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    Exemplo para Bolsonaro, Chapecó ainda tem UTIs lotadas e letalidade acima da média

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    Dagmara
    Por Dagmara Spautz
    06/04/2021 - 09h28 - Atualizada em: 06/04/2021 - 13h52
    Chapecó foi o epicentro da pandemia em Santa Catarina
    Chapecó foi o epicentro da pandemia em Santa Catarina (Foto: Reprodução, NSC TV)

    Jair Bolsonaro virá a Chapecó para visitar o que chamou de um “trabalho excepcional” na condução da pandemia de Covid-19. Para o presidente, o destaque foi o tratamento precoce adotado pelo município, com “liberdade total” para os médicos. Chapecó, de fato, teve melhora nos índices ao longo das últimas semanas – mas os números indicam que a ‘virada de chave’ no volume de internações foi a adoção de medidas restritivas. Mesmo assim, é necessária cautela: um mês depois de ter virado epicentro da pandemia no Estado, Chapecó ainda segue sob colapso no sistema de saúde.

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    A região Oeste chegou a ter 170 pacientes aguardando vaga de terapia intensiva. Nesta segunda-feira (5), a cidade zerou a lista de espera por leitos de UTI pela primeira vez desde o fim de fevereiro. Ao longo dos últimos dias, a prefeitura desmobilizou as internações alternativas, em leitos semi-intensivos que foram instalados no Centro de Eventos.

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    No entanto, os dados da Secretaria de Estado da Saúde apontam que as UTIs ainda estão lotadas no município, com 100% de ocupação. Isso é resultado do período longo de internação, que é uma característica da Covid-19, e que provoca o inchaço no sistema de saúde dos municípios.

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    Os índices de contaminação reduziram, e isso é comprovado pela testagem. Há um mês, 70% dos testes aplicados em Chapecó tinham resultado positivo. Agora, o índice é de 27%. Mas a cidade ainda tem um índice de letalidade mais alto do que a média estadual. É de 1,7%, contra 1,4% em Santa Catarina. Maior, por exemplo, do que as duas cidades que concentram atualmente o maior número de casos confirmados de Covid-19: Joinville, que tem 1,3% de letalidade, e Florianópolis, que tem 1,19%.

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    O anúncio do “exemplo de Chapecó” pelo presidente da República veio após o prefeito João Rodrigues (PSD) ter gravado um vídeo em que falou sobre a adoção de “protocolos”. Entre eles, o do tratamento precoce, que foi uma aposta do governo federal – mas não tem respaldo científico. Bolsonaro compartilhou o vídeo em suas redes sociais, e João Rodrigues viralizou.

    “Aqui em Chapecó, nós usamos todos os protocolos. O protocolo do tratamento precoce também foi adotado. Atenção prefeitos, governadores, não tenham medo” – disse o prefeito na gravação, em que ele não cita as medidas restritivas que a cidade adotou.

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    À coluna, nesta terça-feira (6), João Rodrigues disse que o tratamento precoce foi uma das medidas tomadas pelo município.

    - É um conjunto de ações, não uma ação única. Todas as unidades de saúde foram abertas só para Covid, fizemos testagem muito rápido, identificando quem tinha Covid para isolamento. Mas também o tratamento rápido. Definimos mais um ambulatório Covid, uma grande estrutura, um grande quadro de médicos que optaram também pelo tratamento precoce, o que também ajudou.

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    Aposta de governo

    O reforço no protocolo de tratamento precoce foi uma das primeiras ações de governo do prefeito João Rodrigues, notório seguidor do presidente da República. Foi estabelecido no dia 4 de janeiro, três dias após a posse. No mesmo período, o prefeito emitiu um decreto que flexibilizou regramentos e ampliou o horário de funcionamento para atividades não essenciais em Chapecó.

    Um mês depois, a cidade virou o epicentro da pandemia em Santa Catarina, com fila de espera por leitos de UTI e pacientes enviados ao Espírito Santo para tratamento, por falta de vagas. O colapso, potencializado pela presença de novas variantes, virou notícia nacional e chamou atenção para o descontrole da Covid-19 no Sul do país.

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    A prefeitura respondeu à crise com abertura de novos leitos de retaguarda, em unidades de pronto atendimento (UPAs) e no Centro de Eventos, contratação de 150 profissionais para atender os pacientes, ampliação da testagem e, em especial, medidas restritivas.

    No dia 15 de fevereiro, por recomendação dos médicos que participavam das reuniões de enfrentamento à Covid-19 no município, o prefeito João Rodrigues emitiu um decreto que fechou o comércio, bares, restaurantes, academias e construção civil, entre outras atividades. A medida seguiu válida por um período de 15 dias. Em 8 de março, começaram as flexibilizações.

    Durante esse período, Chapecó teve regras mais rígidas e mais restritas do que o restante de Santa Catarina. O resultado não demorou a aparecer: no dia 5 de março, ainda sob o decreto mais restritivo, despontaram os primeiros resultados na redução de casos. Aos poucos, a diminuição no número de contaminados refletiu na pressão que havia sobre o sistema de saúde.

    A linha do tempo das ações da prefeitura de Chapecó indica que a redução na movimentação de pessoas foi o principal propulsor da melhora nos índices da cidade. Bolsonaro, que virá a SC para ver de perto o tratamento precoce, talvez descubra o que os especialistas vêm alertando há mais de um ano: contra a Covid-19, o melhor remédio é a restrição. 

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