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RESPOSTA A JESSÉ LOPES

Ofício de reitor à Alesc diz que acusações de deputados à UFSC são falsas e graves

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Dagmara
Por Dagmara Spautz
13/07/2020 - 12h22 - Atualizada em: 13/07/2020 - 13h54
Júlio Garcia,  presidente da Assembleia Legislativa, e Ubaldo Balthazar, reitor da UFSC
Júlio Garcia, presidente da Assembleia Legislativa, e Ubaldo Balthazar, reitor da UFSC (Foto: Reprodução)

O reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Ubaldo Balthazar, enviou um ofício ao presidente da Assembleia Legislativa, deputado Julio Garcia (PSD), em resposta à moção de repúdio aprovada na semana passada por parlamentares, que fala em “paralisação total” da UFSC durante a pandemia. O reitor listou uma série de ações que vem sendo desenvolvidas pela universidade neste período, desde pesquisas em busca de uma vacina para o novo coronavírus, até cursos de capacitação para profissionais de saúde.

A moção que provocou a resposta do reitor foi apresentada pelo deputado estadual Jessé Lopes (PSL), que acusou o Conselho Universitário de “ditadura de uma minoria” por manter as aulas suspensas – a UFSC está em fase de implantação de um modelo de aulas à distância, que demandará providenciar pacotes de internet para alunos que não têm acesso a internet de qualidade.

Em uma longa carta, o reitor explica aos deputados o tripé no qual está estruturada a universidade pública – ensino, pesquisa e extensão. O ofício mostra que a universidade vem atuando nos três pilares, embora não tenha retomado as aulas. O texto repudia deputados que, segundo o ofício, “têm se servido do exercício de um mandato eletivo para ofender, agredir, desqualificar e imputar inverdades e leviandades à UFSC”.

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O reitor afirma serem falsas e graves acusações de que todos os docentes e técnicos estão recebendo sem trabalhar. “Da mesma forma, expressar manifestações desabonadoras restringindo-as apenas às atividades de ensino revela má fé, ignorância e leviandade. Uma universidade pública tem exatamente no tripé Ensino, Pesquisa e Extensão, sua maior marca, sua verdadeira essência. E a realidade, ignorada de maneira deliberada, revela o quanto a UFSC tem contribuído no período da pandemia”.

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O ofício termina ressaltando que a UFSC é patrimônio catarinense há 60 anos, e que tratá-la “com tamanha agressividade e desrespeito”, é negligenciar a história da universidade. “Nunca nos furtaremos de debater, com quem quer que seja, as diferenças que eventualmente tenhamos, desde que sejamos respeitados e que a interlocução seja conduzida com base nas premissas cidadãs, e não orientadas pelo desconhecimento da realidade universitária, pelo preconceito e irresponsabilidade”.

Na manhã desta segunda-feira (13), o reitor esteve em reunião com o deputado Julio Garcia. No encontro, o presidente da Alesc disse que a moção não reflete a posição da Assembleia Legislativa. Ressaltou que o Parlamento respeita e reconhece a atuação da universidade em Santa Catarina. 

O ofício da UFSC será lido em plenário, e repassado a todos os parlamentares.

Oferta ao Estado

A conversa entre o reitor e o presidente da Alesc levantou outra questão: professor Ubaldo Balthazar entregou a Julio Garcia um ofício do dia 20 de março em que a UFSC colocou seu espaço físico à disposição do Governo de Santa Catarina, durante a pandemia. Até hoje, não houve resposta. 

O documento será encaminhado à Procuradoria Geral de Justiça.

Leia na íntegra o ofício da UFSC

Manifestações de desrespeito à UFSC de parte de parlamentares Senhor Presidente,

1. Como reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e presidente do egrégio Conselho Universitário, órgão máximo de deliberação da instituição, cumpro o desagradável dever de dirigir ao senhor este documento, como forma de expressar nossa profunda decepção com representantes desse Parlamento que têm se servido do exercício de um mandato eletivo para ofender, agredir, desqualificar e imputar inverdades e leviandades à UFSC.

2. Destaco, senhor presidente, que tais ofensas não me atingem apenas como dirigente máximo, eleito pela comunidade e nomeado por ato do ministro da Educação. Feremme a honra como cidadão e especialmente como docente titular da instituição há mais de 40 (quarenta) anos. Além disso, repercutem no ataque a cada um dos docentes, pesquisadores, servidores técnico-administrativos e estudantes – estes da educação infantil, do ensino fundamental e médio, da graduação e pós-graduação.

3. Tem havido críticas sem qualquer fundamento às medidas adotadas pela UFSC, particularmente à suspensão de aulas presenciais. No entanto, não são apenas críticas: são falsas acusações que imputam a todos os docentes e técnicos estarem sem desenvolver atividades enquanto recebem seus salários. Isso é muito grave!

4. Da mesma forma, expressar manifestações desabonadoras restringindo-as apenas às atividades de ensino revela má fé, ignorância e leviandade. Uma universidade pública tem exatamente no tripé Ensino, Pesquisa e Extensão, sua maior marca, sua verdadeira essência. E a realidade, ignorada de maneira deliberada, revela o quanto a UFSC tem contribuído no período da pandemia. Dado o exposto, passo a apresentar-lhe apenas alguns exemplos.

4.1. Ciência contra a Covid-19: 2

4.1.1.Pesquisadores – docentes, técnicos e estudantes da UFSC – vêm promovendo e participando de centenas de lives, webinars, podcasts, além de disponibilizar vídeos, material de estudo e boletins de pesquisa sobre o impacto da Covid-19 sobre a vida dos catarinenses. Estudiosos da UFSC analisam curva de contágio diariamente e oferecem seu olhar científico sobre as decisões a respeito do tratamento e da prevenção da doença, desde o início desta pandemia;

4.1.2.Os cientistas da UFSC participam de entrevistas e debates junto à imprensa, e já ensinaram o público em geral a fazer suas próprias máscaras, da maneira mais eficaz contra a propagação da doença, além de oferecer informações sobre como cuidar de sua casa e seus familiares ao voltar do supermercado, ao fazer compras de alimentos e/ou ao utilizar o transporte coletivo; e

4.1.3. Além disso, a UFSC já possui pesquisas em andamento para vacinas e foi a primeira instituição nas Américas a identificar o vírus na rede de esgoto, testando amostras de meses atrás, concluindo que o novo coronavírus já estava em Florianópolis em novembro de 2019.

4.2. UFSC solidária:

4.2.1.Durante a pandemia, a UFSC lançou um edital por mês, como apoio emergencial aos estudantes em vulnerabilidade, no valor de R$ 200,00 (duzentos reais). Além disso, toda a comida estocada no Restaurante Universitário – cerca de 15 (quinze) toneladas de alimentos – foi doada a estudantes e suas famílias, bem como a comunidades carentes;

4.2.2.Desde 1º de julho, a Universidade está cadastrando estudantes que precisam de computadores e de auxílio para comprar pacotes de acesso à internet, em preparação para a oferta do ensino não presencial; e

4.2.3.Os servidores e estudantes da UFSC promovem semanalmente a arrecadação de recursos e donativos para a compra e distribuição de cestas básicas e de alimentos orgânicos em todas as cidades onde a UFSC tem campi: Florianópolis, Blumenau, Curitibanos, Araranguá e Joinville.

4.3. Pesquisa:

4.3.1.A UFSC possui centenas de projetos de pesquisa cadastrados, aprovadas ou em andamento. Dentre estas, estão aprovadas e em andamento pesquisas sobre vacinas; sequenciamento genético; diagnóstico de Covid-19; atendimento dos profissionais de saúde; fake news; trabalho em home office; pacientes em UTI; medidas de segurança; desenvolvimento de aplicativos; estratégias não farmacológicas para a contenção do novo coronavírus; identificação de vírus e suas mutações e dispersões; impactos psicossociais da pandemia; entre outros;

4.3.2.Professores da UFSC já desenvolveram respiradores de baixo custo, equipamentos que já entraram em produção após serem testados nos hospitais mais conceituados do Brasil, como o Sírio-Libanês. Além disso, tecnologias criadas pela UFSC já funcionam em várias cidades catarinenses para telemedicina, aplicativos para mapear casos de Covid-19 e evitar o contágio, além de recursos para aprendizagem; e

3 4.3.3.A produção científica da UFSC não parou. Os professores, mesmo com as atividades de ensino suspensas, continuam publicando seus artigos, desenvolvendo suas pesquisas e gerando conhecimento nas diversas áreas abarcadas pelos centros de ensino da UFSC.

4.4. Extensão:

4.4.1.Existem centenas de projetos de extensão cadastrados com relação à Covid-19. Entre eles, iniciativas sobre aleitamento materno e Covid-19 no HU/UFSC; a confiabilidade da tecnologia em saúde em processos de triagem de pacientes com suspeita de Covid-19; as divulgações científicas para a sociedade; os respiradores artificiais; as queimaduras por álcool no Brasil durante a pandemia; a atualização em Enfermagem no trato com pacientes de Covid-19; entre outros;

4.4.2.A UFSC também passou a oferecer cursos abertos à população em geral sobre o uso de tecnologias digitais em educação. São 16 (dezesseis) núcleos oferecendo dezenas de cursos, que chegam, além da comunidade de professores, técnicos e estudantes da UFSC, também a prefeituras e escolas de todo o estado; e

4.4.3. A Universidade capacitou, ainda, mais de 300 (trezentos) mil profissionais de enfermagem por meio de cursos on-line voltados ao cuidado a pacientes de Covid19.

4.5. Campanhas informativas:

4.5.1.Além das inúmeras lives, a comunidade da UFSC disponibiliza materiais informativos voltados a crianças e idosos, atividades físicas para serem feitas em casa e informações sobre saúde mental. Além disso, a instituição já divulgou orientações para quem tem doenças respiratórias crônicas, para quem precisa cuidar de alguém infectado com a Covid-19, bem como sobre amamentação quando a mãe está doente; e

4.5.2.Por meio do projeto #QuarentenaArte, a produção artístico-cultural catarinense – como filmes, shows, documentários, peças teatrais etc. – é disponibilizada a toda a população por meio do YouTube e da TV UFSC.

4.6. Hospital Universitário: contratação de 104 (cento e quatro) novos profissionais no processo seletivo emergencial (HU/Ebserh). São técnicos em Enfermagem, enfermeiros, médicos e fisioterapeutas que atuarão na área assistencial e serão linha de frente no combate à Covid-19.

4.7. Álcool 70: a UFSC produziu, em seus laboratórios, mais de 6 (seis) mil litros de álcool 70% (setenta por cento), glicerinado e em gel. Também montou parcerias com produtores rurais e alambiques locais para transformar bebidas alcoólicas apreendidas pela Receita Federal em 1.500 (mil e quinhentos) litros de álcool 70% (setenta por cento) para desinfecção.

4.8. Equipamentos de proteção individual: a UFSC produziu e doou aos serviços públicos de saúde cerca de 3 (três) mil máscaras do tipo face shield, além de máscaras feitas em impressão 3D no padrão adequado aos profissionais de saúde. Esses materiais chegaram a mais de 40 (quarenta) municípios catarinenses.

4 4.9. Linha de frente: a UFSC está contribuindo com equipamentos e pessoal, além de quatro laboratórios, que, em parceria com o Laboratório Central (Lacen), auxiliam no diagnóstico de pacientes de Covid-19 desde o início da pandemia.

4.10. Espaço físico: a UFSC cedeu espaço no Centro de Cultura e Eventos, durante várias semanas, para a vacinação contra a gripe em Florianópolis. Além disso, abriu um alojamento próximo ao HU para que os profissionais de saúde que assim desejarem façam ali o seu isolamento social e, desde o dia 20 de março, oficiou ao Governo do estado e às prefeituras de Florianópolis, Araranguá, Blumenau, Curitibanos e Joinville, no sentido de oferecer suas instalações para sediar ambientes de reforço às ações de combate à pandemia.

5. Todo o exposto até aqui, senhor presidente, corrobora uma frase que temos utilizado bastante: a UFSC não está parada. E é por isso que fazemos questão de apresentar a essa Casa Legislativa nossa mais profunda indignação com as manifestações de parlamentares quanto, especialmente, ao papel do nosso Conselho Universitário. O Conselho expressa o que de mais legítimo pode haver em uma instituição universitária pública: um espaço de representação plural, diversa e rica, no qual são travados debates, promovidas discussões e definidas normas e resoluções capazes de orientar o funcionamento da instituição. Grosso modo, é comparável àquilo que uma instituição como a Assembleia Legislativa faz.

6. No exercício de tal espaço, que não por acaso recebe o adjetivo de “egrégio” (distinto, importante, notável e digno de admiração), exercitamos as práticas tão caras em um Estado Democrático de Direito: a tolerância, o respeito, a cordialidade, o equilíbrio e especialmente o diálogo, mesmo entre quem discorda ou diverge.

7. Portanto, tratar a UFSC, um verdadeiro patrimônio catarinense há 60 (sessenta) anos, com tamanha agressividade e desrespeito, é negligenciar a história e a grandeza da Universidade. E com isso nós jamais podemos concordar.

8. Nunca nos furtaremos de debater, com quem quer que seja, as diferenças que eventualmente tenhamos, desde que sejamos respeitados e que a interlocução seja conduzida com base nas premissas cidadãs, e não orientadas pelo desconhecimento da realidade universitária, pelo preconceito e irresponsabilidade

Dagmara Spautz

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O que acontece de mais relevante em boa parte do litoral catarinense, especialmente Itajaí e Balneário Camboriú. Fontes exclusivas e informações de credibilidade nas áreas de política, economia, cotidiano e segurança.

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