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Cinco motivos para Bolsonaro se preocupar com a CPI da Covid

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Por Dagmara Spautz
27/04/2021 - 15h41 - Atualizada em: 27/04/2021 - 16h25
Presidente Jair Bolsonaro
Presidente Jair Bolsonaro (Foto: Sérgio Lima, AFP)

Se há uma verdade político-gastronômica incontestável no Brasil, é que CPIs costumam terminar em pizza. Também é fato, no entanto, que elas geram barulho, repercussão e têm farto potencial para desgastar imagens. Especialmente se o tema é popular e facilmente absorvido pela população. É assim com a CPI da Covid.

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O governo Bolsonaro estreia em uma investigação parlamentar com desvantagem numérica em relação à oposição. Diante disso, sua tropa de choque compareceu em peso para a primeira reunião do grupo nesta terça, e promete fazer barulho. O governo conseguiu um ‘anexo’ à proposta de investigação no Senado, incluindo os repasses federais a governadores e prefeitos. Assim, tem chance de controlar a narrativa nas redes sociais – espaço público que domina.

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Jair Bolsonaro se diz confiante e afirmou nesta segunda-feira, às vésperas da instalação da Comissão, que não está incomodado com as investigações. Mas a coluna elencou cinco motivos pelos quais a CPI da Covid tem potencial para preocupar o presidente da República.

1- Vacinas

A demora do governo brasileiro em negociar vacinas atrasou o início da campanha de imunização no Brasil, e faz com que o país ainda receba as doses a conta-gotas. Os Estados Unidos, por exemplo, fizeram acordos com nove fabricantes diferentes, ainda no governo Trump.

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O comentarista da Globonews, Octavio Guedes, relatou nesta terça-feira (27) as 11 vezes em que o governo Bolsonaro recusou a oferta de vacinas. Foram repetidos ‘nãos’ ao Instituto Butantan, à Pfizer, e até ao consórcio internacional Covax Facility, organizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O acordo só caminhou depois do terceiro convite enviado ao Brasil.

A demora fez com que o governo federal fosse atropelado pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que fez a primeira aplicação de vacinas no Brasil. Bolsonaro 'sentiu o golpe' e, a partir daí, o governo federal passou a levar a sério a demanda por imunização.

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O problema é que, sem volume negociado com antecedência, o Brasil recebe as doses lentamente e isso impede que o país exerça a expertise que tem na distribuição e aplicação de vacinas. Com pouca vacina disponível, falta articulação.

A CPI tende a apostar firmemente na recusa do governo em encomendar vacinas de antemão, e nos cálculos de quantas vidas poderiam ter sido poupadas se tivéssemos imunizado mais cedo.

2- Gripezinha

A comunicação sobre a gravidade da pandemia passa diretamente por Jair Bolsonaro, que minimizou os riscos da Covid-19. O compêndio de falas do presidente da República vai da “gripezinha” ao “não sou coveiro”.

Bolsonaro dispensou medidas mínimas de prevenção, como o uso de máscaras e o distanciamento físico. Promoveu aglomerações e tentou intervir judicialmente para interditar as medidas restritivas tomadas pelos estados.

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Especialistas veem no conjunto de ações do presidente um boicote deliberado às ações preventivas, com a suposta intenção de incentivar a “imunidade de rebanho” – teoria que foi amplamente defendida pelo senador Osmar Terra (MDB-RS).

O descontrole da pandemia tornou o Brasil um terreno fértil para que o coronavírus desenvolvesse novas variantes, mais transmissíveis e potencialmente mais perigosas.

3- Cloroquina

A insistência na defesa de um remédio sem comprovação de eficácia contra o coronavírus– que hoje se sabe que aumenta os riscos para pacientes com Covid-19 - permeia a atuação do governo federal na pandemia. O Ministério da Saúde chegou a enviar a Manaus caixas de cloroquina e uma ‘missão’ de médicos para receitar o famigerado tratamento precoce, enquanto pacientes morriam por falta de oxigênio.

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Mas não é apenas a aposta no ‘milagre’ da cloroquina que pode complicar a situação do governo. Pesa, também, a suspeita de que o remédio tenha sido superfaturado. Segundo levantamento da CNN, o Exército chegou a pagar o triplo do preço por comprimidos de cloroquina, inúteis para a Covid-19.

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4- Pazuello

O general que assumiu o Ministério da Saúde durante o período mais agudo da guerra contra a pandemia é especialista em logística no Exército, mas sua gestão ficou marcada pelos testes vencidos e a troca entre estados no envio de vacinas, entre outras trapalhadas oficiais.

Um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que houve omissão da gestão Pazuello no combate à pandemia. Uma das ações relatadas é a alteração no Plano de Contingência Nacional para reduzir as responsabilidades do Ministério da Saúde no controle de estoque de medicamentos fundamentais, como o kit intubação e o oxigênio – que chegaram a faltar em diversas regiões no país. O TCU recomendou que Pazuello seja multado.

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A entrevista do ex-secretário de Comunicação do Palácio do Planalto, Fábio Wajngarten, à revista Veja, indicou que o ex-ministro deve ser o ‘boi de piranha’ para os erros do governo na pandemia durante as investigações na CPI. Há, no entanto, o eco de uma frase dita pelo general ao lado de Bolsonaro, quando tentava colocar panos quentes sobre o fato de ter sido desautorizado publicamente a negociar vacinas: “Um manda, o outro obedece”.

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5- Renan

O relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL) é o que se poderia chamar de uma “raposa velha” no Senado. Experiente e controverso, Renan apontou no discurso de estreia que não pegará leve com o governo.

Falou em uma “cruzada contra a agenda da morte”, em democracia, negacionismo e em punição emblemática e enérgica aos eventuais culpados.

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A fala do relator aponta os caminhos que a CPI deve percorrer ao longo dos próximos meses, e indica que os senadores poderão testar até onde resiste a popularidade do governo Bolsonaro, diante da exposição sistemática de equívocos na gestão da pandemia.

Para quem sabe fazer bom uso dos holofotes, às vésperas de ano eleitoral, CPI é palco garantido. 

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