Ilha de Santa Catarina ainda no período colonial, o bugio-ruivo voltou a ocupar seu habitat natural em Florianópolis. Cerca de 260 anos após a extinção local da espécie, os primatas já vivem novamente em liberdade, percorrem diferentes regiões da Ilha e começam a desempenhar um papel considerado fundamental para a recuperação da Mata Atlântica.

Continua após a publicidade

O retorno dos animais teve início em 4 de julho de 2024, quando cinco famílias de bugios-ruivos foram reintroduzidas em áreas de mata do Parque Estadual do Rio Vermelho e do Monumento Natural Municipal da Lagoa do Peri. A ação faz parte do projeto Silvestres SC, coordenado pelo Instituto Fauna Brasil, e representa uma das principais iniciativas de restauração da fauna catarinense dos últimos anos.

Veja fotos da família de bugios sendo solta na Ilha em 2024

Bugios-ruivos foram registrados na Ilha pela última vez em 1763

A espécie havia sido registrada pela última vez na Ilha em 1763. O dado consta em um levantamento realizado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em parceria com o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) e a Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram). Desde então, os bugios desapareceram completamente da região.

Continua após a publicidade

Dois anos após a reintrodução, os pesquisadores avaliam que os resultados são positivos. Segundo a bióloga Vanessa Kanaan, do projeto Silvestres SC, atualmente cerca de 14 bugios-ruivos vivem em liberdade na Ilha, distribuídos em cinco grupostrês no Norte e dois no Sul de Florianópolis.

Apesar de duas mortes registradas desde a soltura, os animais conseguiram se adaptar ao ambiente e ampliar a área ocupada na floresta.

— Estamos acompanhando constantemente esses grupos e os resultados mostram que eles estão utilizando diferentes áreas da Ilha e desempenhando seu papel ecológico — afirma Vanessa.

Floresta volta a contar com um importante dispersor de sementes

Mais do que recuperar uma espécie desaparecida da fauna local, a reintrodução devolveu à Mata Atlântica um de seus principais dispersores naturais de sementes.

Continua após a publicidade

Os pesquisadores já identificaram fezes contendo sementes em locais distantes dos pontos onde os bugios foram soltos, indicando que eles estão se deslocando pela floresta e contribuindo para a regeneração da vegetação.

Esse processo ocorre porque os primatas se alimentam de frutos e, ao percorrer grandes áreas, eliminam as sementes em diferentes pontos da mata, favorecendo o nascimento de novas árvores e aumentando a diversidade vegetal.

Continua após a publicidade

Segundo Vanessa, esse serviço ecológico é uma das principais contribuições da espécie para a manutenção da floresta.

Espécie também aproxima população da conservação

Além dos benefícios ambientais, o bugio-ruivo também passou a desempenhar um papel importante na conscientização da população.

Continua após a publicidade

Por ser um animal de grande porte, facilmente identificado pelo vocal potente e pela coloração avermelhada, a espécie desperta interesse de moradores e visitantes durante ações de monitoramento e educação ambiental promovidas pelo projeto.

Na prática, os pesquisadores classificam o bugio como uma espécie-bandeira, ou seja, um animal capaz de mobilizar a sociedade em torno da proteção da biodiversidade e da conservação da Mata Atlântica.

Continua após a publicidade

Novas solturas estão previstas

O trabalho de recuperação da população ainda está longe de terminar. Segundo Vanessa Kanaan, a equipe aguarda autorização para ampliar novamente o número de animais vivendo na Ilha. Quatro bugios-ruivos passam por avaliações e poderão integrar uma nova etapa de reintrodução ainda neste ano.

— Estamos aguardando a autorização para receber novos bugios e realizar outras solturas — explica a bióloga.

Continua após a publicidade

Reaparecimento no Norte do Estado também chamou atenção

Enquanto Florianópolis celebra o retorno planejado da espécie, outro registro recente renovou a esperança de pesquisadores. Em abril de 2025, um bugio-ruivo foi avistado em Jaraguá do Sul, anos após a população local ter sido praticamente eliminada pela epidemia de febre amarela que atingiu Santa Catarina entre 2019 e 2021.

A presença do animal foi confirmada por especialistas e representou o primeiro registro da espécie na área urbana desde 2020. Na época, o diretor da Fundação Jaraguaense de Meio Ambiente (Fujama), Gilberto Ademar Duwe, explicou que, antes do surto da doença, era comum encontrar bugios nas florestas e estradas rurais do município.

Continua após a publicidade

Apesar do simbolismo desse reaparecimento, Vanessa Kanaan ressalta que o projeto Silvestres SC monitora exclusivamente os animais reintroduzidos em Florianópolis. Por isso, não é possível estabelecer relação entre o registro feito em Jaraguá do Sul e a iniciativa desenvolvida na Capital.

Veja fotos do bugio-ruivo em Jaraguá do Sul