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Omitidas por Chapecó, restrições fizeram cair internações e mortes

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Por Dagmara Spautz
07/04/2021 - 17h44 - Atualizada em: 07/04/2021 - 17h59
Decreto restritivo de Chapecó valeu por 14 dias
Decreto restritivo de Chapecó valeu por 14 dias (Foto: Secom Chapecó)

Dados estatísticos apontam que as restrições mais rígidas adotadas pela prefeitura de Chapecó, entre fevereiro e março, foram fundamentais na redução de casos e internações por Covid-19 – um resultado considerado exemplar pelo presidente Jair Bolsonaro, que é contrário a medidas restritivas.  

As medidas, que duraram 14 dias, incluíram o fechamento de escolas e do comércio e a suspensão de atividades como a construção civil.

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A tendência foi avaliada pelo jornalista Cristian Weiss, especialista em dados e responsável pelo monitoramento da pandemia de coronavírus para a NSC. Veja as observações que ele faz:  

Casos ativos

O número de casos ativos, pacientes em tratamento contra a covid-19 e capazes de transmitir o vírus, caiu drasticamente em Chapecó após o período de restrições. Atingiu o pico em 27 de fevereiro, com 3.683 casos ativos, caindo gradativamente em seguida. Nesta terça-feira, eram 615, de acordo com a estimativa da Secretaria de Estado da Saúde, uma redução de 83,3% em 38 dias.

Em dezembro, Chapecó registrou 30 mortes, conforme dados da Secretaria de Estado da Saúde, tomando como base a data de ocorrência dos óbitos. Média de uma morte por dia. Entrou assim, em tendência de queda, em janeiro, quando o município encerrou o mês com 18 mortes.

Mas é a partir de 10 de fevereiro que o patamar muda drasticamente, resultado do aumento de novos casos diários na semana anterior, com crescimento gradativo de mortes, até atingir o pico de 18 óbitos num só dia, em 1º de março.

Após o período de restrições, o número de mortes que ocorrem diariamente na cidade começou a cair, mas ainda está longe da média de dezembro. Em março foram 233 mortes. Só nos 5 primeiros dias de abril ocorreram 18 mortes na cidade, média pouco superior a 3 por dia.

Restrições são tabu

As medidas restritivas não foram citadas pelo prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), durante a visita oficial de Bolsonaro nesta quarta. O vídeo institucional do município, apresentado durante a recepção ao presidente, também ignorou o fato. 

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O presidente da República, no entanto, sabia que Chapecó havia adotado restrições. Em 23 de fevereiro, ele comentou a respeito ao saber, por um apoiador, que a cidade implementou restrições para reduzir a contaminação.

- Lockdown não resolve, para que lockdown? Desde março do ano passado eu tenho falado isso – disse o presidente.

> “Para que lockdown?”, diz Bolsonaro sobre Chapecó, onde sistema de saúde entrou em colapso

Conjunto de ações

A queda no número de casos e óbitos em Chapecó é resultado de um conjunto de ações. Além das restrições, o município investiu em ampla testagem, contratou profissionais de saúde e aumentou a oferta de leitos.

O grande destaque da visita presidencial, no entanto, foi a aposta em ‘tratamento imediato’ – um eufemismo para o tratamento precoce, um polêmico kit de medicamentos que chegou a ser recomendado pelo Ministério da Saúde, e que mudou de nome depois de ter levado o ex-ministro Eduardo Pazuello a virar alvo de investigação.

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João Rodrigues não cita os remédios usados em Chapecó, mas o ambulatório aberto pela prefeitura para ‘tratamento imediato’ de Covid-19 oferece medicações como ivermectina e hidroxicloroquina. Ambos foram citados pelo presidente durante seu discurso nesta quarta.

Tratamento precoce

O tratamento precoce não é uma novidade em Chapecó. Foi uma aposta do prefeito João Rodrigues desde que assumiu o cargo, no início do ano. De acordo com informações publicadas pela prefeitura, esse foi um do assuntos tratados por ele na primeira reunião oficial com sua equipe, em 4 de janeiro. Na mesma época, o prefeito flexibilizou os decretos na cidade e reduziu as medidas restritivas.

Assim como as medidas mais restritivas ajudaram a frear a nova onda de Covid-19, o afrouxamento de regras, em janeiro, pode ter ajudado a turbinar os índices de contaminação. 

Novos casos

Desde dezembro, Chapecó vinha reduzindo gradativamente o total de novos casos de coronavírus, segundo a data de aparecimento dos primeiros sintomas dos pacientes. Analisar pela data do surgimento dos sinais de Covid-19 é, conforme especialistas em saúde pública, a melhor forma de se aproximar da data real de infecção pelo coronavírus.

De 147 novos casos em 1º de dezembro, a cidade passou para 59 em 1º de janeiro. Esse patamar se manteve até 17 de janeiro, quando começou a aumentar gradativamente. Dois saltos ocorrem em 25 de janeiro e 1º de fevereiro, até atingir o pico em 25 de fevereiro, quando 767 pacientes relataram sentir os primeiros sintomas de covid-19. A partir das restrições mais rigorosas de circulação de pessoas em 23 de fevereiro, o patamar de novos casos diários começa a cair.

O alto número de óbitos em Chapecó durante a última onda de Covid-19 ainda impacta nos números. A cidade tem uma taxa de letalidade acima da média estadual. 

> Opinião: Bolsonaro em Chapecó prova que “tratamento precoce” funciona como narrativa política

Desde o início da pandemia, Chapecó apresentava uma taxa de letalidade mais baixa do que a de Santa Catarina. O índice mede o percentual de pessoas que morreram entre o total de pacientes confirmados com covid-19. Se houver menos casos novos diariamente, mas ocorrer mais mortes no período, maior tende ser a taxa.

Enquanto Santa Catarina atingia um pico de 1,27% de letalidade no fim de setembro, Chapecó registrava 0,98%. Ambos tiveram redução gradativa até início de dezembro, quando Santa Catarina começou a aumentar, mas Chapecó se manteve estável.

A partir de 20 de fevereiro, a taxa de letalidade da maior cidade do Oeste inicia uma aceleração. E no dia 1º de março se torna mais alta do que Santa Catarina.

Nesta terça-feira, Chapecó tinha um índice de letalidade de 1,71%, enquanto SC registrava 1,4%. Isso ocorre porque mesmo que tenha reduzido o número de casos novos após as restrições de fevereiro, o número de mortes diárias segue alto.

Para o economista e professor do curso de Economia da Unochapecó, Márcio da Paixão Rodrigues, a rápida ampliação de leitos, aumento das testagens e a união de esforços entre setor produtivo, poder público e sociedade ajudaram a reverter a crise em Chapecó. Mas está evidente a relação entre as medidas restritivas e a queda no número de internações e mortes

- Não teríamos está reversão de tendência, o início de uma queda tão rápida sem essas restrições mais duras.

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O que acontece de mais relevante em boa parte do litoral catarinense, especialmente Itajaí e Balneário Camboriú. Fontes exclusivas e informações de credibilidade nas áreas de política, economia, cotidiano e segurança.

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