Para marcar o Dia Internacional da Mulher deste ano, a revista Forbes divulgou a lista “Mulheres Mais Poderosas do Brasil” integrada por 16 lideranças do país. A única catarinense dessa seleta lista é a advogada Tania Zanella, que desde dezembro de 2025 é a presidente executiva da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), instituição que representa um setor econômico pujante que fatura mais de R$ 700 bilhões por ano e emprega diretamente cerca de 570 mil pessoas.
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Nascida no pequeno município de Ipumirim, no Meio-Oeste de Santa Catarina, ela conviveu com o sistema cooperativo desde criança porque seu pai e tios eram associados de cooperativas. Cursou Direito na Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e depois foi convidada para ser assessora jurídica parlamentar em Brasília. Daí foi indicada para trabalhar na OCB, onde fez carreira, sendo a primeira mulher superintendente e, depois, também a primeira mulher eleita presidente executiva da entidade.
Veja mais imagens de Tania Zanella, catarinense que é uma das mulheres mais influentes do Brasil:
A OCB representa o cooperativismo brasileiro, um modelo de negócio pelo qual as pessoas se associam para ter melhores resultados nas suas atividades econômicas. Atualmente, o Brasil conta com 4.384 cooperativas que congregam quase 27 milhões de cooperados. Atua nos ramos de agropecuária, crédito, saúde, consumo, transporte, trabalho e produção. Além disso, está aprovando no Congresso Nacional o ramo de seguros.
Na última semana (em 09 de março), Tania Zanella participou, em Florianópolis de evento promovido da Organização das Cooperativas de Santa Catarina (Ocesc) e concedeu entrevista exclusiva para a coluna, no NSC Total. Falou sobre a trajetória, como concilia trabalho e família e das pautas prioritárias da OCB no momento atual: impactos da guerra nos combustíveis, fim da jornada 6X1 e da reforma tributária. Confira:
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Ao ser eleita presidente executiva da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), a senhora entrou para o grupo das mulheres mais influentes do Brasil e foi destacada pela revista Forbes. A que atribui esse avanço como liderança do setor cooperativista até chegar à presidência da principal instituição do setor no país?
– Foi um processo de muito trabalho, de muita dedicação. O cooperativismo nasceu comigo, ele é raiz, é família. Foram muitos percalços durante a trajetória, não vou negar, mas eu entendo o processo como uma forma muito natural.
Eu acho que as coisas foram acontecendo. O sistema cooperativista foi amadurecendo no sentido, também, de buscar essa maior diversidade, essa presença feminina. Então, eu acho que tudo o que se pregava, tudo o que se dizia no discurso foi praticado.
Me sinto também contemplada e reconhecida por esse trabalho todo, por esse esforço, essa construção que foi coletiva e, agora, fui reconhecida ao ser eleita para a presidência executiva da OCB a partir dezembro de 2025.
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A sua vivência com o setor cooperativista foi moldada quando criança na sua cidade natal, Ipumirim?
– Ipumirim tem essa coisa de cidade pequena, mas de famílias grandes. Os meus pais cuidaram dos meus avós paternos. Então, eu sempre tive uma convivência muito coletiva, muito participativa. Eu acho que essa entrega, esse construir coletivo sempre me levou para um lado mais cooperativista. E sem contar que meus pais sempre foram do movimento cooperativista. Eles sempre participaram como associados de cooperativa.
O meu pai era sócio da Copérdia (cooperativa de produção agropecuária e de consumo de Concórdia) e o meu irmão, hoje, trabalha na Aurora Coop. Além disso, o cooperativismo de crédito também estava sempre presente na nossa família.
Quando fui trabalhar em Brasília, aceitei convite do então deputado federal Odacir Zonta (ex-secretário de Agricultura de SC) que sempre teve a bandeira muito forte do cooperativismo e do agronegócio. Então, não tive como escapar. As coisas foram se encaixando e eu fui construindo esses espaços até chegar à OCB em 2008. Comecei como analista e hoje sou a presidente executiva da casa.
O seu pai, Valdir Zanella, além de cooperativista, é político. Atualmente, exerce o quinto mandato de prefeito de Ipumirim. Como o trabalho dele inspira a sua carreira e a sua atividade?
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– O meu pai começou na política aos 18 anos, como vereador. Mais tarde, ele foi vice-prefeito na gestão do prefeito Neivor Canton (hoje presidente da Aurora Coop). Então, por mais que a gente seja, hoje, um pouco descrente com essa política, com esse ambiente político, eu sempre tive no meu pai uma referência muito grande, daquilo que eu falo de servir e não de ser servido. Ele é reconhecido por fazer uma política séria, comprometida, por isso venceu com quase 70% dos votos.
Como foram seus estudos que ajudaram a chegar a diversos cargos de liderança da OCB?
– Como nasci em cidade pequena, tive que sair muito cedo de casa. Fui fazer o ensino médio em Curitiba. Depois, eu passei no vestibular em Direito na Univali, em Itajaí. Mas eu não queria fazer Direito. Esse é um segredo que vou contar a você. Eu queria fazer Odontologia, mas meu pai me obrigou a fazer Direito.
Ele me orientou para fazer o curso de Direito e, ao mesmo tempo, fazer cursinho em Florianópolis para tentar ingressar no curso de Odontologia na UFSC. Então, todos os dias eu fazia cursinho em Florianópolis e ia para Itajaí cursar Direito. Foi assim durante um semestre. Aí, quando não deu certo Odonto, porque era para não dar certo, eu resolvi me concentrar no curso de Direito. Eu, de fato, me entreguei para o Direito, gostei muito, trabalhei com pessoas maravilhosas, muito tempo no Ministério Público, fiz estágio em Itajaí e em Florianópolis.
Trabalhar em Brasília foi uma oportunidade que surgiu naturalmente?
– Eu fui chamada pelo deputado federal Odacir Zonta para trabalhar no gabinete dele. Antes, eu havia trabalhado com ele quando foi candidato a deputado federal. Depois, fui para Brasília e assumi a parte de assessoria jurídica do gabinete. Estou residindo em Brasília desde 2003, há 23 anos.
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Um desafio grande para as mulheres é conciliar a carreira com a família. Como é isso para a senhora?
– Eu tenho um casal de filhos do primeiro casamento e, recentemente, casei-me pela segunda vez. Como concilio? Eu acho que chega uma hora na vida que a gente toma decisões. Não dá para ser supermãe, super profissional e super dona de casa. Isso é balela. Temos que nos convencer de que precisamos encontrar o nosso equilíbrio.
Eu dedico muita qualidade ao tempo que fico com a família. Acho que é esse é o grande diferencial. Antigamente, os nossos pais tinham muito tempo com a gente, mas era um tempo de qualidade. Eles conversavam, dialogavam sobre tudo. Hoje, eu tento exercer com os meus filhos isso, muita qualidade no tempo em que estou com eles.
Mas meus filhos já são bem resolvidos. Sabem que a mãe larga uma mala de viagem e pega outra porque tem compromissos de trabalho. Eu me empenho para conciliar mais tempo com eles. Sempre que posso, levo minha filha para o colégio de manhã. O Luiz, mais velho, está com 19 anos, e a Isabela acaba de fazer 17 anos.
Vamos falar sobre seu trabalho à frente da OCB. Agora, temos a guerra no Oriente Médio e uma série de impactos nos preços dos combustíveis. Que medidas a OCB está tomando ou defendendo?
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– Eu acho que a preocupação está instalada. É uma preocupação com o desabastecimento. Hoje mesmo (dia 09 de março) nós tratávamos da questão do diesel. Os aumentos em função da guerra já estão se refletindo na bomba dos postos, ao consumidor.
Vamos fazer duas ações. Uma será protocolar um ofício para a Agência Nacional do Petróleo (ANP) fiscalizar para ver se distribuidoras estão retendo diesel. E outra é a proposta de aumentar o percentual do biodiesel no diesel. O Brasil, hoje, pode ser o grande diferencial nisso, pode baratear esse custo, inclusive fazer o biodiesel chegar rápido na bomba. O país produz esse combustível e já consegue atender essa demanda.
Além desses impactos da guerra, qual outra prioridade do setor cooperativista brasileiro está recebendo atenção especial da sua liderança?
– Outra prioridade, hoje, é a discussão da possível mudança da jornada de trabalho, do projeto de mudança da jornada 6X1. Existe uma confusão muito grande quando se fala em jornada e em escala. São coisas diferentes, mas está tendo uma falsa interpretação.
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Estamos explicando que o setor, de um modo geral, não é contra a discussão da modernização da jornada. Outros países já fizeram ou estão fazendo isso. Só que a gente não pode fazer a coisa açodada, no momento de uma eleição em que o processo e a discussão podem estar contaminados por ser um tema popular, por ter esse efeito eleições.
Sabemos que temos escassez de mão de obra. Além disso, em média, no Brasil, não se faz as 44 horas semanais. Não chegamos a uma média de 39 horas semanais atualmente. Então, acordos já estão sendo firmados entre patrões e empregados. Mas a questão é que se isso for colocado numa régua para todos os setores, será drástico. E não podemos deixar isso acontecer. A discussão tem que ser madura, consciente. Então, é algo que estamos colocando como prioridade muito forte no sistema OCB.
A questão da limitada oferta de crédito para plantio tem sido uma preocupação do agro brasileiro produtor de alimentos. Essa é uma preocupação também da OCB?
– Para nós, o Plano Safra é uma política pública importante, mas não está sendo suficiente para a agricultura. Há anos, o crédito subsidiado, aquele que o governo coloca (no Plano Safra), está cada vez mais escasso. O produtor, por sua vez, está endividado. O setor tem riscos, várias intempéries aconteceram, temos custos de produção altos e muitos preços (baixos) que elevaram muito o risco de endividamento dos nossos produtores.
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Estamos atentos a tudo isso. Hoje, nós não temos uma política de seguro que suporte a realidade do agro brasileiro e das nossas cooperativas. Então, é algo também que a gente está trabalhando. Uma lei que já foi aprovada no Senado e está na Câmara agora, que muda toda a política de seguro agrícola. O Plano Safra sempre é uma política muito bem trabalhada dentro do sistema OCB, pelas cooperativas.
E como a reforma tributária está impactando as cooperativas?
– Esse tema foi muito duro para as cooperativas. Conseguimos um belo resultado, sim, mas foi a duras penas. Agora, precisamos acompanhar isso de perto porque a implementação começou em 2026 e sabemos que não acompanharmos de perto, poderemos perder conquistas que tivemos no Congresso Nacional.
A OCB está com uma série de materiais à disposição das cooperativas, questão mais orientativa para a parte tributária das nossas cooperativas, de todos os ramos, e acompanhando de perto, principalmente, o desdobramento da Receita Federal.
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