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    Entrevista

    “Ainda teremos um longo caminho pela frente”, afirma Gean Loureiro sobre pandemia em Florianópolis

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    Ânderson
    Por Ânderson Silva
    28/03/2021 - 07h00 - Atualizada em: 28/03/2021 - 10h33
    Gean Loureiro, prefeito de Florianópolis
    Gean Loureiro, prefeito de Florianópolis (Foto: Reprodução)

    No começo do segundo mandato como prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro (DEM), alerta para novas ondas de saúde pública que virão após o controle da Covid-19. Em entrevista ao Diário Catarinense na série com os prefeitos das sete cidades-polo, ele destaca a necessidade da manutenção das estruturas médicas. Além disso, fala sobre a possibilidade de retomada econômica e social no pós-pandemia.

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    Confira os detalhes do que disse Gean Loureiro na entrevista a seguir:

    O que a pandemia fará evoluir a saúde da Capital? Usamos muita tecnologia no combate à Covid. Fomos a primeira cidade a introduzir a telemedicina no Brasil. O “Alô, Saúde” acabou se transformando numa inovação que muitos municípios estão trabalhando para fazer um modelo igual, inclusive o Ministério da Saúde. Então, vamos ter primeiro essas novidades tecnológicas que facilitaram o atendimento. Já realizamos 100 mil vídeo consultas. Temos também os investimentos que foram feitos para ampliar os serviços de saúde que vão continuar à disposição da comunidade.São fatores como a ampliação do serviço, o uso da tecnologia e também o sentimento de solidariedade e valorização do profissional de saúde que vai ser levado em conta pelas pessoas.

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    A rede de saúde estava preparada para enfrentar a pandemia? Florianópolis tem a melhor estrutura de atenção básica de todas as capitais do Brasil, pelo próprio Ministério da Saúde. O sistema trabalha com prontuário eletrônico, o que possibilita fazer um atendimento diferenciado. Temos uma cobertura de 100% das equipes de saúde da família. Mas nem com essa estrutura o momento atual resistiu. Porque qualquer porta de entrada que se abrisse passou a ter uma ocupação total em função de uma demanda inesperada por todos.Essa variante é muito mais agressiva e transmissiva da doença, que fez com que no Brasil inteiro, principalmente nos estados que começaram a ter o registro da nova cepa, passaram a não suportar. Isso foi comprovado no Brasil inteiro. Deixou de ser um problema municipal e estadual, para ser nacional e mundial.

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    No ponto de vista de UTI, antes já se discutia a melhora do número de leitos. O senhor espera que esse reforço atual possa ser mantido depois da pandemia? Pretende discutir isso? Primeiro é bom frisar que vamos ter duas novas ondas, que os problemas da pandemia não acabam com o fim da Covid. Nós vamos ter uma nova onda de necessidade de tratamentos, cirurgias e acompanhamentos de saúde represados em função da Covid. Além de estar represado tem ainda as doenças ocasionadas em função da Covid, as suas sequelas. Essa nova onda vai exigir uma grande estrutura. Então não podemos aceitar uma desativação da estrutura com o fim da Covid ou com a possibilidade da vacina ter alcance da população.Depois teremos ainda uma nova onda que é voltada para a situação do problema de saúde mental. Quando pedimos ao Ministério da Saúde um novo Caps em Florianópolis com atendimento 24 horas, a gente já está levando em conta todas as consequências para a saúde mental das pessoas. Vamos ter problemas de pessoas em função do confinamento, dos problemas financeiros, das crises de relacionamento pessoal, falta de contato de convivência e carinho, esgotamento dos profissionais de saúde… Então temos uma série de causas que podem levar a essa nova onda voltada para saúde mental das pessoas. É necessário estarmos preparados para essas ondas pós-Covid que virão. Quem está falando não é o Gean, são os grupos de especialistas que estudamos. Então não podemos imaginar em desativar no pós-Covid essa estrutura. Ainda teremos um longo caminho pela frente.

    A gente pôde ver nesse período um teste forte da relação entre os prefeitos da Grande Florianópolis. Essa é uma das grandes lições para a região de que as decisões precisam ser em conjunto para realmente terem efeito? Sempre tenho trabalhado para buscar esse relacionamento entre os municípios para ter um efeito prático, principalmente nas medidas voltadas ao combate à Covid. Não só restritivas, mas fiscalização, prestação de serviços. Temos serviço de regulação que trabalha toda a nossa região, então parou de ser um problema de São José, de Palhoça, para ser regional. Não adianta eu cuidar bem da pandemia em Florianópolis se eventualmente o meu município conurbado não faz o papel dele. O compartilhamento de informações, a integração entre as prefeituras, amadureceu consideravelmente. Estou no segundo mandato, e os prefeitos das outras quatro maiores cidades da região foram substituídos. Os novos prefeitos já vieram com essa cultura, não se precisou criar esse ambiente. Eles já chegaram sabendo, mesmo com as dificuldades e das diferenças de posições que temos. Eu, por exemplo, sempre tive um posicionamento mais restritivo porque entendo que não adianta trabalhar sem investir em diminuir a causa. A nossa região aprendeu muito, imaginar que a gente teria uma decisão conjunta dos 22 municípios, com características diferentes. Houve um avanço muito importante nesse trabalho. A própria discussão nessa etapa das vacinas mostra que o município não age sozinho, mas sim de forma integrada.

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    Falando em vacinação, o que se pode tirar de lição dos primeiros momentos e como a cidade pode calibrar melhor para avançar esse processo? Florianópolis preparou seu plano municipal de vacinação em novembro do ano passado, quando não se tinha nem ideia de quando começaria, só uma perspectiva. Isso fez com que a gente, como no combate à Covid, com estrutura logística de material antecipado, tivéssemos a mesma coisa na vacinação. Deves lembrar que no início da pandemia se discutia que faltava álcool em gel, que não tinha luva, não tinha jaleco. E fizemos um vídeo mostrando nossos estoques para meses. Isso deu garantia de poder não depender do governo federal. Temos que levar em conta também a questão do oxigênio. Mais que dobramos a estrutura de cilindros no ano passado, imagina hoje se não tivéssemos feito isso. Nos preparamos para a vacinação, temos mais de meio milhão de agulhas, equipamentos de proteção, vacinadores. Toda a cooperação com escolas de enfermagem, com a UFSC. A possibilidade de armazenamento com ultracongeladores faz Florianópolis ser uma das únicas cidades a ter isso, a partir de duas parcerias que firmamos com a UFSC e o pessoal do Rio Vermelho que atua na proteção animal. Então a gente conseguiu se organizar muito bem. Me perguntaram dias atrás qual seria o maior desafio na vacinação. Respondi que a minha esperança seria de que o maior desafio era a organização da estrutura para aplicar a vacina, não a falta da vacina. Mas, a vacina acabou que... e não quero encontrar responsáveis e sim buscar uma solução. Não vivo uma linha de culpar governo estadual, federal. O combate à Covid exige uma integração dos entes federados e não separação como se vê em alguns governadores com discussão briga e posicionamento de maneira pública. Então a União tem planejamento de chegar até junho, julho, 80 milhões de doses. A nossa expectativa é poder antecipar e até o final de maio o Brasil ter as 80 milhões de doses com o público prioritário vacinado. Isso vai garantir, além de salvar vidas que é o ponto principal, termos o controle novamente do sistema hospitalar de atendimento. Não falamos só da falta de leitos da Covid, mas para atender pessoas que têm AVC, problemas cardíacos, acidentes de trânsito. E correm o risco de não ter atendimento. A gente ter a garantia da vacina de maneira antecipada é que vai fazer com que a estrutura seja ofertada aos municípios, e o Estado pode apoiar os que têm menos condição a buscar ter equilíbrio para avançar imunização e garantir dados que possam diminuir novos casos, número de internações e número de óbitos. Então é uma escala de esperança que tem que ser priorizada.

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    O consórcio nacional dos municípios pela vacina que o senhor vai presidir ainda é visto com cautela nos bastidores pela dificuldade na compra das doses. O que leva a crer que os municípios e Estados vão conseguir comprar por consórcio ou outras formas? Primeiro, estamos falando do primeiro consórcio público entre os municípios do Brasil e um dos maiores do mundo. São 2,5 mil municípios, 25 capitais, que formam uma população de 150 milhões de habitantes que vivem nessas cidades. Demonstra uma integração dos municípios no apoio à conquista das vacinas. Não estamos aqui para concorrer com o plano nacional de imunização. Pelo contrário, estamos tentando identificar formas que eventualmente possam ajudar, até mesmo dificuldade do governo federal em negociação para buscar esse suporte. Por exemplo, as vacinas que estão paradas nos EUA, que são da Astrazeneca. Como pode ser trabalhado para o Brasil ter acesso. Não estou preocupado em ter a vacina só para Florianópolis, estou preocupado em ter a vacina para o Brasil. Florianópolis vai ser atendida. O nosso consórcio não vende uma esperança não concretizada, ele é um consórcio de luta e apoio ao governo federal. A gente quer abrir novas portas de negociação. Mas, nesse momento, não estamos vendendo prazos, nem a vacina. Além disso, também somos um consórcio para insumos e medicamentos que pode fazer compras conjuntas.

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    Sobre economia, o senhor já tem um pensamento para o pós-pandemia onde o município pode olhar pensando na retomada? No primeiro dia do nosso segundo governo a gente apresentou nosso plano de retomada econômica que não podemos esperar para encerrar a Covid para começar. Ele já começou. Quando a gente identifica os setores para qualificar mão de obra, e também a necessidade no mercado, não é só qualificar para a pessoa ficar desempregada. É qualificar naquilo que tem necessidade. Desde exemplo mais simples: a gente analisou no mercado que poderíamos dar um curso para aprender a fazer sobrancelha por causa do uso da máscara, virou um bom mercado e de demanda. Até mesmo identificar setores que estimulam muito a mão de obra, como a construção civil. Para isso teria que ter cuidados. Discutimos a alteração do Código de Obras, que foi aprovado, dando mais agilidade na tramitação e facilidade onde vai ser feito. E o nosso Plano Diretor, que acabamos não tendo êxito (na Câmara). Era até um período conturbado. Então agora está seguindo todo um trâmite, a cidade está esperando isso. Vai permitir gerar novas centralidades, melhorando a mobilidade urbana, legalizar a cidade no que é preciso e preservá-la muito mais com legislação que permita construir onde é possível gerando milhares de empregos que a cidade precisa. Tivemos uma vantagem que o setor de tecnologia e conhecimento acabou sendo menos afetado, diria até que se ampliou porque trabalha 90% em home office. Em compensação, o setor de serviços, turismo e eventos foi muito atingido. Só que o que estamos imaginando que é no pós-pandemia, e tivemos exemplo de eventos transferidos de um semestre para o outro, a agenda virá de forma muito intensa. Florianópolis, apesar do momento crítico que vivemos, tivemos os melhores indicadores da pandemia em relação às capitais. A cidade ganhou o selo mundial de cidade segura do turismo pelos cuidados, o próprio comportamento da população. Então temos uma chance que Florianópolis vai se constituir uma cidade do futuro. Temos expectativa de negócios, ampliação de setores econômicos que podem gerar mais empregos e melhorar a economia. E a oportunidade de ser uma cidade referencial nessa retomada. Vai se exigir muito mais do setor de eventos no pós-pandemia do que antes. As pessoas vão procurar com essa mentalidade dos cuidados de higiene, que vai permanecer. Hoje para algumas empresas a gente está trabalhando a busca de gente para morar em Florianópolis e trabalhar para empresas de fora. Mas gerando aqui um movimento de demanda de consumo com alta poder aquisitivo. É o que a gente deseja para a cidade.

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    Tens estimativa de quando a cidade pode voltar ao mesmo patamar do pré-pandemia? A gente sabe das dificuldades das empresas, então quanto antes puder retomar, mais chance de recuperação. Mas espero que a partir do segundo semestre a gente já consiga continuar avançando. Não da mesma maneira, mas na próxima temporada de verão, sim. Para ter uma possibilidade de convivência das pessoas para que o setor de turismo funcione na plenitude. O turismo foi abalado, mas não parou. Nada igual ao que já foi no verão de 2019 para 2020, que foi com amplo resultado. Florianópolis vivia seu melhor momento. Agora, tem setores que vão estimular a economia. Vou dar um exemplo: o avanço do parque Marina da Beira-Mar. Hoje temos sentimento que existe uma segurança jurídica em Florianópolis que não se tinha antes.

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    O pós-pandemia exigirá também uma atenção com a questão social, como moradores em situação de rua. Esse será um dos focos? Toda a crise econômica gera muitas vezes essas dificuldades para a população mais vulnerável, que precisa ser apoiada. Não dá para esconder isso debaixo do tapete. Já passou o tempo de querer fazer isso. Hoje temos um desafio da reinserção social, então é necessário atendimento de saúde para aqueles que são dependentes químicos e busca de oportunidade de trabalho. Para isso Florianópolis tem a melhor estrutura. Temos 2,5 mil voluntários trabalhando com os moradores de rua através da rede Somar. Temos muito menos moradores do que há quatro anos. Estamos trabalhando muito o retorno para a cidade de origem. O Ministério Público investiga isso. Para isso temos que trabalhar políticas regionais que evitem essa “transferência” da situação de vulnerabilidade de uma região para a outra. E nós não vamos deixar de atender as famílias de baixa renda que por ventura tenham problemas de alimentação. A cesta básica tem que ser dada com base em cadastro do serviço social para que atinja o verdadeiro público. Temos mais desafios na área social, essa busca de oportunidades é permanentes. Não vamos deixar faltar os auxílios previstos no orçamento.

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