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Entrevista exclusiva

Covid descontrolada nenhum sistema de saúde do mundo consegue atender, diz médico brasileiro na Opas

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Dagmara
Por Dagmara Spautz
16/05/2021 - 12h12
Jarbas Barbosa, Diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas
Jarbas Barbosa, Diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas (Foto: Marcelo Camargo, Agência Brasil, BD)

Diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), o médico sanitarista brasileiro Jarbas Barbosa da Silva Júnior conversou com exclusividade com a NSC a partir de Washington (EUA), onde atua no braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) nas Américas. Barbosa, que já foi diretor-presidente da Anvisa e secretário do Ministério da Saúde no Brasil, acompanha de perto o desenvolvimento da pandemia e os esforços dos países da América Latina e Caribe para conter o novo coronavírus.

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Em entrevista, Barbosa fala sobre acertos e equívocos. De um lado, a melhora na rede de assistência, com um aumento de 95% na oferta de leitos de UTI na região. De outro, aponta para a necessidade de melhorar a comunicação com a população, e fala sobre a aposta em medidas não recomendadas, que atrapalham a batalha contra a pandemia. 

- Vários países, por exemplo, durante muito tempo (tiveram) uma certa crença em medicamentos sem eficácia na prevenção. Isso acaba gerando uma mensagem confusa, as pessoas acham que se tomaram algum medicamento estão protegidas, não precisam usar máscara.

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O médico brasileiro evitou o terreno espinhoso da polêmica. Mas, questionado sobre a hipótese de que o Brasil tenha adotado uma política deliberada para produzir imunidade de rebanho, não se furtou em classificar essa possibilidade como impensável.

- Não acredito que haja uma estratégia (como essa) em nenhum lugar do mundo, eu espero. Em uma doença que nós sabemos que pode produzir casos graves e mortes, não faz sentido, do ponto de vista ético e de saúde pública, se esperar que a transmissão ocorra de maneira natural.

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Barbosa falou sobre a demanda por vacinas e o consórcio internacional Covax, organizado pela OMS. Comentou o impacto da crise na Índia sobre o fornecimento de doses e insumos, e a importante busca pelos medicamentos do kit intubação para o Brasil, que foi intermediada pela Opas.

Para o médico, a análise de processos e políticas públicas é fundamental para os países da América Latina. Ele alerta que continuaremos convivendo com a transmissão de Covid-19, pelo menos, até o fim deste ano – e não há data para a pandemia terminar.

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Entrevista: Jarbas Barbosa

Qual a situação atual da pandemia na América Latina?

Ainda é uma situação preocupante, por uma série de fatores. Desde os condicionantes socioeconômicos, (já que) a região tem muita pobreza, muita gente vivendo em condições inadequadas, em favelas, em comunidades muito pobres, onde a aglomeração é quase uma condição natural. Tem muita gente que vive da economia informal, ou seja, que precisa sair todo dia para ganhar algum dinheiro. Tem políticas de proteção social muito frágeis. Isso somado, além de, em alguns países, mensagens conflitantes entre lideranças, tudo isso leva a um quadro de dificuldade para que as medidas de saúde pública capazes de reduzir a velocidade da transmissão sejam efetivas na região. Nós vemos que quando, no ano passado, começa aquela explosão de casos, primeiro na Itália, depois em outros países da Europa e aqui em Nova York, nos Estados Unidos, os países da América Latina tomaram medidas para responder. Essas medidas foram importantes para evitar explosão de casos, nós só tivemos explosão, mesmo, em Manaus, no Brasil. Por outro lado, por todos esses condicionantes de que falei, essas medidas não foram capazes de controlar a transmissão. Então, quando olhamos a curva dos casos e mortes na Europa e na América Latina, tem uma diferença básica. Na Europa os casos começam a subir, os países adotam medidas, elas são muito efetivas, e os casos começam a cair. Na América Latina é como um platô. Sobe, e depois fica num platô. Temos uma redução, depois cresce de novo. Reduz, cresce de novo. A América Latina é um mosaico, você tem países que estão com o crescimento forte de casos, outros estão reduzindo, mas de maneira geral é preocupante porque nós vamos viver com essa pandemia por vários meses ainda. Então, é muito importante que os países possam aperfeiçoar. Analisar bem suas medidas, estratégias, e aperfeiçoar para não deixar a transmissão crescer a ponto de produzir mais casos graves do que os serviços de saúde têm condições de atender.

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Se 95% das pessoas na América Latina usassem máscaras ao sair de casa, salvaríamos dezenas de milhares de vidas

A chegada do inverno ao hemisfério Sul preocupa a Opas?

Não se observou uma sazonalidade, como na influenza. Mas (no inverno) você pode ter mais transmissão de influenza, pode ter pessoas com influenza e também adquirindo Covid-19, pode ter os hospitais já recebendo uma alta demanda por conta da influenza. Então, é importante chamar atenção para a necessidade de as pessoas manterem todas as medidas que nós sabemos que são efetivas. O uso de máscara quando sair de casa é fundamental. Se 95% das pessoas na América Latina usassem máscaras ao sair de casa, salvaríamos dezenas de milhares de vidas. Manter a distância física, evitar aglomerações e lugares fechados, avaliar se as medidas mais rigorosas de restrição de atividades não essenciais precisam ser adotadas. Ou seja, esse conjunto de medidas precisa estar implantado, e as autoridades sanitárias monitorarem de maneira muito cuidadosa as tendências, para verificar se (a transmissão) volta a crescer num local mais controlado, ou se está conseguindo se manter a transmissão dentro do que seria desejável, em uma tendência de redução do número de casos. Esse monitoramento, com as medidas adequadas, é a melhor maneira de atravessar esse período em que ainda vamos conviver com a Covid-19.

Sobre esse dado do uso de máscaras por 95% das pessoas, recentemente o senhor disse em uma entrevista à CNN que isso evitaria 48 mil óbitos nos próximos meses. Pode explicar?

Essas são estimativas feitas por um grande instituto nos EUA, que é o instituto de saúde e avaliação, IHNE (Institute for Health Metrics and Evaluation), em Seattle. Várias estimativas que eles fazem são usadas pelo comitê da Casa Branca para monitorar a situação. Usando técnicas estatísticas, eles fazem a estimativa de quantas vidas seriam salvas se tivéssemos um incremento do uso de máscara, ou de vacinação, ou menos mobilidade das pessoas. Eles estimam, hoje, que temos 75% de pessoas nas Américas que usam máscara ao sair de casa. Seria importante aumentar para 95%. A estimativa que eu falei, de 48 mil, agora já mudou. Como estamos com crescimento de transmissão em vários lugares, a estimativa agora é que se 95% das pessoas nas américas utilizarem máscaras, toda vez que saírem de casa, 101 mil mortes serão evitadas até o dia 1º de setembro. É um número bem expressivo, e é uma medida relativamente fácil. Infelizmente, isso foi politizado de uma maneira completamente inadequada, há toneladas de evidências demonstrando que as máscaras são fatores para proteger da transmissão. Se tivermos uma mensagem adequada, coesa, com base na ciência, podemos aumentar dos 75% atuais para os 95%, que seria o ideal.

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Entrando na questão das vacinas, o quanto a crise sanitária na Índia impacta a chegada de vacinas à América Latina e Caribe?

Impacta bastante, porque a Índia tem um produtor importante no mundo que é o Serum Institute, que recebeu a tecnologia da AstraZeneca e produz de maneira autônoma, não precisa importar nenhum insumo, faz a produção do zero, e tem um contrato muito importante com o mecanismo Covax. Desde que a crise na Índia agravou, o governo não tem autorizado exportações. Está se buscando um acordo de alto nível, com o primeiro ministro da Índia, no sentido de ter uma proporção, ao menos, das vacinas produzidas pelo Serum Institute sendo entregues ao Covax para cumprir contratos que esse instituto firmou com o mecanismo. Mas ainda não temos uma decisão.

Qual a situação do consórcio Covax com o Brasil? Houve pedidos para aumentar a participação do país e a chegada de mais doses por meio do consórcio. Isso vai ocorrer?

O Brasil solicitou 10%, o correspondente a 10% de sua população.

Poderia chegar até quanto?

Poderia chegar até 20%, mas, no momento em que os países tinham que solicitar, o Brasil pediu 10%. A maioria dos países solicitou 20%. O Fundo Rotatório de vacinas da Opas é o mecanismo que faz as aquisições das vacinas em nome do mecanismo Covax. O Brasil tem até o final do ano (para receber) esse correspondente a 10% da população, o que dá em torno de 42 milhões de doses. Se pensarmos em vacinas de duas doses, é o suficiente para cobrir 21 milhões de pessoas. 

Tínhamos entregado já um milhão, na primeira rodada de entregas, mais 4 milhões e 51 mil doses há uma semana atrás, o que totaliza 5 milhões, e estamos negociando com os produtores para aumentar o envio com mais 4 milhões de doses até o final de maio, princípio de junho. O panorama das vacinas está muito limitado porque alguns produtores que se comprometeram com o mecanismo Covax só começam a entregar a partir de junho, como a Pfizer, que começa com uma quantidade muito limitada, vamos entregar para o Brasil cerca de 800 mil doses (da Pfizer). O Brasil, entre maio e junho, tem assegurado quatro milhões restantes da AstraZeneca, mais 800 mil da Pfizer, e a Moderna, Jansen e outros provavelmente só começam a entregar a partir de julho. Então, no segundo semestre a gente a espera um cenário mais favorável.

O senhor falou recentemente de contatos com EUA e Espanha para doação de doses de vacinas para América Latina. Quais as chances de que isso se concretize?

Temos tido conversações com alguns países, inclusive alguns que solicitam uma certa reserva porque, apesar de terem comprado mais vacinas do que precisam, no momento também enfrentam dificuldades de acesso. Mas o primeiro ministro da Espanha já anunciou no dia 21 de abril, perante a cúpula interamericana, que a Espanha vai doar as vacinas excedentes que têm ao mecanismo Covax, com prioridade para a América Latina, e quer que a Opas seja encarregada de distribuir, porque temos a experiência de 40 anos comprando vacinas em nome dos países das Américas. Dos EUA, tivemos a solicitação mas ainda não temos uma resposta final.

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O senhor acompanhou a decisão da Anvisa sobre a vacina Sputnik V? A Opas se manifesta a respeito?

Não, isso é uma decisão de cada país. Cada um tem sua maneira de autorizar vacinas e medicamentos. Nós apoiamos o desenvolvimento e o fortalecimento das autoridades regulatórias nacionais. A Opas tem um mecanismo de avaliação de todas as agências regulatórias da região, do Canadá ao Chile, inclusive a Anvisa. Essa avaliação aponta quais são os tópicos em que as agências devem se fortalecer. Mas não deferimos, nem participamos de decisão nacional sobre licença, autorização. Nós, da Opas, só compramos vacinas que são qualificadas pela OMS, ou que receberam da OMS autorização de uso emergencial. 

Neste momento, com essa autorização, temos a vacina da Pfizer, Jansen, as da AstraZeneca, e falo no plural porque tem mais de um local de produção, na Índia, na Coréia do Sul, na Europa, e uma (fábrica) na China, que também há tem autorização. Essas eram as vacinas autorizadas. Agora, somam-se a vacina da Sinopharm, chinesa. São as que têm autorização de uso emergencial, e sobre elas podemos falar. As outras, não conhecemos. Não temos o dossiê, os dados. (Autorizar) É uma decisão de cada país. A Anvisa é uma autoridade consolidada, com corpo técnico excelente, e tem plenas condições de fazer a avaliação sobre a segurança, a eficácia, e tomar suas decisões de forma autônoma.

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Que país é motivo de maior preocupação para a Opas na região, e por quê?

Todos, porque enquanto há transmissão, mesmo os países que estão, no momento atual, com redução no numero de casos, se baixarem a guarda, se começarem a abrir de maneira indiscriminada, isso pode ser completamente modificado em poucas semanas. Mantemos a preocupação, apoiando os países, prestando nossa cooperação técnica, para que os avanços no controle da transmissão possam ser sustentáveis.

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O senhor avalia que a disparidade de acesso a vacinas entre os países é algo que será trabalhado a partir de agora? Isso está na mesa de discussões internacionais?

Deveria, no meu entendimento, ser uma das prioridades no mundo. É inaceitável que a gente tenha essa desigualdade tão importante no acesso às vacinas. É um problema, não só do ponto de vista ético e moral, mas também do ponto de vista de saúde. Não adianta um país rico vacinar toda a população se a transmissão continua forte nos outros países, e você pode ter o surgimento de uma nova variante, que não seja coberta pelas vacinas. Todo o trabalho pode ser colocado a perder. Há já um debate no mundo, alguns países lançaram com a OMS a ideia de um novo tratado, com regras de garantia de acesso equitativo em uma situação de emergência, como essa em que a gente se encontra. Eu espero que isso prospere, em consenso entre os países, para que possamos preparar melhor o mundo para as próximas pandemias que virão. Não sabemos quando, a gravidade, nem qual será o agente causal, mas sabemos que elas podem acontecer.

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O fundo para aquisição de medicamentos da Opas socorreu o Brasil algumas vezes ao longo desta pandemia. Em que situações isso ocorreu?

Esse fundo estratégico compra medicamentos para os países não é para emergências. Para emergências, temos uma situação muitas vezes limitada, porque da mesma maneira que um país não consegue encontrar produtores com disponibilidade, nós também podemos não encontrar. Temos dois fundos, o Fundo Rotatório de Vacinas, que está fazendo a aquisição de vacinas para o Covax, e que de maneira rotineira compra vacinas em nome dos países das Américas para seus programas regulares de imunização. E temos o Fundo Estratégico, em que vários países compram medicamentos para HIV, tuberculose, malária, hepatite C e outros. Esse fundo também realiza aquisição de outros insumos, como testes de PCR, equipamentos de proteção individual e (outros) medicamentos. 

Há quatro meses nós recebemos solicitação do Brasil, de medicamentos que são utilizados em sedação de pacientes, intubação, e outros procedimentos. Fizemos um apanhado internacional, oferecemos ao Brasil, que adquiriu uma parte desses medicamentos. Há duas semanas o Brasil solicitou de novo. Buscamos todos os produtores que haviam oferecido antes, mas como não havia muita oferta para curto prazo, nós trabalhamos com os Estados Unidos para intermediar um acordo. Os EUA estão fazendo um empréstimo desses medicamentos do chamado kit intubação, que eles têm no seu estoque estratégico, e vão, por intermédio da Opas, enviar ao Brasil, que envia os recursos para que os EUA comprem os medicamentos e reponham. É como se fosse um empréstimo intermediado pela Opas.

Outros países na América Latina e Caribe tiveram problemas semelhantes com falta de medicamentos do kit intubação, ou de oxigênio?

Falta de oxigênio sim, apoiamos alguns países. Em relação a medicamentos, tivemos algumas solicitações de outros países que pediram também, mas não foi algo muito disseminado.

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O senhor avalia que o Brasil fez o que estava ao alcance para conter a pandemia?

É importante fazer uma avaliação muito rigorosa, cuidadosa, quando passar a pandemia. De maneira que se possa ver o que acertamos, o que erramos, aperfeiçoar os mecanismos de resposta. Eu acredito que todos os países tentaram fazer o que poderiam, mas sem dúvida nenhuma poderíamos ter feito mais, no sentido de garantir uma mensagem mais coesa, com base na ciência, em todos os países da América Latina. Vários países, por exemplo, durante muito tempo (tiveram) uma certa crença em medicamentos sem eficácia na prevenção. Isso acaba gerando uma mensagem confusa, as pessoas acham que se tomaram algum medicamento estão protegidas, não precisam usar máscara. Apesar de todo o esforço que os países fizeram, e fizeram bastante esforço, creio que vai ser importante fazer essa revisão quando terminar a pandemia, porque ela vai resultar em recomendações para que os países se preparem melhora para novas emergências de saúde pública.

 Poderíamos ter feito mais, no sentido de garantir uma mensagem mais coesa, com base na ciência, em todos os países da América Latina

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O senhor falou sobre as medicações, e tanto a Opas quanto a OMS já se manifestaram não recomendando medicamentos como cloroquina e ivermectina, que continuam em uso aqui na Brasil. Há outros países na América Latina e Caribe que adotam essas medicações não recomendadas como estratégia de combate ao vírus?

Tivemos, durante um período, o Peru recomendando muito o uso de ivermectina. A Venezuela também. Eram os dois países que tenho mais lembrança desse tipo de recomendação. Isso felizmente foi sendo superado ao longo do tempo. É claro que em uma pandemia, causada por um vírus desconhecido, tem muita incerteza no começo. Mas, na medida em que as evidências foram sendo geradas, creio que já há, desde algum tempo, uma evidência científica de base muito forte de que não temos medicamentos que sejam capazes de proteger as pessoas de se infectarem, ou de fazer com que não progridam de uma forma leve para uma forma grave. Nesse sentido, é muito importante fazer as recomendações adequadas para que as pessoas possam se proteger.

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O que o senhor acha da informação, que tem sido levantada pela CPI da Covid, de que o governo brasileiro trabalhou pela imunidade de rebanho?

Não tenho opinião porque não sei se há uma estratégia sobre isso. Não acredito que haja uma estratégia (como essa) em nenhum lugar do mundo, eu espero. Em uma doença que nós sabemos que pode produzir casos graves e mortes, não faz sentido, do ponto de vista ético e de saúde pública, se esperar que a transmissão ocorra de maneira natural. Porque, quando ela ocorre de maneira natural, nós vimos agora de novo no Brasil, pela segunda vez, a evidência de que a transmissão produz mais casos graves do que qualquer sistema de saúde do mundo tem capacidade de atender. Ou seja, se deixar a transmissão seguir seu curso natural, sem nenhuma redução, pessoas vão morrer por falta de leitos de UTI, por falta de respiradores, etc. Desconheço que haja uma estratégia sobre isso, e considero que não seria sequer razoável.

Algo que se discute a cada vez que os casos começam a subir é que os governos anunciam o aumento no número de leitos de UTI. Esse é o foco correto quando se tem o número de casos subindo? A resposta é investir em mais leitos de UTI?

Você precisa fazer duas coisas. Primeiro, ter capacidade de aumento rápido da sua capacidade de leitos de UTI, e vários países na América Latina fizeram isso. Quando se olha para os números, nós temos 95% mais leitos de UTI do que tínhamos antes da pandemia. Mas, se ao mesmo tempo em que se toma essa medida não se atua na raiz do problema, não se atua para reduzir a velocidade de transmissão, nenhum aumento de leitos de UTI vai ser capaz de acompanhar o aumento da demanda que será produzido pela transmissão descontrolada. Então, há que se atuar na raiz do problema usando as medidas de saúde pública que podem reduzir a transmissão.

O senhor concorda com a afirmação de alguns especialistas, de que a maneira como o Brasil está lidando com a pandemia fará com que o país vire um celeiro de novas variantes? Esse risco é real?

Em todo local onde se tem a transmissão sem controle, você pode ter o surgimento de mutações. Isso é um processo natural. Quando essas mutações se consolidam, e passam a se replicar, você tem a criação de novas variantes. Algumas não têm muita importância, porque não alteram o comportamento do vírus, nem para pior nem para melhor. Mas outras variantes sim, podem aumentar tanto a transmissibilidade como a capacidade do vírus de produzir casos mais graves. Controlar a transmissão também tem esse papel, de evitar que essas variantes possam ocorrer. Em todos os lugares do mundo, enquanto houver transmissão, há um risco de haver novas variantes. E quanto mais descontrolada está a transmissão, estatisticamente, mais chances há de que novas variantes possam surgir.

Em todo local onde se tem a transmissão sem controle, você pode ter o surgimento de mutações

Mas como conciliar as medidas de distanciamento social com a situação econômica dos países da América Latina?

Cremos que isso é fundamental. Se você não controla a transmissão, pode ter um impacto ainda maior na economia do país. Tem estudos demonstrando isso. Em países que controlam mais rápido a transmissão, conseguem controlar os picos mais rápido, a economia sofre menos. Países que ficam com esse platô prolongado, com alta transmissão por períodos muito longos, a economia sofre mais. Então, é importante pensar também em medidas econômicas e sociais que possam apoiar as pessoas, as famílias pobres, a economia informal, os pequenos negócios, durante os períodos em que você precisa suspender atividades não essenciais para forçar a redução, segurar a transmissão e fazer com que ela entre em declínio. Economia e saúde não podem ser colocadas como inimigas, têm que se colocar em conjunto. A melhor maneira de recuperar a economia é o controle mais rápidos da transmissão.

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Quando citamos medidas preventivas, ouvimos falar muito em aglomeração. Mas não ouvimos falar tanto em evitar locais fechados na estratégia de comunicação. Está correto?

As duas coisas, mas os locais fechados seguramente têm um risco muito maior de transmissão. Já tem muitas evidências sobre isso, surtos que foram identificados a partir de um caso num restaurante, num bar, numa cerimônia religiosa. Ou seja, lugares fechados, principalmente nos quais as pessoas estão sem máscara, ou falando alto, cantando. Pela maneira de transmissão do vírus, em partículas de saliva que são expelidas quando a pessoa respira, quando ela fala ou grita, canta, expele muito mais. Quando tosse, espirra, muito mais ainda. Se está num local fechado, a chance de transmissão é muito mais alta. Por isso que locais abertos, em que você não esteja próximo, a menos de dois metros da outra pessoa, a chance é menor. Aglomeração de todo jeito é ruim. Em lugar fechado, é muito pior.

Os estados brasileiros, e SC é um exemplo, adotaram alguns protocolos, como a aferição de temperatura. Essa ‘medição’ costuma ser feita no pulso, mesmo sabendo que o aparelho funciona na testa. Esses ‘rituais’ podem banalizar os cuidados pessoais?

É importante esclarecer para que se toma a temperatura. Aqui nos EUA se toma a temperatura quando se vai numa clínica, por exemplo. Em supermercado não, mas é obrigatório o uso de máscara, pelo menos aqui na região onde eu moro. E as pessoas guardam distância umas das outras, de um metro e meio pelo menos. Em ambientes de maior risco se toma a temperatura, para evitar que uma pessoa contaminada possa ser um fator de risco. É importante ver que isso tem um alcance muito limitado. A pessoa pode não estar com febre, mas estar infectada, e pode estar transmitindo. Isso não é nenhuma garantia de que a pessoa esteja protegida.

A melhor maneira de recuperar a economia é o controle mais rápidos da transmissão.

Essa questão do pulso veio por propagação de fake News. Esse é um ponto de preocupação para a Opas?

As fake news são um problema. Nós trabalhamos junto com a OMS em acordos com Facebook, Twitter, Instagram, e isso tem resultado numa menor difusão de notícias falsas. Mas elas ainda são um grande problema. São as teorias da conspiração, que infelizmente são propagandeadas e têm um papel muito negativo no sentido de fazer com que as pessoas acreditem em coisas absurdas, como a de que as máscaras fazem mal, e essa outra bobagem, me desculpe usar essa palavra, de que a temperatura na testa vai fazer algum mal. Isso é uma coisa sem pé nem cabeça. Mas esse tipo de informação termina fazendo com que grande parte das pessoas não saiba distinguir o que é informação baseada no conhecimento científico, e o que é teoria da conspiração e fake news. É um problema, temos enfrentado isso e temos estimulado os ministérios da saúde dos países para que tenham estratégias de comunicação pelos veículos de imprensa, nas mídias sociais, de maneira permanente e com mensagens baseadas em evidências científicas, exatamente para combater essas fake news, porque não há outra maneira. No mundo de hoje, em que todo mundo pode disseminar o que quiser, a melhor maneira de combater (fake news) é se você tiver fontes confiáveis de informação disponíveis, capazes de esclarecer a população.

Até onde vai a pandemia, até quando teremos que conviver com ela?

É difícil fazer uma estimativa agora, mas eu diria que nós não estamos falando, infelizmente, num controle a curtíssimo prazo. Com a dificuldade de acesso à vacinação, provável persistência de alguns focos de transmissão em grupos da população que não vão querer se vacinar, as melhores estimativas falam que nós vamos até o final do ano convivendo com algum grau de transmissão. Esperamos que a conjugação da maior cobertura vacinal com a manutenção e fortalecimento das medidas de saúde pública possam começar a ter um impacto de reduzir a transmissão no segundo semestre. Para pensar em controle completo da transmissão, creio que ainda teremos muitos meses pela frente.

A história das ‘pestes’ antigas fala em cinco, dez anos de epidemia. É esse o cenário que enfrentaremos, ou estamos em situação melhor do que no passado?

Vamos poder ter uma observação melhor quando os países que estão mais na frente em termos de vacinação, como Israel e o Reino Unido, e mesmo aqui nos EUA, onde alguns estados estão mais avançados, começarem a produzir dados do mundo real. Qual vai ser o impacto da vacinação, de uma cobertura vacinal elevada, e eu falo de 80%, 85%, 90% da população, com a manutenção das medidas de saúde pública. (Vamos) Verificar se isso vai realmente interromper a transmissão. Creio que só a partir daí, talvez em uns três meses, teremos condições de responder a essa pergunta.

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